Neste segundo dia de Super Bock Super Rock, Anderson .paak foi rei e senhor, mostrando que o rap pode ser extremamente complexo e Travis Scott afirmou-se pela simplicidade e eficácia. Princess Nokia foi feminina e explosiva e Profjam demonstrou saber agradar, movendo-se muito bem no trap.

Profjam tem conseguido, a longo dos últimos tempos, construir uma legião fiel de fãs. Seguem-no, mantém-se firmes nas primeiras filas, sabem as letras e competem entre si nas danças características do trap. Foi precisamente isso que vimos no início do segundo dia do Super Bock Super Rock. As pessoas que se reuniam junto do Palco EDP eram muitas para a hora marcada, mobilização até atípica quando comparada com outras atuações que têm acontecido neste palco do festival.  Alguns problemas técnicos dificultaram o arranque do concerto e Matar o Game foi, ironicamente, assassinada. Não foi, porém, suficiente para demover os seguidores do ‘profeta’, que permaneceram exatamente onde estavam.

Ultrapassadas as questões técnicas, Profjam foi direito ao assunto, debitando canções já bem conhecidas do seu público. Houve até espaço para interpretar um novo tema, que sairá em breve. Acompanhado ao longo de todo o concerto por Mike El Nite, que assumiu o controlo em Mambo Nr. 1, e contando com Yuzi para interpertar Gwapo, o seu single mais recente, Prof foi sempre a figura de maior destaque e foi deixando os fãs saber a importância que a sua presença e aquele momento tinham para si. Por momentos, sentimo-nos numa festa do secundário. Contudo ao mesmo tempo concluímos que o secundário deve ser muito mais divertido agora.

Muita gente abandonou o Palco EDP depois do concerto de Profjam, mas o público-alvo de Oddisee, que entraria de seguida acompanhado dos Good Compny, não era o mesmo do rapper português. A faixa etária das pessoas que se aproximavam do palco subiu consideravelmente. O discurso de Oddisee é mais sério e a sua postura diferente. Usa o hip hop de uma forma interventiva, quer de uma maneira mais determinada ou mais descontraída. “I love my country, hate its politics”, repete o rapper norte-americano em Lifting Shadows. Oddisee foi capaz de uma atuação consistente, não deixando ninguém indiferente, tanto os que vieram para o ver, como aqueles que não sabiam o que esperar e provou ser um nome que devemos manter debaixo de olho.

Achamos uma tarefa ingrata escrever sobre o concerto de Princess Nokia. Não porque não haja muito a dizer, mas porque é extremamente difícil transmitir em palavras a energia que se sentiu ao pé do Palco EDP. A noite tinha acabado de começar, e muitos começavam a aproximar-se para ver a princesa do rap, de entre os quais muitas miúdas sedentas de absorver um pouco de empowerment feminino. Àquela hora, naquele sítio, sentiu-se uma energia feminina poderosíssima, mérito da rapper. A primeira parte do concerto foi um debitar de canções bem conhecidas daqueles que aguardavam o seu regresso a Portugal.

O concerto abriu com Brujas, e seguiu com temas como Kitana, Mine e, talvez a que tenha provocado mais reações por parte do público, Tomboy. A segunda parte foi menos efusiva, já que Princess Nokia decidiu, talvez de forma errada, gastar os seus maiores trunfos no início (e, talvez por isso, façamos esta divisão). A diferença é bem notória quando comparamos o seu mais recente EP com os lançamentos anteriores e transpareceu ontem na sua atuação. Muita gente foi abandonando a frente do palco. Mas, apesar deste sentimento agridoce, não nos conseguimos sentir defraudados tendo ficado.

Pelo meio ainda houve tempo para Nokia cantar um verso de Don’t Touch My Hair, de Solange e de interpretar I Miss You, de Blink 182 (também não entendemos, mas adorámos). A esquizofrenia não acabou aí – a rapper abandonou o palco ao som de Fat Lip, de Sum 41.

