O primeiro dia de Super Bock Super Rock deu para um pouco de tudo. Os The XX fizeram-nos cimentar a relação amorosa duradoura que já tínhamos com a banda. Parcels e Temples roubaram-nos alguns movimentos de anca. Os The Parkinsons foram punk rock sem mais delongas e os Justice cumpriram com a festa prometida.   

Coube aos The Parkinsons a tarefa de abrir as hostes naquele que foi o primeiro dia da 24º edição do Super Bock Super Rock. Tarefa árdua? Não nos pareceu. Apesar de serem poucas ainda as pessoas a chegar ao recinto, os Parkinsons têm a mesma atitude quer toquem para 10 pessoas ou para 100. O punk rock vai direto ao assunto e revela não se preocupar com questões menores. “Boa tarde Porto!”, dizem pouco depois do início do concerto, em tom jocoso. Ao longo da atuação foram variando nas localidades e nomenclaturas do festival, sempre com a ironia e irreverência que os caracteriza. Não estivéssemos a falar de punk rock, o género musical mais despreocupado à face da terra. A energia de Afonso Pinto (Al Zheimer de nome artístico), o vocalista da banda, é contagiante e pôs as primeiras pessoas que se aproximavam do Palco EDP a mexer. Por sua vontade, e nossa também, teriam tocado mais um par de canções, mas foram, infelizmente, impedidos pela força da hora.

À medida que mais pessoas se aproximavam do único palco do festival em atividade àquela hora, os Parcels conseguiram, com sucesso, fazer a transição entre suor e gritos de comando, para um agradável baile de verão. Tarefa cumprida, os festivaleiros pareceram agradecer e responderam com danças e aplausos mais determinados. Apesar de eficaz, não conseguimos não nos lembrar da Get Lucky dos Daft Punk ao arranque de cada novo tema, o que não é necessariamente bom.

Já os Temples pecaram pelo mesmo mal. O seu rock psicadélico, que prometia ser a fórmula ideal para um bom final de tarde, ficou aquém do que seria expectável. A atuação foi morna, os temas pareciam repetir-se e prolongar-se indefinidamente. Certainty e Shelter Song despertaram o interesse de quem estava, mas tudo o resto não foi suficiente para provocar muito entusiasmo nos presentes.

Who The F*ck Is Zé Pedro, nome dado ao tributo organizado em homenagem a Zé Pedro, figura incontornável da cena musical portuguesa, começou mais tarde do que o esperado. A organização anunciou que todos os concertos do palco principal começariam com uma hora de atraso, embora os horários das atuações dos restantes palcos se mantivessem. O tributo foi, nada mais, nada menos do que a consagração merecida de um artista conhecido e respeitado pessoal e profissionalmente. Muitos nomes conhecidos da música portuguesa, de entre os quais Carlão, Tó Trips, Manuela Azevedo, Manuel Cruz, entre muitos outros – para além, claro, dos Xutos e Pontapés -, subiram ao palco da Altice Arena para interpretar temas escritos por Zé Pedro, ou do seu gosto pessoal. A despedida fez-se com Não Sou o Único, reunindo em palco todos os que fizeram parte deste último adeus.

Seguia-se uma das atuações – se não a atuação mais aguardada da noite. Os The XX entravam, tal como todas as bandas que tocaram ontem no maior palco do festival, com uma hora de atraso. Nada demoveu os fãs, que se avistavam desde o início da tarde pelo recinto, envergando t-shirts da banda.

I See You, música que abre o mais recente trabalho dos The XX foi também a escolhida para a abertura de um concerto que reunia todos os ingredientes necessários a uma boa performance. Os XX reúnem já uma considerável fan base no nosso país, que já pisaram várias vezes, e que procura revê-los sempre que pode. Foi de coração ao alto, que um pavilhão quase cheio recebeu a banda, que foi sublinhando o amor que tem pelo nosso cantinho à beira mar plantado.

A fórmula mantém-se, mas revela-se, mais uma vez, infalível. Os The XX sabem como nos chegar ao coração e, em simultâneo, pôr um pavilhão inteiro a dançar. A atuação fez-se de canções dos seus três discos, alternadas com mestria. Crystalised foi dançada com convicção e VCR relembrou-nos porque é que, em 2009, ouvíamos XX em loop.

Os fãs são fiéis, ajudam nos cânticos e sabem como conquistar uma banda que diz andar em tour há dois anos. É isso que nos diz Jamie, claramente emocionado e em jeito de despedida, por ser este o último concerto dessa mesma tour.

Os elogios do costume ao público português pareceram-nos sinceros, e a comunhão com os fãs, natural. Houve até oportunidade para Jamie dedicar uma música ao púlbico LGBT. Seguiu-se Shelter, mais um regresso ao primeiro disco, e Loud Places de Jamie XX, à qual Romie empresta a voz. Em On Hold houve tempo para suster a respiração e logo de seguida, extravasar emoções e partir pista. Depois de Intro, a despedida fez-se com Angels. “Being as in love with you as I am”, disse-nos a voz doce de Romy. Também nos voltámos a apaixonar por momentos e, claramente, cimentámos a duradoura relação que já tínhamos com a banda.

Prejudicados pelo avanço da hora, devido não só ao avanço de uma hora de todas as atuações do palco principal, mas por uma meia hora extra, foram muito menos aqueles os que ficaram para ver Justice. O facto de ser uma quinta-feira à noite não ajudou e foram muitos os que deixaram o recinto do festival depois do concerto de XX. A dupla francesa atuou para uma plateia pouco composta, apesar das filas da frente não parecerem desencorajadas por esse facto. Safe and Sound pôs os poucos que estavam a dançar e uma ameaça do início de D.A.N.C.E. foi suficiente para muitos braços levantados e alvoroço geral. Entretanto, no Palco Somersby, Mahalia já tinha começado a atuar. A escolha foi difícil, mas tínhamos que ir cumprimentar a cantora.

Contava-se, de acordo com a programação, que a atuação de Mahalia não se sobrepusesse com o concerto de Justice (pelo menos não muito). O público que se encontrava no Palco Somersby para ver a cantora britânica era modesto e talvez a permanência de muitos no palco principal para ver Justice, nome incontornável da eletrónica, tenha prejudicado em grande medida a plateia de Mahalia, que se encontrava despida. Aguardemos por um concerto da artista em nome próprio, ou pelo menos com as condições ideais, para compensar esta falha.

A par das que te fomos mostrando, podes ver, ainda, aqui mais fotografias de concertos deste primeiro dia de festival:

O Super Bock Super Rock continua por mais dois dias e segue dia 20 com as atuações de Travis Scott Anderson .Paak. No último dia, nomes como Julian Casablancas & The Voidz e Benjamin Clementine atuam no Parque das Nações. Para além dos nomes que encabeçam o cartaz este ano, há ainda muito para ver e ouvir.

Fotografias de Catarina Abrantes Alves