Cheguei a Cem Soldos ainda de véspera, no dia 8 de agosto. O relógio apontava 18h30. Na minha cabeça ecoavam as frases que tinha lido sobre edições anteriores do Bons Sons. Por algum motivo, atribuía uma aura mística àquele festival. Eu ia para “viver a aldeia”. Era o meu “amor de verão”, sem antes nunca o ter sido. Depois de quase sete horas de autocarro para chegar a Tomar, o concelho que alberga Cem Soldos, tinha dado entrada na localidade. Estava para começar o meu primeiro Bons Sons.

Devo confessar que não começou da melhor maneira. Na chegada a Cem Soldos, uma má indicação de um voluntário, que estava a acompanhar os festivaleiros na rota Tomar-Cem Soldos do transfer que o festival proporcionava diariamente, valeu-me um atraso enorme a chegar ao campismo e um caminho considerável entre o recinto do festival e a área dos campistas com uma bagagem exageradamente pesada.

Entre a montagem de tendas e as sanduíches que se jantaram entretanto, não cheguei a tempo do início da festa de receção ao campista, que acontecia mesmo à entrada do campismo. Apanhei a atuação d’Os Zhéróis 2.1. a meio. Ainda ouvi a e se por acaso, a única que conhecia do grupo. Não fiquei até ao fim, estava demasiado ansioso por ir explorar os cantos de Cem Soldos. Acabei por me prender no Aliquete, a primeira tasca que se encontra a partir da Entrada Hortas. Um verdadeiro altar à cultura “comes-e-bebes” portuguesa, devo dizer. Fiquei lá durante umas horas à conversa. Ouvi Cover de Bruxelas DJ Crew ao longe, já de regresso à tenda.

Muito mais que música

O meu primeiro dia oficial de Bons Sons começou ao meio-dia. Não porque dei entrada no recinto a essa hora, mas porque tinha dormido demais, uma constante ao longo do festival. Fiquei surpreendido com a pequena quantidade de chuveiros, lava-louças e mesas para cozinhar que o parque possuía para tanta gente. Até as casas de banho, ou WCeco, como se chamavam, que eram literalmente fardos de palha e serradura, pareciam poucas.

Enquanto almoçava, Palankalama e Vozes de Manhouce com Isabel Silvestre atuavam no Palco MPAGDP (Música Portuguesa A Gostar Dela Própria), situado dentro da Igreja de São Sebastião. Entrei no recinto e já se ouviam as melodias doces de Lince, o projeto a solo de Sofia Ribeiro dos We Trust, no Palco Giacometti, logo após a Entrada Hortas. Entretanto, e como o Largo de São Pedro estava a abarrotar com público, decidi vaguear pela aldeia.

Rapidamente encontrei os famosos Jogos do Hélder, espalhados pelas ruas de Cem Soldos. Achei particular piada a uma competição entre um rapaz dos seus 12, 13 anos e um dos festivaleiros num determinado jogo, que passo a tentar explicar. A brincadeira consistia numa mesa com uma barreira no meio, dividindo o jogo em dois campos. Essa barreira tinha um buraco no centro. Ao fundo de cada campo, existia um elástico. Ambos os jogadores começavam com cinco discos de madeira. O objetivo era empurrar os discos com o elástico, fazendo com que eles passassem pela barreira até ao campo do adversário. O primeiro jogador a ficar sem discos vencia. Se deste jogo fosse feito um desporto, o rapaz seria certamente campeão olímpico.

A minha concentração no jogo perdeu-se quando, de repente, passaram por mim três burros de Miranda. Carregavam rapariguitas no dorso. Reparei na felicidade das crianças e no ar pacato dos animais. Sem dar conta, também eu estava a sorrir. Dias mais tarde, apercebi-me que muito do que me marcou no Bons Sons foi essa felicidade espontânea e natural. As pessoas sentiam-se naturalmente felizes naquela terra.

Olhei para o relógio e eram 18h. Ainda tive tempo de espreitar o espetáculo Tia Graça – Toda a gente devia ter uma, concebido por Luís Fernandes, que estava a acontecer no Palco Amália, à frente da já referida igreja. Entretanto ainda houve tempo para The Lemon Lovers surpreenderem no Zeca Afonso, quase à hora do primeiro cabeça de cartaz do dia entrar em cena. Chegaram as 21h45 e Salvador Sobral subiu ao Palco Lopes-Graça. Foi a sua estreia no festival de Tomar.

“O amor não nos quer bem

E quem nos há de valer?”

(Salvador Sobral em Mano a Mano)

É mentira, Salvador. O amor quer-nos mais que bem e foste tu que nos valeste. Pelo menos, em Cem Soldos. A atuação foi prova disso. Entre o piano, o contrabaixo e a bateria, entre Mano a Mano e Cerca del Mar, Salvador Sobral deliciou a plateia do Lopes-Graça com o seu jazz cheio de imprevistos, ora delicado, ora impulsivo. Houve até espaço para a mais que famosa Amar pelos Dois.

Antes da noite acabar, ainda se ouviram os ritmos moçambicanos de Selma Uamusse, se abanou a cabeça com os versos de Slow J e se dançou ao som do dj set de Xinobi. Também houve espaço para uma charolinha, bebida da Adega de São Pedro, cuja reputação a tornou impossível de não experimentar. Estava consumada a primeira noite de Bons Sons.

