Vodafone Paredes de Coura 18′: Obrigado Coura, até para o ano! (IV)

Dia 18: Nostalgia, emoção e euforia. Tudo o que uma despedida deve ter

Era o último dia na praia fluvial do Taboão. Um dia repleto de mixed feelings. Por um lado, era o dia em que os gigantes Arcade Fire iam partir o palco principal, por outro, mais uma edição do Vodafone Paredes de Coura estava prestes a acabar e a nostalgia já tomava conta de nós.

O cansaço também já fazia parte dos olhares dos filhos de Coura. Mas a felicidade, essa continuava a estar bem patente nos sorrisos rasgados com que nos cruzávamos no campismo. O coração já transbordava mas ainda faltava um dia de concertos e momentos para a posteridade.

No último dia de festival, as pessoas acordam mais cedo do que o normal. Vão à vila pela última vez, querem aproveitar para apanhar o último sol, mandar o último mergulho ou fazer a última viagem de barco. A melancolia combate-se com mais brincadeiras, mais leituras e mais jogos de cartas. Mais sorrisos e mais conversas boas.

Quando a fome aperta, trás-se o campingaz para o rio e cozinha-se por ali. Os pratos gourmet a serem servidos vão desde a massa com salsichas à tradicional feijoada enlatada. Aqui a comida é o menos importante, apesar de essencial. Mas não se nega as saudades do arroz de cabidela da mamã e já se pensa na primeira refeição em casa.

Para ajudar à digestão, nada melhor do que ouvir um dos nomes mais promissores da nova música portuguesa. Mr Gallini subia ao palco Jazz na Relva para tornar a aquela última tarde ainda mais especial. E que bem o conseguiu.

Ainda com muita gente no rio, subimos a íngreme rampa do recinto pela última vez. Os ponteiros do relógio aproximavam-se das seis e os Keep Razors Sharp preparavam-se para fazer a sua aguardada estreia no Vodafone Paredes de Coura. O palco Vodafone FM ainda deixava entrar os raios de sol e as pessoas começavam a formar uma boa moldura humana para ver os portugueses.

Afonso, Rai, Bráulio e Bibi sobem para o palco e o público reage. São quatro amigos unidos pela música e a sintonia deles estava pronta para ser oferecida ao povo. Para eles não há influências, há vivências da vida nua e crua. E isso é aquilo que os faz compor a música que fazem.

Em Coura, deram uma lição de rock psicadélico fundido com shoegaze e deixaram os courenses felizes. I See Your FaceThe Lioness ou a fresca Always and Forever deram amor a um público que também soube retribuir. ““Amo-vos. Fazia amor com vocês todos“ – foram as palavras de Rai na estreia no festival minhoto.

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Do palco secundário, corremos até ao palco principal onde Curtis Harding se preparava para fazer a sua estreia no festival. Um dos nomes maiores da soul moderna, pisava um palco que via o sol a despedir-se do dia. Harding aparecia em palco com o seu ar descontraído e assim que cantou o primeiro verso, a conexão com a plateia só se desligou quando o artista deixou o palco.

Dono de uma das melhores vozes da atualidade, o rapaz do Michigan consegue homenagear a soul do final dos anos 60 e acrescentar-lhe uma identidade muito própria. À voz acrescenta-se uma perícia instrumental, com grande destaque para Jeremy Gale, que dá todo um exotismo aos temas.

Cantou a dor, as emoções, os prazeres e as tristezas num dos concertos com mais poder soul do festival. Músicas como Keep On Shining ou Face Your Fear embalaram uma plateia feliz. Mas foi o último tema I Need Your Love que teve a reação mais calorosa.

Caloroso é um adjetivo que encaixa bem ao concerto que Silva deu no palco secundário. O brasileiro veio a Paredes de Coura mostrar o porquê de ser considerado um dos nomes mais promissores da música brasileira. Transformou o palco Vodafone FM numa festa tipicamente brasileira. Sambou-se e cantou-se ao som de temas como A Cor É Rosa ou Beija Eu.

Com a noite a cair, o recinto começava a encher naquela que seria uma das noites mais concorridas de sempre do festival. Vinte e sete mil pessoas eram esperadas no recinto do Vodafone Paredes de Coura. Num dia em que os bilhetes diários estavam esgotados, houve mesmo quem comprasse o passe geral a poucas horas do final da edição de 2018.

A principal razão eram os Arcade Fireque atuavam há uma da madrugada. Mas os Big Thief mostraram que tinham qualidade para tocar no mesmo palco que os canadianos. Adrianne Lenker consegui fazer com que o afiteatro natural se tornasse numa sala modesta e íntima. Um sítio onde quase que conseguíamos ouvir a sua respiração.

Isso deve-se ao respeito que caracteriza o público de Coura, mas também às bonitas e simples canções que Adrianne nos cantou embalada na sua guitarra. A comparação com Angel Olsen foi quase inevitável, mas havia ali algo que a diferenciava de outros artistas. Uma genuinidade doce que conquistou Coura. Masterpiece  foi a canção que mais marcou um concerto bem conseguido.

Enquanto fazíamos tempo para ver os portugueses Dead Combo, demos um salto ao palco secundário onde viajámos até ao Líbano com a Yasmin Hamdan. A menina do emblemático duo Soapkills, o primeiro grupo indie electrónico do médio oriente, justificou os rasgados elogios que a crítica lhe tece.

