Se apenas tivesses 100 palavras por dia, o que farias para te fazeres ouvir? Vox, de Christina Dalcher apresenta-nos um mundo onde as mulheres só podem dizer 100 palavras por dia. O romance distópico da autora foi publicado no dia 21 de agosto deste ano.

As mulheres falam demasiado? Os estereótipos é que dizem que sim

Da Pop Culture até ao mundo empresarial, as mulheres são precedidas pela reputação de falarem demasiado. Em séries como Black-ish e Modern Family não são poucas as piadas sobre maridos que fazem de tudo para evitar ouvir as suas mulheres. E em 2017, um antigo diretor da Uber, David Bonderman foi forçado a apresentar a demissão depois de ter dito que mais mulheres na direção resultaria em mais conversa.

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Vox, de Christina Dalcher

A História de inúmeras sociedades, por todo o mundo, a tentar silenciar mulheres é inegável. Mas o que aconteceria se fossem bem-sucedidas? Se as mulheres fossem de facto limitadas, não só ao que poderiam dizer, mas com que frequência poderiam falar? Esta é a realidade arrepiante que faz arrancar Vox, de Christina Dalcher, um romance distópico, que toca a consciência social de qualquer um, retrata um mundo onde as mulheres são limitadas a dizer apenas 100 palavras por dia.

Podes encontrar a obra de Christina Dalcher aqui.

A história deste livro é sobre uma realidade em que o Movimento Puro transformou os Estados Unidos num país onde mulheres são proibidas de ter empregos, contas bancárias, escrever, ler, estudar, e até mesmo dizer mais de 100 palavras num dia.

Jean agora passa os dias fechada em casa. Limita-se a ser mãe, mulher, dona de casa e a ansiar pela liberdade que conheceu e que não tem esperança nenhuma de recuperar. O que mais a aterroriza é o silêncio restrito às mulheres seja aceite e defendido pelo seu marido, os seus três filhos e ainda a sua filha.

A sua ajuda é exigida pelo Presidente, quando o seu irmão mais velho, num acidente danifica gravemente o cérebro. Enquanto está dedicada a esta missão para o salvar é novamente livre de quaisquer restrições que a atormentassem antes. Mas o que é que ela vai estar disposta a fazer com a sua nova voz e o que está disposta a fazer para a manter?

Porque é que as distopias feministas estão tão na moda?

A Vox juntam-se The Completionist, de Siobhan Adcock e Red Clocks, de Leni Zuma e todos estes livros procuram tocar a consciência de cada um, alertando para as causas feministas. No pequeno ecrã, a adaptação de The Handmaid’s Tale segue o mesmo registo, dando ao mundo a conhecer contos obscuros de opressão e discriminação contra mulheres.

Podes encontrar a obra de Siobhan Adcock aqui e a de Leni Zuma aqui também.

Dalcher confessou ao Entertainment Weekly como o seu livro fala mais sobre a atualidade política, de maneiras que muitos não esperavam.  “A ideia original era trabalhar o conceito de perda da linguagem. De humanos encontrarem-se incapazes de fazer algo tão essencial para nós que raramente chegamos a pensar nisso.” Foi o desejo de querer escrever sobre “aquilo que nos separa do reino animal” – a linguagem – e o sufoco que a falta da mesma pode causar que fez nascer Vox.

Ficção distópica como constante lembrança das fragilidades que vivemos

A ideia evoluiu e foi sobre o abuso dos poderes governamentais que Christina Dalcher decidiu centrar a sua história: “Um dos meus maiores medos é o que pode acontecer caso demasiado controlo caia nas mãos de alguém com uma agenda própria.” Em Vox essa agenda é a segregação entre géneros, a separação dos seus papéis e leva-nos a uma realidade não muito distante, aos séculos XIX e XX.

O desafio de dar vida a uma distopia fictícia nunca foi algo que tenha assustado a autora. “[Foi] Pôr palavras no papel, contar uma história e assustar de morte os leitores ou levá-los a pensar sobre o mundo de uma maneira diferente.”

Uma lembrança constante da fragilidade que vivemos. É assim que Dalcher expressa a importância da sua obra e das restantes ficções distópicas. “Quem tem a sorte de viver em democracias precisa de se lembrar que essas democracias são extremamente frágeis. A ficção distópica vai ser sempre oportuna e necessária”.

Uma distopia feminista exagerada?

As opiniões sobre Vox não têm, contudo, sido unânimes. Numa crítica no The Guardian pode ler-se: “Se Dalcher quer acordar as pessoas com um susto, faria melhor reencaminhá-las para livros de História, em vez de as encaminhar para um futuro mirabolante e precipitadamente imaginado”.