Desde Jack Nicholson que todos temos medo de Joker. 1989 foi um ano de grandes filmes, como O Clube dos Poetas Mortos (1989), Não Digas Nada (1989) ou Um Amor Inevitável (1989). É caso para dizer que foi um ano de clássicos. Porém, ainda houve lugar nas salas de cinema para o morcego mais temido dos vilões de Gotham City, Batman, naquele ano protagonizado por Michael Keaton. A escolha do ator gerou críticas, visto que Keaton se destacava maioritariamente em papéis cómicos, não tão sérios quanto se quer o de um super-herói deste calibre.

Este ator foi o primeiro Batman humano no grande ecrã e, anos depois, estrelou Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014), uma comédia dramática ficcional sobre a ascensão de um antigo ator de filmes de super-heróis que caiu no esquecimento. No filme que celebra hoje o seu décimo aniversário, O Cavaleiro das Trevas (2008), Heath Ledger veio, também ele, reencarnar um Joker há muito perdido, algures entre a sombra de Jack Nicholson e os seus risos maníacos.

Jack Nicholson foi nomeado para um Globo de Ouro por Batman (1989) (Fotografia: IMDb)

Uns anos depois, Batman Regressa (1992), desta vez sem o mal-amado Joker, conhecido pelo seu sorriso de orelha a orelha. Saía então outro filme da quadrilogia Batman (1989-1997) das mãos de Tim Burton, mas sem tanto alento quanto o primeiro. Seria Joker o segredo para o realizador manter um filme rentável e de qualidade? Face a esta problemática, Joel Schumacher assumiu o controlo da quadrilogia e, num terceiro filme, tentou eternizar um dos poucos heróis de banda desenhada sem poderes especiais no cinema, desta vez com Val Kilmer debaixo da sua capa, com Batman Para Sempre (1995).

Mas talvez, até então, a solução ainda não tivesse sido encontrada, porque a crítica continuava com a sua reticência. E não demorou muito para o realizador do clássico O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas (1985) ter de aplicar outra abordagem ao que tinha começado, com Batman e Robin (1997) e o galã George Clooney no papel principal. Mas o verdadeiro filme de ação ainda estava por chegar…

Um realizador especial

Christopher Nolan é um dos grandes cineastas da Hollywood dos dias de hoje. Ao virar do milénio, apalpava o terreno incerto do público lançando-lhe filmes como Following (1998) e Memento (2000). Mas entre as receções e produções dos seus dois primeiros filmes houve severas diferenças: a sua estreia no grande ecrã adveio de um modesto investimento de apenas 5 135 euros e um elenco fantasma, enquanto o seu segundo filme teve um orçamento de mais de sete milhões e 700 mil euros.

O resultado disso? Guy Pearce, ator que tinha brilhado em Los Angeles Confidencial (1997), no ecrã, e ainda duas nomeações para Oscar, ora no campo da edição, ora no da escrita; aqui começava oficialmente a dar cartas o duo de irmãos Christopher e Jonathan Nolan. Até hoje, têm andado de braço dado e não parecem querer largar-se. E são exemplos disso os trabalhos em O Terceiro Passo (2006) e Interstellar (2014).

Convém não esquecer a ajuda que o irmão mais novo de Nolan também deu nos guiões dos dois últimos filmes da trilogia Cavaleiro das Trevas (2005-2012). Mas, em Batman – O Início (2005), foi com David S. Goyer que Christopher Nolan dividiu a autoria do argumento.

Havia então a estrela em ascensão Christian Bale a vestir os fatinhos de Bruce Wayne, um elenco de luxo com atores como Michael Caine, Liam Neeson, Gary Oldman ou Morgan Freeman e muita vontade de empregar a esta série de banda desenhada um ar mais sério e adulto, recorrente nos filmes do realizador.

Gary Oldman e Christian Bale em Batman – O Início (2005) (Fotografia: IMDb)

Só talvez Watchmen – Os Guardiões (2009) seja um filme a estes comparável no que toca ao campo metafórico dos super-heróis e vilões, neste caso através de uma reconstrução fantasiada da história americana, como fez o Forrest Gump (1994) de Robert Zemeckis. Mas não é por se aproximarem tanto da realidade que estes dois exemplos vão ser mais realistas do que qualquer um dos filmes negros de Nolan. Pelo contrário; também o próprio Batman tem uma faceta muito real, para começar não sendo dotado de superpoderes, e por ter um alter ego, Bruce Wayne, que podia ser qualquer um de nós.

