O último dia de Super Bock Super Rock ficou marcado por amor e tragédia. A receção calorosa a Benjamin Clementine contrastou com o desastre da atuação de Julian Casablancas & The Voidz. Pelo meio ainda conseguimos ser hipnotizados por Sevdaliza e provar a Stormzy que o grime não se sente apenas em Londres.  

Stormzy foi a primeira atuação da Altice Arena neste terceiro dia de Super Bock Super Rock. O filho do grime, como ele próprio se descreve, estreava-se em Portugal para partilhar e absorver a energia do público que se aproximava do palco principal do festival. Eram bastantes os que se reuniam para ver um dos nomes de maior destaque do grime, género urbano que surgiu em Londres, derivado do UK garage e influenciado pelo hip hop.

Único nome assumidamente associado ao hip hop deste último dia, perdeu, de certo, muitos fãs que escolheram apenas o dia de ontem para vir ao Parque das Nações. Apesar disso, ficou claro que, para muitos, seria dos concertos mais esperados. Stormzy apresentou-se a uma plateia composta, sedenta de dançar, e conseguiu ser das atuações que mais reações gerou por parte do público.

O concerto inicou-se em formato de DJset, onde pudemos ouvir mais do que um tema de Skepta, clara influência na carreira de Stormzy, e até cantar uns versos da God’s Plan de Drake. Depois do aquecimento, o londrino apareceu em palco e pediu energia por parte da plateia, repetindo este desejo ao longo de todo o concerto. Insistiu para que fossemos a sua “energy crew” e nós acedemos (“This is south London, this is Portugal, this is energy crew, c’mon!”). Ninguém ficou indiferente ao pedido de Stormzy, e a sua estreia em palcos portugueses não podia ter sido feita de melhor maneira – ou podia, caso tivesse atuado ontem. Big For Your Boots, First Things First e Dude foram alguns dos temas que geraram alvoroço e houve até lugar para um remix de Shape of You, de Ed Sheeran.

Antes do fim do concerto de Stormzy, já Sevdaliza se fazia ouvir no Palco EDP. Apresentava-se naquela que é a terceira vez que atua em Portugal, para uma plateia algo despida, como aliás a de quase todos os concertos deste dia de festival. A medida de idades era bem superior à daqueles que acorreram no segundo dia ao Parque das Nações, tendo este último sido o dia que atraiu menos pessoas.

Mas voltemos a Sevdaliza. A sua pop-eletrónica, que consegue ainda escapar ao mainstream, tocou, decerto, aqueles que ocupavam as primeiras filas. Acreditamos que algumas emoções se percam num palco deste tipo e que o justo seria improvisar uma sala de dimensões modestas para a cantora iraniana-holandesa. Não sendo possível, observámos cada movimento, tentando não ser hipnotizados, enquanto Sevdaliza fazia movimentos lentos junto a um microfone decorado com flores. “Pedi aos fotógrafos para sair após a sexta canção para que eu pudesse sorrir”, disse, assumindo uma certa postura de diva. Não nos importamos, é, em parte, um estatuto que respeitamos em alguém que nos consegue fazer arrepiar com a voz.

Benjamin Clementine foi o artista que, durante este terceiro dia de festival, reuniu mais gente na Altice Arena. Ainda assim, nada comparado a artistas que atuaram em dias anteriores. Os seus fãs, porém, não se desleixaram na oportunidade de o rever e seriam poucos aqueles que assistiam a um concerto de Clementine pela primeira vez. A vinda repetida do artista a território nacional nos últimos tempos, em várias localidades e datas, faz como que já esteja riscado da lista de muitos aqueles que procuram novidade. Talvez a única novidade tenha sido o convite, por parte de Benjamin, de Ana Moura, que subiu ao palco para interpretar I Won’t Complain. Jupiter, Phantom of Aleppoville e London foram outros dos temas interpretados pelo londrino acolhido e acarinhado pelo público português. Não é novidade também que Portugal tem uma relação intensa com o artista, que se consolidou durante a noite passada.

Enquanto os The The já atuavam no palco EDP, os Pop Dell’Arte entravam no palco LG e um público mais adulto, que sabia o que esperar, reunia-se à frente do palco. João Peste mantém a postura de sempre e vai direto ao assunto. Mais uma vez, não nos podemos queixar da falta de rock neste cartaz do festival. É precisamente a partir desta altura que é difícil falar noutro género musical.

Os The The reuniram muitos seguidores da banda junto do Palco EDP, naquele que foi o regresso, após vários anos, a palcos nacionais. A banda criada em 1979, cuja formação tem vindo a sofrer várias alterações, sendo Matt Johnson o único membro que permanece desde sempre, nunca reuniu demasiada atenção mediática. Contudo, apresenta-se perante um público fiel, que reconhece a sua importância histórica e agradece a oportunidade de ver ao vivo temas que marcaram, decerto, as suas vidas.

Um concerto que também marcará as vidas de muitos, não necessariamente pelas razões certas, foi o dos The Voidz, banda que acompanhou Julian Casablancas, menino querido dos The Strokes. O que se passou ontem naquele que foi o último concerto do palco principal do festival foi, no mínimo, desastroso. Pouco depois do início do concerto, as poucas pessoas que se encontravam na Altice Arena para ver a banda começaram a questionar-se sobre o que realmente estava a acontecer.

Ruído, num volume que ultrapassava para muito os decibéis toleráveis, gritos quase impercetíveis, guitarras estridentes e batidas rápidas fizeram com que muitos fossem abandonando a Altice Arena, com ar preplexo. Sem esperar, estávamos numa cave refundida a assistir a um concerto de metal. Mesmo não percebendo, tentámos aproveitar a oportunidade que nos foi dada para extravasar a réstia de energia de que dispúnhamos. Pena que a maioria não tenha querido prestar ao mesmo esforço, tendo a atuação dos The Voidz terminado com uma plateia quase vazia, acontecimento completamente atípico para um dos concertos mais anunciados de um festival, a uma hora que não se afigurava tardia.

Pelo meio, ainda assistimos às atuações de Isaura, Baxter Dury, Sunflowers e La Fura Dels Baus.

Assim terminou mais um Super Bock Super Rock. O festival regressa em 2019 para a sua 25ª edição, nos dias 18, 19 e 20 de julho.

Fotografias de Catarina Abrantes Alves