Vodafone Paredes de Coura 18′: Sapatilhas voadoras, combustões electrónicas e declarações à pastelaria (I)

Ainda a ressacar da depressão pós-Coura, é hora de sentar e escrever umas palavras mais a frio sobre aquela que é para nós, e para muitos, a melhor semana do ano. Aquela semana em que deixamos as responsabilidades, os compromissos e os horários trancados em casa e partimos rumo a um refúgio do mundo real. Um sítio quase utópico que parece coberto por uma cúpula que só emana amor, numa perfeita simbiose entre a natureza e a música.

O Espalha-Factos marcou presença na 26.ª edição do Festival Vodafone Paredes de Coura e preparou para ti uma reportagem escrita sobre o festival, dividida por dias, para que consigas recuperar da melancólica despedida do Couraíso.

Dia 15: ‘Senti a tua falta, Coura’

Nas margens do rio Taboão a manhã era de calor. Os raios de sol facilmente perfuravam os tecidos das tendas dos campistas e deixavam os corpos transpirados. Estamos acordados há mais de uma hora e já não podemos com o chato do gajo do megafone que não se cansa de desejar bom dia a toda a gente. Bom dia também para ti, senhor. (Nunca sejam o gajo do megafone, por favor). Abrimos a tenda e lá sentimos uma ligeira aragem fresca. Cinco segundos de alívio que se esgotam com a brasa que se faz sentir lá fora. Só um mergulho no rio nos pode ajudar.

Era o primeiro dia do Festival e o ambiente à beira rio dizia-nos isso mesmo. Sorrisos e mais sorrisos. Abraços, beijos e reencontros de amigos que não se vêem faz tempo. Mergulhos, saltos acrobáticos e outros mais desajeitados. No rio, os barcos, os flamingos e os unicórnios fazem viagens lentas que mais parecem odisseias de contornos épicos. As saudades que já tínhamos disto.

O relógio marcava as seis da tarde. Estava na hora de ir à tenda buscar o casaco para vestir à noite e seguir para o recinto. Isto porque faltava apenas meia hora para o primeiro concerto oficial da edição deste ano – com os portugueses Grandfather’s House a abrir o palco principal. Depois de perdermos todo o fôlego na rampa que dá acesso ao recinto, facilmente somos recompensados pela beleza daquele anfiteatro natural que ainda estava a ser pintado pela luz do sol.

As pessoas começavam a chegar a espaços e a instalarem-se a gosto na relva natural do recinto enquanto os Grandfather’s House subiam ao palco principal para abrirem as hostilidades da 26.ª edição do Vodafone Paredes de Coura. A banda viajou de Braga até Paredes de Coura e trouxe consigo Diving, o segundo álbum de originais dos bracarenses lançado em 2017.

Os portugueses justificaram a aposta da organização do festival e deixaram a sua energia pop obscura bem patente. A voz e o sintetizador de Rita Sampaio agarraram um público que pareceu tímido, mas que se deixou conquistar com canções como You’ve Got Nothing To Lose ou Drunken Tears. “Sejam vocês mesmos, façam aquilo que gostam” foi a mensagem de despedida da vocalista para o público de Coura.

O próximo nome a subir ao palco principal chegava da Nova Zelândia e vinha no catálogo dos nomes mais promissores da edição deste ano. E assim foi. Marlon Williams sabe cantar o desamor e mostrou-o à bonita moldura humana que assistiu ao seu concerto. O seu alinhamento foi composto, na sua maioria, por temas do seu mais recente álbum Make Way For Love. Um disco que descreve nos seus versos o fim de uma relação amorosa e todos os sentimentos que daí provêm sob uma sonoridade que viaja do country, ao soul, passando pela pop. Viagens embaladas por temas como Come To Me ou Can I Call You que deixaram a audiência na flor das emoções. Sem dúvida um dos concertos que vai ficar na retina da edição de 2018.

A noite caía e o anfiteatro começava a ficar bem composto para assistir a um dos mais esperados comeback’s do festival. É preciso recuar até 2014 para relembrarmos a última aparição dos Linda Martini em Paredes de Coura. O bom filho a casa torna e quatro anos e dois álbuns mais tarde, voltaram a conquistar o trono do habitat da música. E souberam fazer justiça a essa distinção. Antes de entrarem em palco, a imagem a preto e branco de Linda Martini (rapariga que é representada no últimos disco homónimo da banda) aparecia no grande ecrã e soltava os primeiros júbilos do público courense. Também o nome de Phill Mendrix, guitarrista português que havia falecido dois dias antes, aparecia escrito na bateria de Hélio Morais.