Para muitos, Anderson .Paak era o concerto mais aguardado da noite. As expectativas eram altíssimas e a Altice Arena encheu pela primeira vez esta noite, tornando-se circular uma luta. Rapper, compositor, produtor, .Paak tocou bateria e deu-se a alguns passos de dança. Interpretou, na sua maioria, temas retirados de Malibu, o trabalho que lançou em 2016 e que lhe trouxe merecido reconhecimento por parte da crítica e do público em geral.

Anderson .Paak apresentou-se com os Free Nationals, nesta que foi a sua segunda atuação em Portugal – o facto de ter feito a primeira de Bruno Mars, na primeira vez que tocou em território nacional, não facilitou a ida de muitos fãs que queriam apenas vê-lo a ele. Felizmente, voltou e presenteou-nos com a atuação mais rica e musicalmente interessante da segunda noite. Já Travis Scott, cabeça de cartaz do dia de hip hop deste festival, merecerá outras menções honrosas. Mas antes, fomos espreitar Ermo.

Os Ermo são, com toda a certeza, das bandas mais interessantes do panorama musical português atual. Depois do lançamento de Lo-Fi Moda, disco incluído nas mais importantes listas de melhores discos do ano passado, têm atuado por todo o país e por mais vezes que os vejamos, nunca nos fartamos. Já é a terceira vez que os vemos ao vivo com este disco mas aproveitamos sempre mais uma oportunidade para o saudar. O concerto decorreu no Palco LG, a uma hora ingrata para a dupla de Braga – Anderson .Paak ainda brilhava no palco principal. Apesar de terem atuado para uma plateia despida, não fomos capazes de ficar indiferentes aos sintetizadores que teimam em não deixar os nossos membros repousar.

Um pouco antes da hora marcada para o início da atuação de Travis Scott, a Altice Arena começava a encher. Todos os espaços eram preenchidos e no público, maioritariamente mais jovem do que o que se havia reunido para ver Anderson .Paak, notava-se a dificuldade em conter a excitação. O Super Bock Super Rock é atualmente o único festival de verão que dedica, de forma assumida, um dia ao hip hop e os fãs deste género musical agradecem a oportunidade de ver ao vivo nomes como Travis Scott (ou Future e Kendrick Lamar, em anos anteriores). Talvez esse tenha sido um dos motivos por que a afluência de pessoas ao Parque das Nações tenha sido, na sexta feira, bem maior do que no primeiro dia de festival.

A dificuldade que um rapper como Scott tem em encher um palco, pela ausência de uma banda de suporte que o acompanhe é facilmente superada pela fidelidade do público que acompanha o rapper. Pouco depois de entrar em palco, o músico pergunta aos fãs se serão capazes de sobreviver ao concerto, recebendo gritos de entusiasmo e fazendo antever um concerto, pelo menos, selvagem. Foi precisamente isso que se passou nas primeiras filas, tendo aqueles que gostam de dançar permanecido afastados da confusão, não disfarçando, porém, o entusiasmo.

Curto mas eficaz, o concerto de Travis Scott pecou pelo propositado encurtamento de todos os temas, à semelhança de lives de artistas do género. À nossa volta, algumas pessoas mostravam-se desapontadas pelo fim de canções que ficavam a meio. Facto que esqueciam logo a seguir, com o aparecimento de outro hit. Houve tempo para imensos: Antidote, Butterfly Effect, beibs in the trap, Pick Up the Phone e, guardada para o fim, goosebumps foram alguns dos temas que geraram mais alvoroço. Também um dos maiores êxitos de SZA, Love Galore, na qual Scott participa, assim como Skywalker, de Miguel, foram bem recebidos pelo público.

Quando achávamos que a despedida seria feita com goosebumps (em ambos os sentidos), Scott dá-nos mais uma oportunidade e canta Watch, single do seu mais recente trabalho, Astroworld, que está prestes a ser lançado. Foi com visuais de Astroworld que se deu a saída de Travis, os mesmos com os quais se iniciou o concerto.

Podes conferir fotografias do resto do dia em baixo:

O Super Bock Super Rock termina no sábado, dia 21. O festival continua por mais um dia com as atuações de Julian Casablancas & The Voidz, Benjamin Clementine, Stormzy, The TheSevdaliza e muitos mais. Os concertos têm início pelas 17:30, no Parque das Nações.

Fotografias de Catarina Abrantes Alves