Hoje, dia 17 de agosto, o famoso ator Robert De Niro completa 75 anos de vida. Nesse sentido, o Espalha-Factos fez um pequeno revisitar a algum do seu legado cinematográfico.

Às vezes podem pensar que é Al Pacino, dada a agressividade em comum. Outras vezes, confundem o sinal que leva pouco acima da bochecha com aquele que é o ícone de Marilyn Monroe, embora esse categorizasse o lado esquerdo da sua face e não o oposto. Em Los Angeles, a cidade dos sonhos e também do cinema, é bem possível que um taxista lhe faça vaga referência, caso a gorjeta pela boleia seja, na perspetiva do condutor, demasiado módica: “volta lá para os filmes, No Dinero“.

É então que o bocado dele que, dê por onde der, todos temos em nós parte para a ação, ofendido, e nos faz fechar a porta do táxi na cara do sujeito. Mas tomemos muito, muito cuidado… Vai na volta, e ainda apanhamos Robert De Niro, o Taxi Driver (1976) mais famoso de Hollywood, ao volante, e aí é certo e sabido que não o iremos confundir, pois podemos sair dessa situação sem o bocado dele que todos gostávamos realmente de ter e, se possível, manter: a sua pinta.

Martin Scorsese a ser conduzido por Robert De Niro em Taxi Driver (1976) (Fotografia: IMDb)

Desta vez o ator não iria precisar de improvisar.

Are you talkin’ to me?“, era provavelmente como começaria mesmo a tal afronta, e a partir daí já não acabava. Pelo menos, até ao badass mais imponente da história do cinema americano levar a melhor. Quem viu O Touro Enraivecido (1980), Tudo Bons Rapazes (1990) ou, antes disso tudo, Os Cavaleiros do Asfalto (1973) sabe bem do que falo.

Mas já lá iremos.

O cinema é, como todas as demais artes, subjetivo. “Eu gostei bem mais dele no ‘Silver Linings Playbook’, mas de longe!“, responderia, legitimamente, um jovem cinéfilo quando confrontado com a outra prestação de Robert De Niro em Sem Limites (2011). De facto, o pai de um louco é sempre mais relacionável do que um homem de negócios com a mania dum chico-esperto. Especialmente quando a vítima em questão é, em ambos os casos, Bradley Cooper.

Mas convém não esquecer que, apesar de ter estado 21 anos sem qualquer nomeação para Oscar, entre O Cabo do Medo (1991) e ‘Silver Linings Playbook‘ (Guia para um Final Feliz) (2012), Robert De Niro consta da lista dos atores mais reconhecidos não só por quem faz parte do negócio, e também não só em Hollywood – em 2011, foi o presidente do júri no Festival de Cannes -, como pela generalidade do público.

Quem não deixou de parte esse reconhecimento, e até a admiração, foi o realizador Martin Scorsese. São já oito – a caminho das nove, a contar com The Irishman (2019) – as colaborações entre o cineasta e Robert De Niro. E, entre elas, podemos encontrar alguns dos maiores clássicos do século passado, quase todos em volta de cenários criminosos pelos quais qualquer cinéfilo que se preze terá invariavelmente de passar.

Sem saberem o que os esperava, naturalmente, Scorsese e De Niro começaram a sua obra conjunta, uma clara simbiose cinematográfica como existem poucas (talvez até nenhuma), em 1973, com o filme Os Cavaleiros do Asfalto. Robert De Niro dava, na altura, os primeiros passos no que toca a encarnar personagens violentas no grande ecrã – o que veio mais tarde a tornar-se na sua marca -, e Martin Scorsese filmava apenas a sua terceira longa-metragem. Nesse filme, o Johnny Boy de De Niro devia dinheiro a toda a gente, porque o estoirava no jogo.

Robert De Niro em Os Cavaleiros do Asfalto (1973) (Fotografia: IMDb)

Era Harvey Keitel quem protagonizava, através de uma personagem (Charlie) que mantinha sobre Johnny Boy uma certa responsabilidade. Mas não foi por isso que Keitel brilhou assim tanto que deixasse De Niro passar despercebido: o seu lado mais cómico, embora com Johnny Boy a ter alguns acessos de agressividade pelo filme fora (as cenas de luta são de uma beleza rara), também nos fez notar na sua versatilidade, mais tarde exposta no seu pleno em O Rei da Comédia (1982) e, não com tanto tempo de ecrã mas com a dedicação do costume, em Brazil: O Outro Lado do Sonho (1985).

