O segundo dia do NOS Alive iniciou-se com um céu mais solarengo, algo que foi um bom presságio para o resto da noite. De um secret show de Mallu Magalhães, no Palco Coreto, a Matt Berninger dos The National que revirou o recinto do festival, surpresas não faltaram.

Um dia que tinha acordado com uma notícia do cancelamento dos The Kooks, que iam tocar no palco principal, revelou-se mais do que brilhante. Para isso, muito contribuiu a consistência do cartaz que apelava essencialmente aos grandes amantes do rock contemporâneo.

Black Rebel Motorcycle Club, The National, Queens of the Stone Age foram das principais atrações da noite, sendo as duas últimas as melhores atuações, às quais se viria a juntar depois a dos Future Islands. Mas já lá vamos.

Uma inesperada visita de Mallu Magalhães

Eram 18 horas e 30 minutos, quando os mais curiosos se começavam a dispor em torno do Palco Coreto by Arruada. Estava marcado um secret show sem artista anunciado para dez minutos depois dessa hora.

Eis que surge Mallu Magalhães num vestidinho amarelo, acompanhada apenas de uma guitarra. Em cerca de um quarto de hora, a jovem paulista e residente em Portugal apresentou-nos alguns temas da sua obra em brasileiro, inclusivamente, Você Não Presta do álbum Vem (2017).

Foram muitos os sorrisos partilhados entre a intérprete brasileira e a audiência que esteve presente numa antecipação para o dia 14 de julho, no qual Mallu toca no Palco Sagres.

Yo La Tengo são a alma velha do indie e post-rock

Já perto das 20 horas e 30 minutos, o Palco Sagres enchia-se para mais um concerto. Desta feita, depois dos Eels que marcaram este NOS Alive com um regresso após quase dez anos sem tocar em Portugal. Eram os Yo La Tengo que subiam ao palco e que apesar do aspeto já mais vencido pela idade, mostraram uma dinâmica e energia em palco que muitos novos não conseguem passar.

O trio que assentou no início dos anos 90, depois de muitas mutações durante a década de 80, levou ao NOS Alive tanto de velho como novo. Clássicos como Autumn Sweater não escaparam, mas também estiveram presentes na setlist novos temas como Shades of Blue.

Os Yo La Tengo mostraram uma extraordinária jovialidade na sua apresentação ao público português. Num tema, a baterista é vocalista principal e, no seguinte, o baixista é teclista e dá voz à canção. O dinamismo, a flexibilidade e a facilidade presente nos movimentos dos elementos da banda transportam-nos para uma época onde o multi-instrumentalismo era presença acérrima.

The National tocaram no NOS Alive como se fosse o seu último concerto

Os Yo La Tengo sofreram um pouco com a hora em que tocaram. De facto, viu-se muita gente a abandonar este concerto mais cedo para conseguir um bom lugar para os norte-americanos The National.

O sol já se punha quando Matt Berninger e companhia subiram ao palco principal do festival. As letras vulneráveis e melancólicas não deram lugar a tristezas, o que pode parecer um paradoxo. No entanto, é esta a forma como os The National deliciam o público português.

Nobody Else Will Be There e The System Only Dreams in Total Darkness abriram as hostilidades, que nos conduziram por mais de uma hora de entrega total e partilha de emoções. Matt Berninger cantou, lançou copos de vinho para a frontline, correu pelo fosso, partilhou microfone com os fãs e ainda foi ao balcão da Sagres para beber uma cerveja com o público – cerveja essa que não resistiu e foi atirada ao ar.

Entre êxitos soberbos como Mr. November, Guilty Party e I Need My Girl, foram também tocados temas mais recentes que não deixaram de constituir grandes momentos da performance.

Portugal já tem um carimbo nos corações da banda e a sua presença constante em terras portuguesas, também não nos deixa indiferentes. O que os The National fizeram foi um concerto histórico, emotivo e transparente, algo que é difícil no contexto de um festival. Conseguem tocar-nos na alma de forma única.

Josh Homme é o deus do rock contemporâneo

Se o concerto há quatro anos no Rock in Rio tinha deixado a desejar graças a uma performance protagonizada por um Josh Homme agressivo e embriagado, este deixou-nos a desejar o prolongamento da estadia. Os Queens of the Stone Age subiram ao palco com o estatuto de cabeça de cartaz e mostraram porque são dignos dele.

Abriram com Feet Don’t Fail Me, tema de Villains (2017). De pé há muitas horas e depois de um concerto apoteótico dos The National, este era o motor de que precisávamos para aguentar o concerto que se avizinhava. Logo a seguir, para nos pôr todos a dançar, os QoTSA tocaram The Way You Used To Do, o tema mais pop do novo álbum, que faz lembrar Mambo No. 5.

Nas mais antigas, não faltaram Song for the Deaf, In the Fade, No One Knows, Burn the Witch, Little Sister, Go with the Flow e Make it wit Chu, que proporcionou um dos momentos mais incríveis e sedutores da noite. Josh fez o público cantar para ele e deixou-se levar por estes “motherfuckers” como nos chama, de forma carinhosa.

Entre muita música e mosh pits, houve tempo para um solo de bateria incrível de Jon Theodore, que apenas confirmou a grande qualidade dos músicos em palco. Na apresentação de cada elemento da banda, todos tiveram o seu tempo de brilhar. Troy Van Leeuwen destaca-se, é um dos maiores guitarristas da atualidade e prova-o todos os dias que sobe ao palco neste conjunto.

Entre muita algazarra e efeitos decorativos deitados a baixo, os QoTSa despediram-se com A Song for the Dead, isto é, a audiência. Saímos dali que completamente abalados por um concerto estrondoso da banda norte-americana que assume o controlo do Olimpo do rock contemporâneo.

Future Islands tocaram para os sobreviventes… e não eram poucos

Depois do concerto dos Queens of the Stone Age ter terminado mais tarde do que o previsto, houve uma grande correria e algumas dificuldades para chegar ao Palco Sagres. Isto tudo, porque era lá que a banda de Samuel T. Herring ia voltar a dominar o palco como o fez há três anos.

Por volta da uma hora da madrugada, entraram em palco, pisando-o pela segunda vez. Muitos olhares curiosos aproximavam-se do ecrã da parte de fora da tenda Sagres para ver a banda que se transforma do estúdio para o palco. O espectro vocal de Samuel T. Herring é o mais impressionante. A facilidade com que consegue variar entre um timbre agudo e uma voz de barítono, que se assemelha a um vocalista de uma banda de metal, deixa-nos de queixo caído.

A acrescentar a isso, todo seu espírito em palco é contagiante. Para ele, o concerto é uma hora de atividade física árdua com dança contemporânea e muitos pulos adicionados à mistura. Cantou sobre os Dreams of You and Me e deixou-nos a sonhar com o próximo concerto.

Mais sobre a noite de ontem

Ao mesmo tempo, tocavam a meio gás e para uma audiência reduzida os Two Door Cinema Club, que fizeram um melhor trabalho no palco secundário, em 2016. Por outro lado, quem passasse pela zona de restauração a essa hora, ficaria rendido às sonoridades de Branko. O português levou convidados especiais para a festa, onde fez dançar todos os presentes e todos os que ainda arranjavam forças para estar de pé.

Vê aqui mais fotografias do dia 13 de julho do NOS Alive.

O NOS Alive termina sábado, dia 14 de julho, com o muito aguardado regresso dos Pearl Jam. Para além deles, atuam Franz Ferdinand, MGMT, Jack White, Mallu Magalhães, Perfume Genius, entre outros.

Fotografias de João Marcelino