A voz indissociável das raízes árabes casam bem com sonoridades electrónicas pop ocidentais e o resultado é estranhamente bom. As jogo de luzes e as danças do ventre de Yasmine dão um colorir ainda maior ao que acontece no palco. De repente, parece que estamos no meio de um filme de Bollywood. Afinal, o que era Paredes de Coura sem estas boas surpresas?

Com o aproximar do concerto mais esperado da noite, muitas eram as pessoas que já se iam acomodando à frente do palco. Mas os Dead Combo não estavam ali para abrir a festa a ninguém. Vieram a Coura com múltiplos argumentos e com um belíssimo disco novo lançado este ano- Odeon Hotel. A moldura estava montada e os fatos coloridos de Tó Trips Pedro Gonçalves anunciavam que a noite era especial.

E era mesmo. O concerto começa e percebemos que tudo aquilo fazia sentido. Os Dead Combo há muito que deixaram de ser um duo para ser uma banda cheia de perícia que preenche qualquer palco do mundo. Deus Me Dê Grana deu um abanão num público que estava sedento de rock.

Cuba 1979 Esse Olhar Que Era Só Teu mostram bem a versatilidade de uma banda que se sente bem em muitos registos. Das guitarradas a soar a fado ao rock’n’roll, houve ainda tempo para que Mark Lenegan subisse ao palco e presenteasse o povo com o seu vozeirão. Lisboa Mulata fechou com chave de ouro um bonito triunfo dos alfacinhas em Coura.

E, agora sim, era hora de tentar perfurar a multidão e arranjar um sítio perfeito para ver um daqueles concertos capazes de mudar vidas. ‘Com licença…com licença…peço desculpa..oi…’. Depois de passarmos por dezenas de pessoas lá encontrámos um sítio periférico, apesar de nos continuarmos a sentir como sardinhas enlatadas.

A poucos minutos da 1 da madrugada, todos os olhos estavam colados na grandiosidade do palco. No topo, duas telas gigantescas  a convergir para o centro e uma imensa bola de espelhos aumentavam o suspense e a ansiedade dos fãs ali presentes.

De um momento para o outro, as luzes apagam e começa-se a ouvir a intro de Everything Now, faixa homónima do último álbum dos canadianos. Enquanto subiam ao palco, ouvia-se a primeira grande ovação da noite. Tudo a postos, o maestro Win Butler cumprimentava o povo que lotava o anfiteatro e fazia sinal para se começar a festa.

A melodia de Everything Now era entoada num coro feliz e, 18 anos depois, os Arcade Fire regressavam onde haviam sido muito felizes em 2005. Nas telas conseguia-se ler em bom português ‘Tudo Agora’. Depois viajámos ao passado com as energética Neighborhood #3 (Power Out) e a intemporal Rebellion (Lies). Dois temas de Funeral, álbum que apresentaram na primeira passagem por Paredes de Coura, e que afinavam as vozes da plateia.

No alinhamento seguiu-se No Cars Go, a fazer brilhar o violino de Sarah Neufeld e a reclamar os coros emotivos dos courenses. Depois de uma entrada de tirar o fôlego, Win Butler parou para agradecer e para recordar o mítico primeiro concerto na vila.

‘Muitos dos que aqui estavam na primeira vez ainda eram miúdos. Nós também éramos. Hoje voltamos!’

Diz-se que se volta sempre aos sítios onde fomos felizes. E os Arcade Fire pareciam com vontade de repetir a dose. Sempre empolgantes e teatrais, interagiam inúmeras vezes entre eles e nunca perdiam a adrenalina. Seguiu-se o regresso ao mais recente trabalho para ouvirmos Régine Chassagne cantar Electric Blue com o seu jeito muito característico.

Visualmente, o brilhantismo cénico também acompanhava a qualidade sonora da banda. Close ups em tempo real dos músicos misturavam-se com os videoclips dos temas e outros materiais audiovisuais que justificam a enormidade da logística do grupo.

Put Your Money On Me, Cars and Telephones e Intervention, com especial dedicatória a Donald Trump davam corda a um concerto que já denunciava contornos épicos. Já perto do final, ainda se ouviu The Suburbs, Ready to start, Sprawl II (Mountains beyond mountains)Reflektor.

Agradeceram e abandonaram o palco. Mas todos sabíamos que não era uma despedida final. Voltaram e chegaram os primeiros acordes de Wake Up para as 27 mil pessoas erguerem as suas lâmpadas e entoarem o coro mais memorável desta edição. Sob uma plateia visivelmente emocionada, os Arcade Fire, também eles deslumbrados, despediam-se de vez de um público que soube retribuir todo o amor.

No dia seguinte, o sentimento ainda é misto. Acordar para arrumar as coisas ou ir ao rio dar o mergulho da despedida? A segunda opção pareceu-nos bem. Ali, no palco Jazz na Relva, um after do after foi criado por João Carvalho, cujo lema era “A despedida não tem de ser um dia triste”. Das seis da manhã às 19h, vários dj’s passaram músicas para animar os que ainda permaneciam junto ao rio.

Estava hora de ir para casa. Desta aventura guardámos mais de mil imagens no coração, mas há umas especiais que em breve partilharemos com vocês. Por agora, fiquem atentos. Obrigado Coura, até para o ano!