O cenário estava montado para um concerto que se esperava repleto de energia e emoção, tudo o que um regresso a casa deve ser. Logo a abrir, três temas do mais recente trabalho do quarteto lisboeta – Gravidade , Caretano e Boca de Sal – acenderam o rastilho para o resto do alinhamento e ofereceram aquela pujança que tão bem nos habituaram. Nas primeiras filas, o mosh só se agitou quando André Henriques soltou o primeiro verso de Panteão, do álbum Turbo Lento, de 2013. Amor Combate e Cem Metros Sereia também não faltaram para arrepiar a pele dos fãs e fazê-los cantar em bom português. Ainda houve tempo para Pedro Geraldes ser levado num bonito crowdsurf com direito a uma ovação emotiva no final. Os Linda já não são os mesmos sem Coura e com certeza que Coura é um pouco menos sem os Linda.

Depois de derreter o coração com Marlon Williams e de gritar de emoção ao som dos Linda, aproximava-se o concerto mais esperado do dia inaugural do Vodafone Paredes de Coura. Os australianos King Gizzard and The Lizard Wizard tinham encontro marcado num palco onde já foram muito felizes em 2016, ano em que a banda andava em tour com o disco Nanagon Infinity, lançado no mesmo ano.

Há dois anos, a atuação em Coura foi uma das que ficou na memória dessa mesma edição e Stu, Ambrose e os seus amigos queriam voltar a repetir a dose. E assim foi. O sempre enérgico e prolífico grupo ofereceu o melhor do rock psicadélico e foi retribuído na mesma dose. O alinhamento incidiu principalmente nos cinco álbuns que a banda lançou durante o ano passado.

Digital Black foi um prenúncio ao poder sonoro que aí viria. Mas foi com Rattlesnake, tema de Flying Microtonal Banana, que se atingiu o expoente máximo. Afinal, estávamos perante uma das melhores bandas da cena alternativa dos últimos anos. Os saltos loucos prosseguiram e a banda sonona ficava cada vez melhor. A banda australiana foi em crescendo e terminou com três temas mais sonantes de Nanagon InfinityRobot Stop, Gamma Knife e People Vultures. E nem o tapete colocado junto à frontline impediu que se levantasse a já típica poeira que levou o concerto para cenários texanos.

Sapatilhas, camisolas e copos voaram no meio de dezenas de moshes que pareciam não terminar. No final, faltou um encore que trouxesse hinos como The River ou I’m In Your Mind Fuzz. Mas os sorrisos continuavam estampados nas mais de 20 mil pessoas que assistiram a uma lição de rock dos King Gizzard and The Lizard Wizard.

Se até aqui a noite tinha tido uma faceta mais rock, as coisas mudaram quando os The Blaze fecharam o palco principal, que foi no primeiro dia o único em funcionamento até aos after-hours do palco secundário. O diretor do Festival, João Carvalho, já tinha alertado para a qualidade do duo francês. E foi a vez de tirarmos tudo a limpo. Aquando do final do concerto dos King Gizard and The Lizard Wizard, a montagem do palco dos franceses rapidamente despertou a atenção do público. Uma espécie de caixa formada por telas de projeção estava montada e não se sabia bem porquê. Tivemos que esperar pelo início da atuação dos dois primos Guillaume e Jonathan Alric para perceber.

Mal a música arrancou essa “caixa” foi-se abrindo enquanto se desvendava o duo que soltava uma batida que fazia dançar o público de Coura. Ao mesmo tempo, uma narrativa cénica era projetada nas telas que envolviam os The Blaze. As cores multiplicavam-se e casavam na perfeição com a combustão eletrónica que se ouvia. Depois da dose rock, dançámos ao som de uma eletrónica que nos levou para outra dimensão. Foi bom. O Paredes é feito de surpresas positivas. E esta foi uma delas.

E por falar em surpresas. O que dizer do concerto de Conan Osiris no palco secundário? Se, há um ano atrás, disséssemos a Tiago Miranda aka Conan Osiris que estaria presente na edição 2018 do Vodafone Paredes de Coura talvez ele não acreditasse. Talvez ninguém o fizesse. Mas a verdade é que depois do boom que a sua carta de amor à pastelaria teve, os limites acabaram para o lisboeta. Adoro Bolos, disco lançado no final de dezembro do ano passado, conquistou muitos e desconcertou outros. Chegou a todos os ouvidos e a todas as gerações. E, em Coura, conquistou uma enchente no palco Vodafone FM. Com temas como Borrego, Celulitite ou Adoro Bolos conseguiu, pelo menos aparentemente, reunir um consenso que confirma o fenómeno.

Para fechar, Nuno Lopes encerrou o primeiro dia e cumpriu. Pôs toda a gente a dançar e foi o primeiro artista do dia com direito a encore. E não deixou passar a oportunidade para homenagear um dos grandes da música portuguesa. Homem do Leme foi a última dança que deixou os courenses com pele de galinha e a cantar em coro.