Ilustração: Luís Lopes

60 anos de Madonna: confissões numa calçada de Lisboa

De sobrenomes Louise Ciccone, de cognome Rainha da Pop, desde sempre a pioneira e o vulto resiliente da indústria musical, dada à reinvenção tal como à subversão, passível de beatificação como imperadora das secções de “Controvérsia” na Wikipédia. Um nome, uma atitude e um espírito imutável de mutação: Madonna completa nesta quinta-feira 60 anos.

É de notar que a publicação de mais uma peça sobre Madonna num órgão de comunicação português pode suscitar suspiros. À conta de um filho aspirante a futebolista, encontrou residência na capital, situação cujas mundanidades se parecem amplificar, de forma populista, pouco generosa (e sagaz). Propagam-se em turbina novas da aquisição de cavalos autóctones e do arrendamento de espaço para automóveis — digam o que quiserem, pouquíssimas figuras públicas teriam o poder de conduzir Fernando Medina a um telejornal para refutar rumores sobre estacionamento.

Ignora-se (ou suspeita-se) do que poderá significar para a diáspora portuguesa a fixação de uma das mais visionárias alquimistas da pop em terras lusitanas, principalmente quando são conhecidas as intenções de incorporar o fado no seu próximo álbum. As vendas dos seus trabalhos podem continuar a minguar, mas a voz de Madonna encontra-se perpetuamente munida de um megafone, com ligação direta aos milhões de devotos e tantos outros espectadores do próximo espetáculo megalómano que levará aos palcos.

E se nem sempre coexistimos geograficamente com ela, o magnetismo da sua órbita irregular em torno de Portugal parece ter naturalmente alavancado essa aproximação. A presença nula nos anos 80 e 90 elevou-se a vestigial a partir de 2004, grifada pela data dupla—a sua estreia em solos lusitanos—num Pavilhão Atlântico instantaneamente esgotado. Quem alega ser recente o fascínio pela personalidade desconhece a exaustiva reportagem relativa a esta passagem da artista por Lisboa—leia-se: a cama literal em que dormiu.

Em 2008, no decurso da era divisiva de Hard Candy, reservou o Parque da Bela Vista para um definidor (e desnivelado) concerto da Sticky and Sweet Tour. A imprensa reproduziu o entusiasmo, direcionado a um mui publicitado concerto no Parque da Bela Vista. Quatro anos depois, um Estádio Cidade de Coimbra esgotado mimetizaria — ainda que em escala menor — a euforia pública.

Para este rapaz, poucos momentos sustiveram a magnitude do episódio dos olhos vidrados num televisor cúbico a ver Madonna escancarar as portas figurativas dos MTV Europe Music Awards—em 2005, alojados em Lisboa: ruiva, de indumentária roxa e modernista,  montada em gargantuescas bolas de espelhos, inerentemente cool e diferente. Presenciar a tour de force que é Hung Up replicada ao vivo, numa reprodução vívida do teledisco, acima dum palco português, foi talvez demasiado para este coração.

É um momento inextricável da minha — e, sem dúvida, mil outras — memória da era de Confessions on a Dance Floor, o disco de 2005 e monumento da eletrónica que rejuvenesceu a imagem da intérprete, compositora e produtora. Como diz o ator Manuel Moreira na sua brilhante retrospetiva, cada um tem a sua Madonna preferida; a minha é esta. A dançarina de body cor-de-rosa, adepta de uma disco-pop sincretista e revivalista, simplista e enigmática, urbana e universal, banhada a néon.

Hung Up, uma das suas faixas de topo, uma fusão lapidar entre ABBA e a eletrónica exaltante da modernidade, foi o prelúdio da brilhantina que se abateria sobre as tabelas de vendas e os canais de videoclipes — da VH1 até ao SOL Música — durante meses. Foi um fenómeno difundido também no saudoso Top+ (pós-colchão-mágico). Certo é que este vídeo não se deparou com os obstáculos enfrentados por Erotica em 1992, que a SIC empurrou para o late night e a escritora Lídia Jorge alegou poder originar nos jovens “problemas de relacionamento com o corpo e com os outros em relação às questões de natureza sexual“.

Brevemente ou não, Madonna reinventar-se-á, mais ou menos fiel ao seu modo de operação: canibalizando os seus símbolos sucessivamente, destruindo os traços do seu talhe anterior e consubstanciando uma configuração nova. Pode ainda estar na incubadora lusitano-fadística ou absorvendo outro mundo que se lhe afigure. Infelizmente, não estará imune ao idadismo e a uma indústria combativa, de “sexismo flagrante, misoginia, bullying constante e abuso sem fim“— o que a própria confessa ter vivido em 41 anos de carreira.

Mas independentemente do vilipêndio a que a sujeitarão, será a Madonna preferida de alguém—talvez de um ser ainda por vir. E imaginem o prazer de ser conduzido numa viagem pelo cosmos de Madonna, mesmo que já não resida em Portugal. Pelo menos as reportagens imortalizaram o momento. “Desde […] que não vá ali para a Presidência da República, que o gajo que lá está é um gajo porreiro,” diz um morador da Lapa, “ela pode ficar onde quiser.”

Ilustração desenhada pelo designer Luís Lopes, cujos trabalhos podem ser vistos no Behance.
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