Fábrica Têxtil
Fotografia de destaque: Pexels

Índia: Violência contra trabalhadores coloca indústria da moda em estado de alerta

Será que as nossas marcas preferidas são tão éticas como dizem? Uma investigação do Worker Rights Consortium descobriu que, entre os meses de março e abril de 2018, a administração de uma fábrica de produção de vestuário em Bangalore, na Índia, a unidade 8 da empresa Shahi, levou a cabo práticas como agressões físicas, ameaças de morte e abusos verbais fundados em questões de género, casta e religião contra os seus trabalhadores.

A ação das chefias da empresa volta a colocar em dúvida as práticas da indústria da moda relativamente a direitos laborais fundamentais.

Os atos de violência e intimidação decorreram de um esforço deliberado da empresa Shahi Exports Private Limited para conter tentativas de sindicalização dos trabalhadores da fábrica e impedir o aumento de salários. Apesar da Shahi ser uma das principais fornecedoras indianas de vestuário para inúmeras marcas norte-americanas e europeias de influência global, os grandes estabelecimentos parecem ignorar as queixas de violência e outros abusos graves contra trabalhadores da Unidade 8 desta firma.

Produção Têxtil
Fotografia: Produção Têxtil/ Pexels

Lojas como H&M, Abercrombie and Fitch, Columbia Sportswear e Benetton são fornecidas diretamente pela fábrica em questão. Porém, a partir de outras instalações, a Shahi também produz para outras marcas, como C&A, Decathlon, GAP, Primark, Puma, e até Inditex, empresa que detém a ZARA, Pull & Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Zara Home, Uterqüe e Lefties.

Cronologia das agressões

27 e 28 de março

Monitorização excessiva, interrogatórios, ameaças e tentativas de suborno a um trabalhador apoiante do movimento sindicalista.

De 29 de março a 2 de abril

Ameaças de despedimento coletivo e incitação à violência por parte de trabalhadores contra aqueles que apoiam a sindicalização.

3 de abril

Monitorização excessiva e insultos de teor sexual, assim como tentativas de suborno para que fosse dado um testemunho falso por parte de um trabalhador apoiante da sindicalização.

4 de abril

Ameaças de morte, ameaças de falsa detenção, incitação à violência, agressões físicas, roubo e apreensão de pertences dos trabalhadores e abuso verbal contra dez trabalhadores, com referência discriminatória a casta, sexo e religião.

A partir do dia 5 de abril

Ameaças de violência e despedimento contra qualquer trabalhador da fábrica que exerça o direito de associação, realidade refletida na suspensão de quinze trabalhadores.

Em resposta ao relatório, a empresa negou as acusações, afirmando que se trata de um relato parcial das medidas tomadas pela mesma, baseado apenas na investigação do WRC. Atribui a violência e conflitos apenas aos trabalhadores e afirma que ocorreram fora da fábrica. Ainda defende que investigações e ações internas decorriam no momento em que o grupo decidiu divulgar o seu relatório.

O WRC como grupo de investigação

O grupo por trás do relatório, o Worker Rights Consortium (Consórcio de Direitos dos Trabalhadores), é uma organização sem fins lucrativos que se ocupa da investigação das condições de trabalho no comércio global de vestuário. Este órgão protetor dos direitos dos trabalhadores realiza investigações independentes e aprofundadas, publicando relatórios públicos relativos a fábricas que produzem para grandes marcas.

A investigação do WRC não só incluiu reuniões presenciais e extensa comunicação por e-mail com a Shahi Exports, como também entrevistas a mais de trinta trabalhadores de fábricas da empresa, tanto daqueles que estavam envolvidos em atividades associativistas ou não. A organização ainda entrevistou profissionais de saúde que trataram as lesões dos trabalhadores, mas também jornalistas locais que cobriram a violência na fábrica. Alguns destes confirmam incidentes reportados inicialmente por um jornal local, o Deccan Herald.

Produção de vestuário
Fotografia: Produção de vestuário/ Pexels

O que é que o WRC sugere para corrigir o problema?

Depois de documentar os abusos cometidos e/ou dirigidos por membros da gerência da Shahi na unidade 8, o grupo pediu às marcas que Shahi fornece para que estas a pressionassem a tomar medidas adequadas.

Aqueles que foram agredidos fisicamente e despedidos deveriam poder regressar às suas funções, beneficiando de um pedido de desculpas formal por parte da empresa, de pagamento de salários em atraso e de compensação por eventuais lesões, sofrimento e bens furtados ou apreendidos. Adicionalmente, os gerentes e supervisores que tomaram parte nas violações mencionadas, ativa ou passivamente, deveriam ser punidos, sendo aplicado o despedimento aos que surgem identificados no relatório.

