Ao cair da noite deste sábado, no jardim da Estalagem da Ponta do Sol, na Madeira, o público dos Concertos L preparava-se para ver Nadah El Shazly. A artista egípcia prometia fazer embarcar os presentes numa viagem pela sua música experimental, sustentada na sonoridade arábica tradicional, que lhe valeu uma presença na capa da revista Wire em julho de 2018.

Acompanhada por um guitarrista e um contrabaixista, El Shazly veio à Madeira para dar a conhecer o seu primeiro EP, Ahwar, que significa ‘Pântanos’ em português. O concerto contou com a curadoria da Galeria Zé dos Bois.  Todos os anos, esta instituição cultural traz um artista da sua programação aos Concertos L.

Seguindo a ordem do álbum lançado em novembro de 2017, Nadah El Shazly arrancou com a música Afqid Adh-Dhakira (‘Eu perco a memória’). Surgem primeiro os sons emitidos pelo computador da artista. Depois, progressivamente, os da guitarra, a seguir os do contrabaixo e por fim a voz hipnotizante de El Shazly. A audiência observa com atenção. Tenta compreender melhor a musicalidade underground de uma cantora e compositora que parece ser desconhecida para a maioria.

No final da segunda música, Barzakh (‘Limiar’), a artista e a sua banda parecem ainda não ter cativado totalmente o público presente. A terceira música é iniciada com a drum machine de Nadah El Shazly, fazendo soar o riff distintivo de Palmyra. Os sons tradicionais do Egito estão já bem dissimulados na eletrónica e no jazz pantanoso de El Sahzly.

Toda a emoção da cantora na sua performance em palco é canalizada para a sua voz. Isso mesmo confirma a música que se seguiu, Ana ‘Ishiqt, que termina com uma breve, mas robusta, acappella da cantautora egípcia. A penúltima música do alinhamento, Koala, é possivelmente a música de El Shazly com mais influências ocidentais. Consequência que advém do facto do álbum ter sido produzido entre o Egito e o Canadá. O espetáculo termina com Mahmiya (‘Protetorado’).

Fica no ar um misto de satisfação e dúvida.  Talvez tenha faltado à maioria do público presente conhecer melhor a artista. Talvez tenha faltado inteirar-se, antes da atuação, sobre o significado da música. Talvez o reportório seja ainda demasiado curto para um público que aparentemente ouviu a artista poucas vezes até este concerto. De qualquer das formas, Nadah El Shazly provou ter uma capacidade musical fora do comum. A capacidade para aliar diferentes elementos sonoros, de diferentes origens, e formar uma música de vanguarda promissora.