B Fachada | ® Pedro Daniel

Contar a história dos três dias no Mêda+

O Espalha-Factos esteve presente em Mêda, no distrito de Guarda, nos dias em que a cidade se abriu à música portuguesa e à “gente de fora”, para o festival Mêda+.

“Situado numa zona montanhosa de transição entre o Planalto Beirão e o Alto Douro, o concelho de Mêda tem cerca de 296 Km quadrados de área […]”, começa assim a apresentação da cidade por parte da Câmara Municipal de Mêda. De facto, a primeira imagem que temos ao olhar pela janela do carro quando entramos na terra são montanhas a perder de vista e uma paisagem de interior dura – pelas zonas queimadas por incêndios e a despovoação óbvia, – mas com um charme inegável. Há uma certa paz que nos preenche quando chegamos a sítios assim, com tudo por descobrir.

O festival Mêda+ começou em 2010. Um grupo de jovens juntou-se numa associação juvenil sem fins lucrativos, com o objetivo de “acrescentar valor e diversidade à dinâmica cultural da Mêda“. O festival tem dois lemas: ecletismo musical e o apoio a novas bandas portuguesas. Nestas oito edições já passaram por lá Capitão Fausto, Linda Martini, Diabo Na Cruz e muitos outros. Para o cartaz de 2018, foram chamados nomes como B Fachada, Stone Dead, Moullinex e Filipe Sambado.

Dia 1

Montadas as tendas já com sol posto no primeiro dia de Mêda+, pode-se finalmente respirar um pouco de ar puro. No campismo, assegurado pela Câmara Municipal e a única parte paga do festival, ouvem-se arranhões em guitarras e cânticos anti-seguranças, que revistam as mochilas à entrada procurando essencialmente drogas e bebidas alcoólicas.

O primeiro concerto no Palco Santa Cruz foi Galgo, que começaram a aquecer o chão que os pés que passaram por Mêda pisaram. O palco contava com uma rede que permitia ver o céu e as luzes da cidade por detrás dos artistas que tocavam. Tal fez com que nós, isto é, toda a gente que estava no festival, sentíssemos que a cidade estava, verdadeiramente, a abraçar o festival, os artistas e o público. As luzes do próprio concerto acompanharam rigorosa e perfeitamente os ritmos dançáveis e estridentes das músicas de Galgo.

Seguiram-se Stone Dead, que deram o concerto mais familiar que um desconhecido pode receber. Depararam-se com um público mais composto e mais participativo do que o concerto anterior e fizeram a sua sonoridade, e com ela o seu nome, ressoar nos ouvidos de todos os presentes até ao final do festival. Moullinex atuou a seguir. Rodeado de músicos profissionais, o artista deu o concerto que toda a gente já sabia poder esperar: um espetáculo perfeito, com o toque de progressismo e vida que a Mêda não só precisava, como queria.

Dia 2

Acordados por um sol abrasador, viram-se muitos campistas a chegar às piscinas municipais às quais o campismo dava acesso, ainda durante a manhã. A partilhar o mesmo espaço que os utilizadores “comuns” do complexo de piscinas, viu-se um ambiente muito peculiar durante a manhã do segundo dia de festival. Crianças naquilo que poderia ser um campo de férias, campistas a aproveitar sombras para recuperar o sono, pré-adolescentes das terras de Mêda que aproveitavam o dia para estar com os amigos. Tudo isto misturado, e com uma rádio de “músicas do momento” como banda sonora, deu um resultado engraçado e um tanto estranho.

Os concertos iniciam-se, durante a tarde, no Palco Parque, situado no Parque Municipal da cidade. Primeira Dama e Filipe Sambado foram os convidados do dia. Os artistas lisboetas em Mêda estiveram a jogar longe de casa e tiveram de seduzir o público aos seus encantos cosmopolitas. Rendeu.

Fugly inauguraram o Palco Santa Cruz, já à noite. Deram um concerto caseiro, com o habitual contraste das melodias gritantes e catchy emersas numa amálgama de distorção. A certa altura, a banda quis certificar-se que o público não os tinha confundido com os Fonzie, mas não era o caso: o Mêda+ gostou de Fugly.

Sean Riley (sem os Slowriders) e Samuel Úria foram os concertos que se seguiram, enchendo progressivamente mais o recinto do Mêda+. Deram concertos calmos e intimistas, partilhando emoções com o público que iam, e vinham, em ambos os sentidos.

