Desde 1973 que se conhece a fuga da prisão por Papillon (1973) no grande ecrã, mas isso não implica que se deixe de contar a história uma vez mais. A estreia desta semana é um remake homónimo do filme de 73, também baseado no romance autobiográfico de Henri Charrière, e conta com as prestações de Charlie Hunnam no papel de Henri ‘Papillon’ Charrière e Rami Malek no de Louis Dega. Na versão original, os papéis cabiam a Steve McQueen e Dustin Hoffman, respetivamente.

Depois de ter sido condenado por um assassinato que não cometeu, Papillon encontra-se enclausurado num navio a caminho de uma prisão francesa numa ilha no meio do oceano. À primeira vista, dali não há escapatória.

Durante a viagem, o prisioneiro ouve falar no amplamente conhecido pela sua reputação de falsificador Louis Dega, que também segue no navio. No entanto, Dega leva não só o pescoço à deriva mas muito dinheiro no bolso, e é portanto um alvo apetecível para os outros reclusos.

Planeando a fuga, Papillon vê neste Louis Dega a oportunidade de reencontrar a liberdade e, para isso, tenta juntar o útil ao agradável: garante proteção ao intelectual e franzino, e em troca fica de receber o dinheiro para, na altura certa, comprar uma embarcação na qual se vai poder evadir.

No filme original, o argumento levava as assinaturas de Lorenzo Semple Jr. e Dalton Trumbo, escritor que entrou para a lista negra de Hollywood em 1947 por se recusar a depor acerca de alegadas influências comunistas em filmes americanos. Tal resultou, para o autor do aclamado romance anti-guerra Johnny Vai à Guerra (1939), em onze meses numa prisão federal por desobediência civil.

Desta vez, uma parte do guião resulta dos escritos dos mesmos dois argumentistas, mas o resto vem das mãos do responsável pelo argumento do filme Raptadas (2013), Aaron Guzikowski. Tudo isto é uma adaptação do já falado romance de Henri Charrière, Papillon (1969), escrito durante os seus tempos enquanto prisioneiro.

A realização do remake vai ficar a cargo de Michael Noer, cineasta dinamarquês que se estreia, com Papillon (2017), em Hollywood.

McQueen e Hoffman ou Hunnam e Malek?

Em 1980, morria Steve McQueen e nascia Charlie Hunnam. McQueen era um dos ícones da contracultura americana dos anos 60 por brilhar, então, como anti-herói em inúmeros filmes de ação. Participou de obras como A Grande Evasão (1963) – muito à semelhança deste Papillon – e Os Sete Magníficos (1960), que também teve direito a uma nova versão, em 2016.

Ainda assim, as semelhanças entre Steve McQueen e Charlie Hunnam, para além das participações em vários filmes de ação, começam no aspeto físico. Os atores tinham sensivelmente a mesma idade quando protagonizaram Henri ‘Papillon’ Charrière.

Também Rami Malek dá ares do Dustin Hoffman daquela altura, como não podia deixar de ser, e esse é um importante ponto de partida para o novo filme.

Dustin Hoffman e Steve McQueen em Papillon (1973) (Fotografia: IMDb)

A versão de 1973, realizada por Franklin J. Schaffner, é consensualmente reconhecida por ser uma daquelas obras que nos fazem ter uma noção bem clara daquilo que é a nossa liberdade – através de uma edição capaz de representar realisticamente a falta dela – e, por conseguinte, leva-nos a valorizá-la. O filme, a bem dizer, deixa o coração de qualquer um nas suas mãos. A questão que aqui se coloca é: será que este Papillon não o vai deixar cair?

As semelhanças físicas já estão garantidas. Pese embora o fardo de um clássico de renome como este, resta saber se Charlie Hunnam consegue mergulhar na confusa e persistente cabeça do rebelde Steve McQueen e Rami Malek vestir a inocência e alheamento de Dustin Hoffman – traços trazidos diretamente de O Cowboy da Meia-Noite (1969).

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