Um ator ainda mais especial

Depois do primeiro sucesso de bilheteira, que rendeu ao mesmo tempo até um videojogo, Batman Begins, dobrado pelo elenco (excetuando Gary Oldman), veio o realmente aclamado filme da trilogia: O Cavaleiro das Trevas. Há precisamente dez anos, entravam Joker (Heath Ledger) e Harvey Dent (Aaron Eckhart) na história, e ela própria ganhava uma identidade muito própria e que ainda hoje se mantém.

Estes foram o ingrediente que faltou ao primeiro filme para rebentar recordes e bater à porta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que entrega os famosos e tão desejados Oscars às melhores produções fílmicas do ano. Embora postumamente, Heath Ledger foi galardoado com o Oscar de Melhor Ator Secundário de 2009, por uma performance certamente irreverente e diferente do que até então havia sido feito.

Heath Ledger correu contra a corrente que o próprio filme soprava: a sua personagem pergunta, ironicamente, “why so serious?” E quem sabe se não o faz diretamente ao filme de super-heróis mais sério que já saiu de Hollywood?

Numa preparação para performance que se sabe publicamente ter sido exagerada, Ledger recuperou Joker ao mais ínfimo detalhe: realizou os excertos de vídeo que o vilão envia para o canal televisivo de Gotham City para o herói Batman ver, escolheu cada traço do seu guarda-roupa, e chegou a trancar-se num motel por mais de um mês para desregular a sua sanidade mental. Houve espaço para o improviso, mas também para a dor: o ator pediu a Christian Bale que as cenas de luta fossem o mais realistas possível, e desse modo para lhe bater mesmo.

Heath Ledger realizou os vídeos que Joker envia à GCN (Fotografia: IMDb)

Na preparação para este filme, o ator, que já era conhecido por ser metódico e tinha figurado o clássico O Segredo de Brokeback Mountain (2005), escondeu-se no quarto de um motel por seis semanas. Estudou então a personagem e inspirou-se noutras, como por exemplo no sociopata Alex de Laranja Mecânica (1971) ou no baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious, um ícone da cultura punk. O intuito desta reclusão prendeu-se com um mergulho profundo nas águas carismáticas da mente de Joker, que serviu para Ledger aprender cada tique do palhaço, como a sua voz e o seu riso estridente, maléfico e sádico. Um dos seus propósitos era afastar-se da interpretação icónica de Jack Nicholson de 1989.

No final, uma trilogia inesquecível

Com a morte de Heath Ledger, um terceiro filme enchia os fãs do trabalho de Nolan de curiosidade para o que aí viria em O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012). Mas nem a falta de um merecedor de Oscar conseguiu derrubar a possibilidade de sucesso de Nolan. Foi, por isso, altura de chamar outro vilão: Bane (Tom Hardy).

Mesmo com a ajuda de Blake (Joseph Gordon-Levitt), Batman viu-se numa posição mais complicada do que nunca, dentro de um cenário cada vez mais ameaçador para Gotham City. A chegada do novo vilão obrigou o super-herói a tomar medidas drásticas para finalmente conseguir deixar a cidade em paz. Para isso, abdicou de tudo – até de Selina (Anne Hathaway) -, e despiu de vez o fato no qual todos gostávamos de o ver.

Ao longo da história da sétima arte, cujo começo remonta sensivelmente ao final do século XIX, temos sido brindados com trilogias imperdíveis para qualquer cinéfilo. Entre elas, convém destacar algumas em específico: a clássica O Padrinho (1972-1990), a inovadora em efeitos visuais Regresso ao Futuro (1985-1990) e a ladra de Oscars O Senhor dos Anéis (2001-2003).

Na estante da história das trilogias que moldaram o cinema e a forma de se o fazer, cabe também o trabalho de Nolan, que, durante quase uma década, se dedicou de forma incansável a uma arte que precisava de uma figura heroica de referência para ser mostrada a uma sociedade que clama constantemente por salvação.

Mas não apontemos o bat-signal em vão. Dificilmente ele voltará a aparecer com tanto estilo. E, se antes houve ainda lugar para Batman, hoje talvez ainda haja lugar para outros filmes de super-heróis.