O ator Burt Reynolds, um ícone tanto do cinema em geral como da cultura popular dos anos 70 e 80, faleceu esta quinta-feira, dia 6 de setembro. O seu representante, Erik Kritzer, confirmou publicamente o sucedido, que teve lugar em Júpiter, Flórida, nos Estados Unidos da América.

A sobrinha do ator americano Nancy Lee Hess declarou em comunicado que “ele [Burt Reynolds] tinha problemas de coração, no entanto, isto era totalmente inesperado“. Reynolds tinha 82 anos. Apesar da idade relativamente avançada, continuava a protagonizar filmes de forma recorrente, nunca se afastando da TV, onde começou a carreira artística.

Ele era resistente. Alguém que parte o seu cóccix no rio e acaba um filme é resistente. E esse era quem ele era. O meu tio estava ansioso para trabalhar com Quentin Tarantino, e o fantástico elenco montado“, insistiu a sobrinha de Burt Reynolds.

O último filme em que o ator aparecerá vai ser a comédia Defining Moments (2018), que vai sair ainda este ano. No entanto, Reynolds fazia parte do elenco de Quentin Tarantino para Once Upon a Time in Hollywood (2019), onde ia protagonizar o dono de um rancho utilizado pela família Manson, sobre a qual se debruça o filme.

Como não chegou sequer a principiar o processo de filmagem, Tarantino terá de encontrar um substituto para este papel.

Quem foi, afinal, Burt Reynolds?

Para a nova geração de cinéfilos, Burt Reynolds pode soar somente a Jogos de Prazer (1997), filme que, apesar do alto estatuto que alcançou, foi nesse ano abafado pelo colosso e multi-vencedor Titanic (1997). Mas, em boa verdade, este ator alcançou uma popularidade invejável através de filmes como Fim-de-Semana Alucinante (1972), Os Bons e os Maus (1977) ou Meia bola e… força (1977).

A sua posição ficou inteiramente definida aquando do lançamento do filme Golpe Baixo (1974), que contava a história de um guarda sádico a desafiar um ex-quarterback que cumpria a sua pena a juntar uma equipa de futebol americano com os restantes reclusos para bater os guardas prisionais. O filme teve não só direito a um remake com Adam Sandler, Os Quebra-Ossos (2005), como à presença repetente de Burt Reynolds, que aqui passou de jogador a treinador.

Mas o melhor ainda estaria por chegar…

Burt Reynolds e Mark Wahlberg em Jogos de Prazer (1997) (Fotografia: IMDb)

Por ser um filme sobre a indústria pornográfica californiana do fim dos anos 70 e início da década seguinte, Burt Reynolds era o ator ideal para protagonizar o cabecilha dos filmes eróticos por ela produzidos, em Jogos de Prazer. Pelo menos, foi isso o que o seu agente achou.

No entanto, depois de ver um corte do filme, o ator sentiu imediatamente arrependimento por ter feito parte do elenco. Começou por despedir o tal agente, por este lhe ter recomendado fazer o filme, e continuou a recusar participar das entrevistas e campanhas promocionais inerentes à obra, que considerava demasiado explícita, da autoria de Paul Thomas Anderson.

Burt Reynolds acabou por vencer um Globo de Ouro pela sua prestação e, como nunca tinha acontecido nem mais voltou a acontecer, ser nomeado ao Oscar de Melhor Ator Secundário. Consta, até, que a vitória não se sucedeu muito simplesmente pelo propositado afastamento do ator de Jogos de Prazer.

Outro motivo pelo qual Burt Reynolds soou à escolha certa para vestir o papel do realizador de porno Jack Horner foi talvez o mesmo ter posado quase nu para o fascículo masculino da revista Cosmopolitan, em 1972.

Burt Reynolds posando para a revista Cosmopolitan, em 1972 (Fotografia: BBC)

Mas nem só em Os Quebra-Ossos Burt Reynolds sofreu a metamorfose de passar de jogador a treinador: o ator, a dada altura da carreira, passou também a realizador. Teve a sua estreia enquanto cineasta com o filme Gator, o Implacável (1976), partindo imediatamente para outra experiência cinematográfica sentado na principal cadeira do negócio com a comédia negra O Fim (1978), com a estrela cómica Dom DeLuise.

Mas que não se pense que o ator e realizador só brilhava junto das câmaras: o então jovem Burt Reynolds recebeu uma bolsa de futebol americano pela Universidade do Estado da Flórida. Porém, praticou o desporto por apenas duas épocas, tendo saído de cena lesionado num joelho para nunca mais regressar aos relvados.

Mais recentemente, a sua popularidade foi desvanecendo. E ainda foram algumas as tentativas de a reavivar, sendo a mais conhecida, talvez, o falhanço Striptease (1996), onde contracenou com Demi Moore.

Um dos seus últimos aparecimentos no grande ecrã foi em Dog Years (2017), onde surgiu protagonizando-se essencialmente a si próprio enquanto uma estrela que confronta a mortalidade.

Se Burt Reynolds foi capaz de contornar aquela que foi possivelmente a sua maior ascensão ao estrelato (com Jogos de Prazer), não caiemos nós na facilidade de o deixar esquecer, contornando também o facto de este ter sido um dos mais importantes e reconhecidos atores da sua época.