O segundo dia de Milhões de Festa fica marcado pela abertura da Piscina, um dos palcos e um dos marcos principais do festival barcelense. Com concertos a começar às duas da tarde, o Espalha-Factos conta como correu o segundo dia de festival. Este foi também o primeiro dia com todos os palcos abertos e uma programação completa desde o início da tarde até à madrugada.

No ambiente idílico de piscina municipal que só o Milhões de Festa consegue criar para os festivaleiros organizados, Cacilhas e Mirrored Lips animaram o início da tarde do palco. Grabba grabba tape distinguiram-se pela sua peculiaridade: apresentaram-se vestidos de plástico e pêlo, e queixando-se do muito calor que fazia em Barcelos. A banda chegou a abraçar todo o público e a mergulhar na piscina, a seguir ao último acorde do concerto que encheu a piscina do synth-punk que os caracteriza.

O DJ K-Sets fechou o palco Piscina no seu dia de estreia com a sua coleção completa e variada das sonoridade de um pouco de todo o Médio Oriente. De género musical, não há regras, apenas que tenha tocado em auto-rádios persas, árabes, curdos e turcos.

Krake Ensemble

O recinto do Milhões de Festa propriamente dito abre oficialmente os seus palcos às 21h00. É com Krake Ensemble que se inicia a sessão de concertos. Foi a partir deste dia que as atuações se intercalaram entre o Palco Milhões, onde no dia anterior já tinha havido concertos, e o Palco Lovers, estreado neste dia.

Krake é o alter-ego de Pedro Oliveira, que se debruça no projeto orientando-se mais para a experimentação na música eletrónica. Barcelos teve direito a ensemble. A Pedro Oliveira juntaram-se Alexandre Soares, Luís Fernandes, Julius Gabriel e Angélica Salvi num concerto que foi mais uma viagem etérea do que apenas um lugar para ouvir música. Criaram um ambiente só deles, óbvio a quem assistia e dele fazia parte, só momentâneo, em que tudo aquilo fez sentido.

Lena d’Água e Primeira Dama com a Banda Xita

Lena d’Água é, talvez, o nome mais ressonante que provavelmente alguma vez irá fazer parte do cartaz do Milhões de Festa aos olhos de qualquer português. Tendo tido o seu maior sucesso durante a década de 80, sobe agora aos palcos portugueses com Manel Lourenço, mais conhecido como Primeira Dama e com a banda da Xita Records.

Começando o concerto para um público algo desconfiado com o que iria ali acontecer, Primeira Dama e Lena d’Água partilharam o palco equitativamente, tocando músicas de ambos. Olhos d’Água foi o destaque da artista e Rita foi o destaque dos hits de Primeira Dama. Aplaudida amplamente pelo público, Lena d’Água foi uma presença interessante a pisar o festival barcelense.

Circle

O coletivo finlandês é uma banda de culto com mais de 50 discos editados. Nessa imensidão de música criada pelos artistas estão géneros que vão desde o jazz ao metal ou kautrock. A banda dá um concerto que estende os braços além da música para criar um conceito muito específico e único. Apresentaram-se todos em palco vestidos com uma espécie de collants, e com um teclista impressionantemente flexível, tal qual bailarino.

Warmduscher

Filhos da família dos Fat White Family, Warmduscher chegaram ao Milhões de Festa como quem chega a casa depois de um longo dia de trabalho. Confortáveis e imediatamente adorados, fizeram aquilo que já se esperava ouvir: destruir quase até às fundações todo um género de música tradicional. Ora, nada melhor do que isso para um festival que tem como lema da edição “a tradição já não é o que era”. Pegando nesse ponto de partida, a música como que é enrolada sobre si própria, criando uma nova identidade que em nada tem a ver com a primeira, nem com qualquer outra. Para o Milhões de Festa, sem dúvida, funcionou.

Squarepusher

A música eletrónica de Squarepusher é uma ode à experiência e ao afastamento dos cânones da música comercial dessa área. O drum ‘n’ bass é a sua assinatura e foi isso que nos deu em Barcelos, no primeiro concerto que se pode considerar after-hours. A sua última obra editada é marcada pelo controlo de tudo o que é produção musical, tendo criado um software único para si. Envolto num ambiente de ecrãs LED e linhas geométricas transportou-nos para dentro da bolha digital, dirigidos pela própria música.

Nas restantes after-hours, houve Scúru Fitchádu, que na tradução do criôlo significa “escuro cerrado”. O músico entregou-nos a intensidade do punk e o funaná cabo-verdiano tudo aglomerado em distorção e noise e ritmos rápidos, que aceleraram o público e a noite. Às 4h20, houve DJ Lynce em parceria com os efeitos visuais de Berru.

Contudo, um pouco antes dessa hora, Barcelos foi brindado com um espetáculo de trovoada e chuva que levou muitos festivaleiros a caminho do campismo, para salvaguardarem as suas camas temporárias. Aí se distinguiram dois tipos de pessoas: as que aceitaram dormir no molhado debaixo do teto instável de plástico a que chamamos tendas, e as que não, procurando apenas um teto de origem de construção civil, que foi o pavilhão municipal do parque da cidade em que os festivaleiros acamparam. A tempestade durou a noite inteira, acabando de manhã cedo, tal qual a bonança prometida pela sabedoria popular, que preparou simbolicamente mais um bonito dia de Milhões de Festa.

Fotografias de Inês Graça