Já passavam dez minutos da meia-noite, quando o muito aguardado quarteto de Sheffield subiu ao palco principal do NOS Alive. Os Arctic Monkeys regressaram ao mesmo palco, quatro anos após a sua última atuação e parece que com menos energia do que na última vez. Já Wolf Alice e o português Papillon concorreram os dois para o prémio de melhor concerto da noite.

Da abertura de portas aos primeiros concertos

As portas abriram-se para os festivaleiros às 15 horas da tarde. Enquanto uns correram para a frontline do Palco NOS, grande parte aproveitava para conhecer o recinto. Só às 17 horas é que os concertos tiveram início.

A primeira atuação que o Espalha-Factos viu foi o de Bibiana Petek. A brasileira levou ao Palco NOS Clubbing uma fusão de rock, blues, bossa nova e música tradicional brasileira. Notava-se ainda uma resistência do público, que se ia sentando junto ao palco a assistir ao concerto.

Depois de um aquecimento no Palco NOS dado por Miguel Araújo, Bryan Ferry veio tocar para um público visivelmente mais velho. O veterano do rock veio acompanhado de saxofone e violino, numa apresentação de revisitação dos clássicos da sua carreira e dos tempos dos Roxy Music.

Slave To Love, Avalon e Love Is A Drug marcaram presença na setlist que preencheu cerca de uma hora. Foi um concerto que não chegou a todos, mas Bryan Ferry não precisa disso. O seu estatuto já está confirmado, veio ao NOS Alive para matar as saudades à velha guarda portuguesa.

Wolf Alice já gostavam de nós, mas agora estão apaixonados

Depois de Bryan Ferry, o Palco Sagres começava a aquecer. A primeira grande apresentação da noite ficou reservada para os britânicos Wolf Alice, que haviam tocado no mesmo palco dois anos antes.

É dificil entender, quando ouvimos os dois álbuns que constam no portefólio dos Wolf Alice, o porquê de uma tenda a extravasar pronta para os receber. Gravam melodias semelhantes em todos os temas, as letras não são propriamente um chamariz, mas quando chega a hora de as tocar ao vivo, não só a banda como os temas se transformam.

Ellie Roswell, a vocalista de figura frágil, é capaz da maior tranquilidade e, no segundo seguinte, altera completamente essa faceta, transformando-se numa figura feroz. É-lhe inata uma sobrecarga de energia que se reflete no público incansável, que em vários momentos declarou o seu amor à banda. Foi um concerto eletrizante, onde gastámos as primeiras energias da noite.

Ao mesmo tempo, tocavam no Palco NOS os Nine Inch Nails. Quase nove anos depois, os norte-americanos regressam para deixarem tudo em palco à frente do público português. Apesar de ter sido uma apresentação curta, os NIN entregaram-se às centenas que os viam, assim como a audiência se entregou a eles. O tema Hurt não faltou, assim como um cover da I’m Afraid of Americans do David Bowie.

Papillon fez o Clubbing ir abaixo

Enquanto no palco principal se preparavam para receber os Snow Patrol, no Palco Clubbing, o rapper português Papillon dava cartas e mostrava-se enternecido pela resposta que tinha do público. Juntou à festa Slow J e Plutónio e deu um dos melhores concertos da noite.

Soube cativar o público com rimas agressivas, onde apresenta as dificuldades da sua vida e a essência dos seu sonhos, os quais nos apelou a perseguir. “Eu sou a puta da prova viva de que os sonhos se tornam realidade”, disse já a meio da sua apresentação, ao mesmo tempo que elogiava “o melhor público de sempre”. Saímos de lá a acreditar na boa música que é feita em português e com a noção de que até em festivais tão internacionalizados, a nossa língua tem espaço para brilhar.

Depois deste concerto, as massas começaram a dirigir-se para o palco principal onde os Snow Patrol já tocavam. Entre muita gente que tentava furar o público para conseguir uma boa posição para os cabeças de cartaz que tocavam a seguir, conseguimos perceber a razão de ser desta banda no NOS Alive.

Apesar do seu estrelato já estar mais do que passado, o grupo de Gary Lightbody sabe entreter a audiência com os hits de sempre. Chasing Cars, tema dedicado aos Queens of the Stone Age que são cabeças de cartaz do segundo dia do festival, e Run não faltaram numa setlist onde também se incluíram canções do novo álbum, Wildness (2018).

O hiato de quatro anos fez mal aos Arctic Monkeys

Chegara finalmente a hora do concerto mais aguardado. Aquilo que mais se viu durante o dia foram t-shirts dos Arctic Monkeys, o que dava a entender que era para esse concerto que todas as apostas pendiam.

Acompanhados de um novo álbum, Tranquility Base Hotel & Casino (2018), vieram satisfazer as delícias de um público jovem. No entanto, não esconderam o cansaço de uma digressão que já vai longa. Cingiram-se à reprodução de músicas sem paragens, à exceção da sua falsa despedida antes de um encore que contou com Star Treatment, tema de TBH&C, Arabella e a grandiosa R U Mine?, que mereceu uma repetição da estrofe final para deleite do público que ainda não estava pronto para a despedida.

Apesar de não terem impressionado, os Arctic Monkeys divertiram e encheram as medidas dos jovens na plateia. Proporcionaram moches e cânticos emocionais com os temas mais antigos. Cornerstone, Do Me A Favour, Teddy Picker, Pretty Visitors, 505, Crying Lightning e I Bet You Look Good On The Dancefloor foram pontos altos da noite.

São grandes músicos e disso não há dúvida. Sabem criar uma atmosfera única que vai desde a voz inconfundível e imaculada de Alex Turner à bateria de Matt Helders feroz em Brianstorm e sedutora em Four out of Five, passando pelas roupas que envergam em palco. Esperemos que a banda de High Green volte rápido, mas não queremos mais uma reprodução aleatória da sua obra.

Após a saída dos cabeças de cartaz do palco principal, Sampha já tinha entrado em cena no Palco Sagres. Apesar de alguns problemas com o microfone no início, o britânico conseguiu conquistar um público que assentava arraiais no palco secundário para recuperar energias no final da noite. O cantor encheu a tenda com a sua voz numa atuação que marcou, terminando com a doce (No One Knows Me) Like the Piano e a poderosa Blood On Me.

Vê aqui mais fotografias de concertos e do ambiente do primeiro dia do festival.

Mais dois dias Alive pela frente

O NOS Alive continua por mais dois dias. No dia 13, os cabeças de cartaz são os Queens of the Stone Age, mas também é possível ver The National, Two Door Cinema Club, Future Islands, Portugal. The Man e muitos mais. Os The Kooks, que tinham atuação marcada no palco principal, cancelaram o seu concerto e foram, prontamente, substituídos pelos britânicos Blossoms.

Fotografias de João Marcelino