E que bem que por cá se dormia! As cigarras cantaram tarde outra vez. Quando cheguei à aldeia no dia 10, já S. Pedro atuava no largo com o mesmo nome. “Viajas sem sair do lugar”, cantou em Apanhar Sol. Apesar de contextos diferentes, a frase de Pedro Pode adequa-se muito ao que o festival transmite. Viajar sem sair do lugar é outro dos sentimentos mais assentes em Cem Soldos.

Muito mais que amor de verão

Depois de um concerto incrível de Norberto Lobo no Amália, voltei para o Giacometti para assistir ao projeto a solo de Filipe Monteiro, chamado Tomara. O seu indie suave e bem construído encaixou perfeitamente com o ambiente do festival e com o céu das 19h. Filipe ainda chamou Márcia, a sua mulher, ao palco, para cantar com ela e para ela. Gestos de amor que só Cem Soldos conhece.

Já jantado, fui para o Palco Zeca Afonso, situado logo atrás da sede do SCOCS (Sport Club Operário de Cem Soldos), para esperar 10 000 Russos. A partir das 23h, fiquei hipnotizado com o krautrock industrial daqueles rapazes. Acho que nem pestanejei durante toda a atuação. Quando me apercebi que o concerto já tinha acabado, eram quase horas de Sara Tavares subir ao Lopes-Graça.

“Diz-me coisas bonitas

Sussurradas ao ouvido, com sabor”

(Sara Tavares em Coisas Bunitas)

No meio das canções, a “coisa mais bonita” foi o pedido de casamento que aconteceu durante a atuação da cantora. Eduardo, que vem a Cem Soldos desde a primeira edição do Bons Sons, pediu a Cátia em casamento e ela aceitou. O “amor de verão” voltou a evidenciar-se. Toda esta emoção que a aldeia acusava fazia valer as frases que tinha lido sobre o festival antes de ter chegado.

Fotografia: Carlos Manuel Martins

Muito mais que um festival

Sábado foi dia de preguiça. Entre os passeios pelas bancas da Feira de Marroquinarias e Artesanato, as paragens frequentes nos Jogos do Hélder, uns caracóis no Aliquete e as abençoadas borrifadelas de água de que muitas vezes fui vítima, acabei por ouvir a música como pano de fundo. O primeiro concerto a que assisti nesse serão foi o de Zeca Medeiros, no palco com o mesmo primeiro nome. Seguiram-se Sean Riley & The Slowriders, PAUS e Cais Sodré Funk Connection. O espetáculo a que eu queria mesmo assistir era o do rapaz que ecoava na boca dos portugueses.

Eram 2h15 e Conan Osiris subia ao Palco Aguardela, dedicado ao encerramento das noites do festival. Ainda não tinha visto o Largo do Rossio, coração de Cem Soldos, tão cheio de gente para um concerto, sobretudo àquelas horas. E que concerto! Tão depressa Tiago Miranda se estava “a cagar para a celulite” (Celulitite) como cantava que só “morre quando não nos vir chorar” (Amália), mas sempre cheio de energia. Entrementes, ainda houve espaço para duas músicas novas, estreadas em Cem Soldos. E toda esta irreverência acabou em humildade, com Conan a agradecer de joelhos ao público com a música Obrigado. Não consegui ficar para Colorau Som Sistema.

Quando dei por mim já estava no último dia de Bons Sons, a ouvir Monday no Giacometti. Ainda fui espreitar o Palco Garagem, onde estava a atuar um rapaz chamado Isaac Pimenta. Por lá fiquei até ao concerto de Luís Severo, pelas 18h30, que assisti numa das janelas do andar de cima do Aliquete. Foi um dos concertos mais bonitos do festival, um dos públicos mais generosos. Severo fechou a atuação com Lábios de Vinho, cantado a capella com o resto da banda e com Primeira Dama, convidado a subir ao palco.

Depois, foi Rodrigo Amado Motion Trio a surpreender no Palco Amália, Dead Combo a partir a louça no Lopes-Graça e Lena D’Água e Primeira Dama com a Banda Xita no mesmo palco. Fiz pela última vez o percurso entre o recinto e o parque de campismo a ouvir a Boca de Sal dos Linda Martini ao longe. Estava cansado. Só no dia seguinte é que me apercebi que tudo tinha acabado.

“Sabes que eu só danço quando a saudade acabar”

(Conan Osiris em Amália)

Havia qualquer coisa naquele festival, naquela terra. Nada acontecia por acaso. Fossem os palcos espalhados por Cem Soldos, as tascas ou os mercados abertos. Fosse pelas casas de banho sem água no campismo ou por quase não encontrar lixo e cigarros espalhados pelo chão. Não era um festival de música, era muito mais do que isso. Era um festival de pessoas. Um verdadeiro “amor de verão”.

Já tinha chegado a casa quando descobri que este tinha sido o maior Bons Sons de sempre, com 52 espetáculos, 202 artistas, 420 voluntários e 38.500 visitantes. Mesmo assim, permitia que me isolasse quando quisesse, ouvir música se me apetecesse ou fazer outra coisa qualquer. Sentia-me genuinamente bem naquela aldeia. A aura mística que pressentia quando cheguei a Tomar fez-se assim confirmar.

Cem Soldos é mágico. Quanto a mim, como canta o amigo Conan, só volto a dançar quando a saudade do Bons Sons acabar. É, certamente, um até já.

Fotografias: Carlos Manuel Martins e Rafael Farias