Aretha Franklin, a voz que foi não de uma geração, mas de muitas que se estenderam ao longo do tempo. A conhecida Rainha da Soul que aos 76 anos ainda modifica a expressão facial de alguém que oiça a sua voz. Setenta e seis anos e 75 milhões de discos vendidos por todo o mundo. Franklin é indubitavelmente a voz R&B e soul que ecoa sempre nos nossos ouvidos, mesmo apenas através da célebre Respect.

Filho de peixe sabe nadar…

Filha de dois cantores gospel, o que poderá explicar a vida que seguiu, desde cedo mostrou que a música era a sua praia. Ainda que tenha estudado piano na Juilliard School of Music (já tarde, em 1998), em criança dava os primeiros passos no instrumento. De pautas musicais pouco percebia, no entanto não fez a diferença na virtuosidade enquanto artista.

Embora pudéssemos escrever um livro acerca de todos os feitos da cantora norte-americana, é possível resumi-lo. Foi a primeira mulher a pertencer à Rock and Roll Hall of Fame e ganhou, nada mais nada menos, que 18 Grammys. Cantou no funeral de Martin Luther King. Além disso, atuou também na tomada de posse de Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama. São, portanto, missões que apenas uma voz destas poderia cumprir na perfeição.

“A História americana cresce quando a Aretha canta”, adiantou Obama numa resposta emocional ao desempenho de A Natural Woman no Kennedy Center Honors, em 2015. “Ninguém incorpora mais plenamente a conexão entre o espiritual afro-americano, o blues, o R&B, o rock ‘n’ roll – a maneira como as dificuldades e tristezas foram transformadas em algo cheio de beleza, vitalidade e esperança”, explicou o ex-Presidente dos EUA.

Aretha Franklin: mais que uma artista, uma voz pela justiça social

O gospel, como estilo musical, sempre elevou a voz feminina e as causas da igualdade de género, tão cedo como nos anos 60. Franklin desde aí que foi a voz que o mundo precisou quando os primeiros versos de Respect se propagaram. Música que a tornou famosa, apesar de originalmente pertencer a Otis Redding.

As grandes artistas que hoje nos enchem os ouvidos com vozes também elas poderosas tiveram em Aretha uma inspiração maior. Beyoncé, Amy Winehouse, Alicia Keys, Mary J. Blige e Whitney Houston. Todas elas viram em Franklin o que parecia impossível: um modelo de ruptura numa sociedade dominada pelo sexo masculino. Exemplos destes deixaram para as minorias um sinal de esperança maior que a vida. Exemplos eternizados noutros grandes êxitos como Chain of Fools e A Natural Woman. Porque Aretha ensinou meio mundo que uma mulher deve caminhar lado a lado com um homem e não debaixo dele.

“Eu acho que estão a fazer um ótimo trabalho – a Beyoncé, a Alicia, a Jennifer [Hudson]. Eu ouço a minha influência, por vezes; Eu sei quando a minha voz, quando algo pelo qual sou conhecida, passou. Mas estas jovens senhoras, na sua maioria, são todas muito originais”, disse a própria Aretha quando questionada sobre artistas contemporâneas do pop e R&B.

O legado maior que a vida

O estrelato que alcançou à escala global não foi suficiente. Em 2014, a NASA batizou um asteróide com o nome ‘249516 Aretha’, em homenagem à cantora. Uma biografia, desta vez no cinema, está também para sair em breve com Jennifer Hudson a honrar a alma de Aretha. A cantora norte-americana sempre foi a primeira escolha da Rainha da Soul devido às extraordinárias capacidades vocais da mesma.

Setenta e seis anos neste mundo que deixaram um legado infinito. Setenta e seis anos que se traduziram em 42 álbuns de estúdio. Setenta e seis anos que foram mais do que suficientes para provar a um planeta que ela não era apenas artista, mas sim mulher. Aretha Franklin pode ativar o modo diva e ignorar a vida lá fora, se assim desejar. No entanto, sempre que se sentar ao piano para libertar a sua enorme voz, o mundo cessará o ruído para a escutar.

Pediu apenas respeito, um pouco de r-e-s-p-e-i-t-o, mas acabou a ter o universo aos seus pés.