Fotografia: Jenifer Tang / Espalha-Factos

Vodafone Paredes de Coura 18′: Nós no estômago, lágrimas de felicidade e gritos feministas (III)

Neste dia pela manhã, uma brisa mais fresca soprava pelo campismo. Depois de tomar um banho de água gelada para acordar todos os neurónios, fomos até às margens do rio. Lá tudo se encontra, menos telemóveis. São incontáveis as pessoas que se desligam totalmente do mundo da tecnologia para estarem simplesmente ali, somente com a natureza, amigos e boa música.

Uns dormiam, a descansar do after que só terminou às cinco da manhã. Outros aproveitam para pôr a leitura em dia, fugindo ao agitado mês de agosto. Para os que dispensassem a leitura, podiam ouvir a literatura portuguesa através das vozes de José Eduardo Agualusa e do músico e escritor Kalaf Epalanga. No dia anterior, Sara Carinhas e Manuela Azevedo tomaram o palco das letras e o público contou ainda com um fado de António Zambujo. Tudo isto no Vozes da Escrita.

A caminho da tenda para ir buscar, mais uma vez, o casaco, deu tempo ainda para ver os que se barbeavam à moda antiga na barraca da Jameson. Este não é um festival igual aos outros. Na restauração tinha desde tacos vegetarianos a tapioca com açúcar, às barracas de um litro de sumo de laranja natural ou uma (simples) barbearia tradicional com direito a brindes.

Com tanta distração acabámos por perder Lucy Dacus, que em som de fundo nos pareceu aliciante. Em passo apressado quando chegámos ao palco principal, o americano Kevin Morby já estava a arrancar com a sua primeira música. Sem demoras não perdemos a oportunidade de ouvir na frontline Nick Kinsey (o baterista), Meg Duffy (teclas e guitarra) e Cyrus Gengras (baixista). O quarteto tocou I Have Been To The Mountain de Singing Saw (2016) e City Music do álbum homónimo, lançado em 2017. O público estava de braços abertos à sonoridade e estava uma tarde feliz. Era dia de DIIV e Slowdive, sentia-se a ansiedade de ver o tempo passar.

Depressa fomos até ao palco Vodafone FM para ouvir Imarhan, a banda que tinha feito a Music Session da tarde, na Pedreira Ferreira. Desta vez, viajámos para o norte africano para ouvir a banda argelina. Apesar de maior parte dos ouvintes não perceber as canções, todos dançaram ao som do rock que o quinteto tocava energeticamente. Foi uma fusão inovadora que fugia às batidas e acordes tradicionais do rock, juntando toques arábicos que nos remetiam à sua verdadeira identidade.

Ainda com algum tempo antes da atuação de DIIV, ficámos para ouvir Frankie Cosmos. Com apenas 24 anos, a americana Greta Kline trouxe-nos a doçura e inocência da sua voz em músicas como Bus Bus Train Train e Apathy do último álbum, Vessel (2018).

No relógio surgem 21h15 enquanto estamos de volta ao palco principal. O sol praticamente desapareceu, mas um feixe cor-de-rosa alaranjado ainda pinta o céu enquanto se mistura com os tons azulados da noite. As pessoas aclamam por DIIV. Assim que surgem os artistas em palco, o público fica frenético e só se ouve burburinhos, “isto vai ser lindo”, visto que o vocalista Zachary Cole Smith iria atuar um ano depois de iniciar a sua reabilitação de drogas.

Era para ser lindo. Infelizmente o verbo passou rapidamente para o passado quando a sua postura perante algumas advertências acabou por desanimar os espectadores, algo muito difícil de fazer num público tão recetivo como o de Paredes. Duas cordas rebentaram-se na sua guitarra, cantou desafinadamente e, de vez em quando, usou os altifalantes para disfarçar a sua condenação: “Estão excitados por Slowdive?”. Repetiu ainda algumas vezes “Façam DIIV cool de novo”.

