O escritor António Botto vai juntar-se a Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade, para passar a ser, ainda este ano, o mais recente autor associado à editora Assírio & Alvim. A organização da publicação das suas obras vai ficar a cargo de Eduardo Pitta, anterior responsável pelas publicações de Botto na antiga editora Quasi, lê-se num comunicado enviado ao Observador.

“Artistas tem havido muitos em Portugal; estetas só o autor das Canções”, é como Fernando Pessoa reconhece António Botto, autor que, depois de ser esquecido, tem recuperado espaço no panorama editorial português.

António Botto, estimado pelo poeta português como o único esteta em Portugal, foi um poeta ostracizado por parte da sociedade portuguesa nos anos 20. Deixou-se cair no esquecimento, uma vez que as edições mais recentes das suas obras deixaram de estar disponíveis no mercado. Quem quiser ler o que o autor escreveu pode, e só num golpe de sorte (pois muitos dos seus livros não foram nunca reeditados), encontrar alguma edição bem antiga num alfarrabista.

Agora, com o aproximar dos 60 anos da morte do escritor, vai voltar a ser possível encontrar as suas obras à venda em qualquer livraria.

Décadas e décadas de esquecimento e quem é António Botto?

Em maio deste ano foi publicado o ensaio O Mundo Gay de António Botto, da investigadora Anna Klobucka, que procura reavaliar a figura literária de António Botto “como um fenómeno excecional para a época”, enaltecendo a coragem de colocar em circulação aberta ao público geral um discurso poético homoerótico que não conhecia precedentes não só no contexto português como no contexto mundial.

António Botto

Foto: Portal da Literatura

Da sua longa lista de livros publicados, onde se destacavam diferentes géneros literários, foi a sua obra de poesia Canções, de declarado teor homoerótico, que se assumiu como um maior marco na lírica portuguesa e à qual o nome de António Botto ficou para sempre associado. Foi após o lançamento da segunda edição em 1922, pela editora Olisipo de Fernando Pessoa, que se incendiou uma intensa polémica que opôs Pessoa e Raúl Leal a Álvaro Maia e à Federação Académica de Lisboa.

Viu, a sua obra Canções a ser julgada como “repugnante, indecente, escandalosa e putrescente” por Álvaro Maia e teve de se conformar ao ver os seus livros a serem apreendidos pela Federação Académica de Lisboa. Depois de ter sido ostracizado em Portugal exilou-se no Brasil em 1947 para perder a vida num atropelamento em 1959.

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