O realizador deste ‘Brazil‘, Terry Gilliam (membro do grupo de comédia Monty Python), assumiu que tanto ele como a restante equipa técnica estavam deliciados com a ideia de ter o ator no elenco. Porém, com o passar do tempo e das filmagens, chegaram à conclusão de que De Niro e as suas “obsessões” com detalhes e necessidades de mais e mais “pesquisa” se tornavam gradualmente mais irritantes. Gilliam confessou até vontade de estrangular o ator. Apesar disso, Robert De Niro garantiu ter tido uma experiência fantástica em Brazil: O Outro Lado do Sonho, e mostrou-se até prazerosamente disposto a trabalhar com Terry Gilliam de novo.

Escusado será dizer o que realmente sucedeu. Ou não sucedeu.

Seguiram-se então Taxi DriverNew York, New York (1977). O primeiro, de visualização obrigatória em qualquer aula de cinema, mostrava o atropelar dos dias de Travis Bickle, um veterano da Guerra do Vietname perdido e, sobretudo, solitário em Nova Iorque. Por essa altura, Robert De Niro já tinha arrecadado um Oscar de Melhor Ator Secundário quando deu continuidade à personagem de Marlon Brando Vito Corleone, em O Padrinho: Parte II (1974). A prestação em Taxi Driver vinha somente confirmar o que até então se pensava: tínhamos um gigante às portas de Hollywood, e por isso era preciso retirar dele o que nele havia de melhor.

Mas era, efetivamente, para a confusão que se construía este Robert De Niro.

Desde Al Capone a Jake La Motta, sem esquecer o Dwight de A Vida Deste Rapaz (1993), onde teve a incrédula e exclusiva oportunidade de poder esbofetear um dos então meninos mais queridos de Hollywood (Leonardo DiCaprio), De Niro já se vestiu dos vilões mais tramados com quem qualquer ator pode contracenar.

Assim, nunca é demais lembrar as sensações que só atores como este conseguem transmitir, ou provocar, ao público. Em Os Intocáveis (1987), De Niro é um monstro. Até mesmo Al Capone devia ser um anjinho ao pé dele. Mas, depois de uma guerra bem difícil de travar e com algumas baixas, a equipa do lado bom, composta por Kevin Costner, Sean Connery, Andy Garcia e Charles Martin Smith, lá conseguiu travar o mafioso mais temido de Chicago.

Robert De Niro como Al Capone, em Os Intocáveis (1987) (Fotografia: IMDb)

Mas não pensem que, por isso, Robert De Niro também não nos pode confortar nos momentos de maior aperto. Aliás, para tal, basta ver Era Uma Vez na América (1984), o relativamente mais recente Estão Todos Bem (2009) ou Despertares (1990). Neste último, junto do ator Robin Williams, De Niro presta homenagem aos doentes com encefalite letárgica, que os deixa quase completamente paralisados, através de uma prestação inesquecível que, uma vez mais, veio provar a sua capacidade de se reinventar.

Mas é em Era Uma Vez na América que Robert De Niro realmente se eleva ao estatuto de imortal junto de uma panóplia de atores que, vai a ver-se, e não é assim tão extensa quanto isso. O seu Noodles, que, como em Despertares, fora também representado por outro ator mais novo – com direito ao mesmo sinal de De Niro e tudo -, ficou para a história do cinema como uma das personagens mais bem construídas até hoje.

O ator é ainda conhecido por não gostar de se ver no grande ecrã, embora o prefira ao palco: “Eu adormeço nos meus próprios filmes“, confessou Robert De Niro.

Não é, ainda assim, pelas suas 3h49 de duração que vamos ter vontade de dormir em Era Uma Vez na América. Pelo contrário; o filme, embora tenha saído numa das boas épocas para o cinema, tem momentos reveladores e de surpresa tal que só mesmo um realizador como Sergio Leone para o fazer. O cineasta responsável por O Bom, o Mau e o Vilão (1966) revisita, neste clássico, a vida de um gangster de Manhattan bem desde a sua pequenez até à reta final da sua vida, utilizando cortes temporais que também ficaram para a história.

Mas, por vezes, Robert De Niro também fica a perder…

Se Al Capone podia ser um anjinho ao pé dele, nem sempre tal aconteceu. O boxeur Jake La Motta, enquanto se via n’O Touro Enraivecido, perguntou à sua esposa: “Eu era mesmo assim?“, ao que ela respondeu, “eras pior“. Logo, La Motta, mesmo sem ir a ringue, venceu Robert De Niro. Pelo menos no que toca à agressividade.

Com tanta coisa, quase nos passou a todos despercebido: Robert De Niro faz hoje 75 anos. E não é que continue a perder… mas com todas as prestações que nos tem vindo a oferecer, não será ele de certeza quem mais ficará a ganhar.