Dia 3

Ao longo dos três dias de festival, sentia-se no ar, do campismo especialmente, uma certa ânsia. Ouviam-se risos de cumplicidade quando alguém, numa coluna, punha a dar a Afro-Xula, por exemplo. Nesse dia de manhã toda a gente pensou no mesmo: sábado, dia 27, último dia de festival, era o dia de B Fachada.

Antes disso, contudo, o Mêda+ ainda ofereceu um dia repleto de bons concertos como Valter Lobo e Monday, uma das metades das irmãs Golden Slumbers, no Palco Parque. Valter Lobo deu um concerto não só intimista, como inteiramente pessoal: disse às pessoas para se apaixonarem naquele que, com a sua música, se tornou um cenário idílico para tal. Crianças e cães corriam juntos pela relva onde o público se sentava. Famílias assistiam, além dos campistas. O artista saiu do palco e cantou, acompanhado com a sua guitarra, e sem microfone, não só para o público como no meio dele. O ex-advogado abriu o coração ao parque da Mêda e a Mêda abriu de volta. Não há maior reconforto do que um amor correspondido – toda a gente que assistiu saiu em paz.

Cave Story abriram o recinto noturno, sem o baterista habitual, deram um concerto que foi mais reflexivo que participativo. A banda criou uma distância acentuada do público, conquistando na mesma o ambiente etéreo que a música pedia e que as luzes ajudaram a manter. O concerto começou quase vazio e foi-se compondo ao longo do tempo, à medida que o recinto do Mêda+ ia enchendo.

Os You Can’t Win, Charlie Brown seguiram-se e preencheram o recinto de um som quente, cheio e coeso. Como muitas obras de arte, confidenciaram-nos que a sua setlist era dividida em capítulos: o primeiro era o mais calminho e o segundo era o “épico”, fase na qual se encontravam na altura. O certo é que fizeram jus à promessa. A sua música soava como uma sonoridade como que autocultivada, isto é, que se criou a ela mesma naquele lugar e naquele momento. Compensaram sem dúvida nenhuma o ruído elétrico que se ouviu o concerto todo, devido talvez ao enorme volume e quantidade de amplificadores e instrumentos que a banda leva para palco.

YCWCB | ® Pedro Daniel

Não Pratico Habilidades foi o primeiro tema que B Fachada apresentou na Mêda e foi seguida de Tinha uma Sala Mal Iluminada, de Zeca Afonso. “Mas se há um camarada à tua espera / Não faltes ao encontro e sê constante” ecoou na voz de Fachada por Mêda inteira. A Mêda não faltou ao encontro e cantou com ele Questões de Moral, do álbum B Fachada é Pra Meninos logo de seguida.

No concerto não faltou a Afro-Xula, É Normal, Quem quer fumar com B Fachada ou Crus  que puseram o público todo a dançar… e muito menos faltou a calmaria de Só te falta seres mulher. Contrastou inteiramente com a banda anterior, quando entrou no palco sozinho e com um teclado e sintetizadores. Contudo, o espaço que B Fachada ocupa é sempre gigante e é sempre incomparável. Improvisando as setlists, toca aquilo que sente que o público precisa e o incrível é como é que consegue acertar para seja qual for o número de pessoas a assistir. Mais do que uma aula, B Fachada dá uma consulta de psiquiatria a todos os que o vêem. O artista despe os seus espectadores de tudo o que são, deixando-os os vazios, por um lado, e imersos, por outro, em harmonia. Quando se despede, em nós, há só paz.

Para quem teve sanidade mental de sobra após o concerto de B Fachada, houve DJ Quem és tu, Laura Santos?, que protagonizou as after-hours como DJ Prilho e DJ Zinko já tinham feito nas noites anteriores.

No dia seguinte, havia uma sensação de vazio enquanto se arrumavam tendas e se dormiam as últimas horas. O que é que faz do Mêda+ um festival diferente? Em primeiro lugar, é feito por jovens, mas não é só para jovens. Nos dias todos de festival, viram-se crianças a brincar e a bater palmas para a música, viram-se adultos, jovens de Mêda, idosos interessados no ambiente. Viram-se pessoas de backgrounds completamente diferentes, que não se vestiam todas entre elas de igual e que tinham sotaques distintos. Além disso, é fora de Lisboa, do Porto ou de qualquer outra grande cidade. Esse é o tipo de reforma cultural que Portugal precisa: é preciso levar a cultura para fora das grandes cidades, é preciso trazê-la de todo o lado para todo o lado. O Mêda foi criado por um grupo de jovens, mas é para toda a gente.

Fotografias gentilmente cedidas pela organização do festival

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