De uns poucos 50 minutos de atuação previstos, as canções estavam a ser interrompidas e não houve qualquer alegria em palco. Aos poucos, começou a sentir-se o constrangimento entre palco-público em que só restava o tudo ou nada. E ficámos pelo nada. Provavelmente o videoclipe que passaram na grande tela do palco que mostravam os momentos entre eles, deve ter sido o que mais fez sorrir. Ali naqueles vídeos estavam os DIIV que o mundo conhecia. Apesar da vontade de Andrew Bailey (guitarrista) fazer as suas caretas emblemáticas e ainda Colin Caulfield tentar assegurar as rédeas, era tarde demais.

 

Terminada a atuação de DIIV, com um nó no estômago do tão desapontante que foi, as pessoas começam a apertar-se entre si. Todos queriam um lugar em frente ao palco para poderem ver Slowdive. Já ninguém se lembrava do que se tinha passado anteriormente.

As luzes baixam, os corações batem mais depressa. São eles de novo, que em 2014 pisaram o mesmo palco depois de estarem separados durante 19 anos. Na plateia, encontravam-se desde os mais velhos às crianças que ainda provavelmente não sabiam dizer o nome da banda. Mas a sua marca de shoegaze e dream pop criada em 1989 transcende qualquer geração.

Num ambiente de poucas luzes inicia-se a Slomo do último álbum homónimo, Slowdive (2017). Embalados com as melodias daquela banda que tem quase 30 anos, os ouvintes viajaram com a Souvlaki Space Station, do álbum Souvlaki lançado ainda em 1993. Tantos anos que já se passaram e ainda não dá para fartar. Olhos fechados, queixos erguidos. Uns choram, outros sorriem incontrolavelmente. Os motivos? Há tantos, mas o principal é que Golden Hair está a ser tocado e o concerto está a chegar ao fim. Não houve encore, ficaram apenas os arrepios e os olhos encharcados.

Sem arredar pé do espaço em que cada um estava, uma multidão invade ainda mais a frontline para assistirem ao concerto a seguir. Depois de tantas emoções, era hora de soltar o corpo e mergulhar no primeiro concerto de hip-hop no Vodafone Paredes de Coura.

Quando começou Skepta… uma maré de gente faz um mosh pit tão grande quanto o de King Gizzard. Saltos e mais saltos durante todo o concerto. O público estava tão delirante que começou a atirar t-shirts com recados e até uma lanterna chegou a voar. Joseph Adenuga aka Skepta, interrompeu a sua atuação por duas vezes a pedir que não atirassem coisas. Havia uma energia eletrizante na plateia e isso viu-se em cada música que passou. Tirando o facto da demora nas transições entre músicas, todos deliraram quando o artista passou duas das suas músicas mais conhecidas. Entre elas It Ain’t Safe e Shutdown, do álbum Konichiwa lançado em 2016.

Depois de terminado o concerto, ainda com o sangue a ferver todos partem para ver Pussy Riot no palco Vodafone FM. Todos já tinham ouvido falar delas, mas pelo facto de serem feministas e estarem em constantes desacatos com as autoridades russas e com Putin. Poucas semanas antes de atuarem em Paredes, tinham estado presas devido a um incidente no Mundial 2018. Mas regressando à música, mais uma vez João Carvalho apostou no diferente. Cantando praticamente só em russo, a plateia teve direito a uma tela de fundo com um vídeo de ilustrações girly com as letras em inglês. O objetivo era que pudéssemos acompanhar a música e entender a crítica feita pelo grupo às autoridades russas.

O mais engraçado era o facto de as letras serem simples, mas explicitarem duas mensagens simples: a igualdade entre géneros e a liberdade de expressão. São também caracterizadas pela sua indumentária de máscaras coloridas e o uso de pseudónimos como Cat, Balaclava, Seraph, Terminator e Blondie. Entre várias músicas de hardtechno com traços tipicamente russos, sobressairam Good Cops e Straight Outta Vagina. Esta segunda foi cantada em inglês e a mensagem era apenas “Não sejas estúpido, não sejas burro. As vaginas são de onde tu realmente és”. Não é à toa que são as Pussy Riot (Vaginas Protestantes).

Já com os corpos cansados de tanta correria, ainda há tempo para ouvir o último artista da noite. O alemão, Lauer acaba a noite com o melhor que há da música eletrónica. Mais uma vez, são quase cinco da manhã, está na hora de fechar a luz da tenda.

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