Por outro lado, a Shahi deveria não só restaurar um ambiente propício à liberdade de associação, como também permitir a colaboração entre a empresa e os sindicatos que se ocupem da proteção dos direitos laborais.  Finalmente, o grupo sublinhou a importância de declarar estas políticas oficialmente, sujeitando-as a aprovação por parte do WRC e dando-as a conhecer aos trabalhadores e supervisores das fábricas.

Shahi e as marcas compradoras já reagiram

A maioria das marcas com as quais o WRC partilhou o seu relatório indicaram que haviam contactado a Shahi relativamente à situação nesta fábrica. Após comunicação entre o WRC e a Shahi, a empresa mostra-se disposta a tomar medidas para solucionar a questão de violência e outros abusos na fábrica.

No entanto, a Shahi continua a recusar-se a levar a cabo todos os esforços necessários para corrigir os danos causados aos trabalhadores e para restaurar o seu direito à liberdade de associação. Além do mais, as marcas que Shahi fornece estão a falhar na exigência para que a administração tome estas medidas.

Quanto à reintegração de trabalhadores na empresa, com direito a pagamento de salários em atraso, a empresa integrou novamente doze trabalhadores que haviam sido suspensos e concedeu-lhes o dinheiro. Porém, as ofertas de reintegração parecem ser dadas com base em condicionamento e mantendo a supressão dos direitos de associação dos trabalhadores. Quanto aos despedimentos dos gerentes e supervisores responsáveis pelos atos de violência, a empresa apenas concordou em transferir três deles para outras instalações.

Assim, apesar da violação dos direitos dos trabalhadores, da legislação indiana, dos códigos de conduta das marcas e das normas laborais internacionais, as marcas continuam a trabalhar com a empresa, mesmo que não tenha tomado todas as medidas necessárias para corrigir a situação na fábrica de Bangalore.

who made my clothes, fashion revolution
Iniciativa ”Who Made My Clothes” I Fashion Revolution Portugal | Instagram

Com o intuito de discutir o incidente, o Espalha-Factos esteve à conversa com Salomé Areias, da Fashion Revolution Portugal, uma associação sem fins lucrativos que veio trazer a Portugal um movimento crente numa indústria da moda que valoriza as pessoas, o meio ambiente, a criatividade e o lucro em igual medida.

Julgo que nos apressamos a isolar o crime e a responsabilizar as fábricas […] mas os abusos não são casos isolados, são sim o produto de uma realidade política de gigante dependência económica de um lado do mundo sobre outro. Um produtor em Dhaka que ameaça o operário e lhe paga o equivalente a um pacote de arroz por doze horas de trabalho monótono e de risco, é não mais do que um peão sem escrúpulos, outrora pressionado pelo cliente- sim, a marca de moda europeia ou americana que se diz tão socialmente responsável- para baixar os preços, que o deixa a ele e tantos outros numa selva sem lei.

Salomé explica-nos, então, a dependência destas fábricas relativamente a grandes economias exploradoras, afirmando que estas fazem imposições e não negócios, já que estes últimos implicam que ambas as partes tenham algum poder de troca de bens, serviços ou interesses, para que ambas saiam a ganhar.

A coordenadora da Fashion Revolution em Portugal também salienta a urgência de responsabilizar as fábricas locais, mas afirma que só isso não irá erradicar o problema. Fala-nos de um presente em que o sistema económico da fast fashion se torna obsoleto e infértil, mas também de um futuro em que a indústria da moda se torna mais eticamente responsável.

Esta realidade só vai mudar quando as marcas de fast fashion se mostrarem conscientes do seu peso nesta equação e começarem a monitorizar e rastrear a produção com os direitos humanos em vista. Como a natureza dos seus modelos de negócio não lhes confere tal consciência, penso que a solução virá com a queda da fast fashion e emergência das marcas sustentáveis.

Finalmente, sublinha que, ao deixarmos de comprar fast fashion, não estaremos a causar desemprego nos países de produção. No máximo, estaremos a ”beliscar” as vendas a marcas que lucram biliões ao ano e que têm, então, uma grande margem para se reposicionar, reinventar e repensar estratégias produtivas mais sustentáveis e éticas.

LÊ TAMBÉM: FAIR RETAIL: “UMA MARCA JOVEM, COM UMA FILOSOFIA ÉTICA E PRINCÍPIOS SUSTENTÁVEIS.”

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