O guião perdido de Burning Secret, adaptação do realizador Stanley Kubrick da obra de Stefan Zweig, foi encontrado por um académico. O jornal The Guardian avançou no passado domingo que o texto terá mais de 100 páginas e estará praticamente completo.

Nathan Abrams, responsável pela descoberta, é professor de cinema na universidade galesa de Bangor e autor do livro Stanley Kubrick: New York Jewish Intellectual. O académico disse à BBC Radio que o guião lhe tinha sido mostrado pelo filho de um antigo colaborador de Kubrick, que prefere permanecer anónimo.

“É um guião completo: início, meio, fim”, revelou ainda Abrams, porém “se era o guião final, não podemos precisar”.

Burning Secret adapta a novella do escritor judeu e vienense Stefan Zweig, datada de 1913, à América contemporânea do realizador.

Em muitos aspetos, Abrams alega que o filme será quase um espelho de Lolita (1962). Na adaptação do livro de Vladimir Nabokov fala-se de um homem que casa com uma mulher para se aproximar da filha adolescente. Já Burning Secret conta a história de um vendedor de seguros que se aproxima de um rapaz de 10 anos para conseguir seduzir a mãe, casada.

“Eu argumentaria que aquilo que podemos ver traça uma conexão direta entre este filme, Lolita, Barry Lyndon e The Shining, a culminar em Eyes Wide Shut”, defendeu ainda o académico responsável pela descoberta.

Guião pode ter sido demasiado polémico para Hollywood

Burning Secret terá sido escrito em 1956 com a colaboração do romancista e guionista Calder Willingham, com quem Kubrick colaborou também no filme Paths of Glory.

O projeto terá sido cancelado pela produtora MGM (Metro-Goldwyn-Mayer). O motivo oficial é uma alegada quebra do contrato da parte de Kubrick, que estaria a trabalhar em Paths of Glory na mesma altura. Mas há outras versões. Há relatos de que James B. Harris, colaborador de Kubrick na produção, não via o potencial cinematográfico da história.

Nathan Abrams sugeriu ainda ao The Guardian que a ideia do adultério com uma criança a ser usada como intermediário pode ter sido demasiado arriscada. Era ainda a época do infame Código Hays, que regulava a moralidade dos filmes.

Já se sabia que Kubrick e Willingham tinham trabalhado numa adaptação de Burning Secret. Mas “o que ninguém sabia era se eles realmente tinham escrito um guião e se o tinham acabado”, revelou o professor à BBC Radio.

Estará um filme a caminho?

Segundo o The Guardian, que relatou a história no passado domingo, o guião está completo o suficiente para a haver a possibilidade de ser desenvolvido por outros cineastas.

Nathan Abrams confirmou à BBC Radio que havia material suficiente para realizar um filme.  Mas alerta que o resultado não seria necessariamente a visão de Kubrick. “Tem de se considerar que o Stanley só olhava para o guião como um guia ao qual ele adicionava depois a sua perícia audiovisual”.

À mesma fonte, Abrams sugeriu que seria ótimo ver o texto publicado primeiro e que “então, eventualmente, talvez alguém o queira adaptar”.

Conhecido pelo perfecionismo, Stanley Kubrick realizou apenas 13 filmes. Morreu em 1999 e permanece um dos cineastas mais aclamados de sempre. Entre as suas obras mais célebres estão 2001: Odisseia no Espaço (1968), que celebra 50 anos, Laranja Mecânica (1971) e The Shining (1980).

A história de Burning Secret já tinha sido adaptada ao cinema em 1988. O filme foi realizado por Andrew Birkin, antigo assistente de Kubrick, mas com base num guião diferente.

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