Fotografia: Carolina Galvão / Espalha-Factos

EDP CoolJazz: a odisseia de David Byrne e o calor de Sara Tavares

É o primeiro dia do EDP CoolJazz 2018, o panorama de Cascais transpira casualidade, no final de tarde de uma quarta-feira tépida. No festival que congrega as novas expressões jazzísticas, da soul e do R&B, a ambiência e os visitantes, de uma faixa etária mais avançada, deixam a adivinhar um desvio nítido de outros eventos de verão.

Efetivamente, parece-me estarmos a anos-luz do êxtase jovem da típica agenda estival. Talvez o “cool” do nome não seja só marketing corrente e apelativo, mas a sugestão da indolência pragmática do público-alvo: só se procura assistir a um bom concerto, sem histeria ou rituais de fã.

Generaliza-se a languidez no público que consegue aceder ao Hipódromo Manuel Possolo—uma hora após a anunciada “abertura de portas”, que aparentemente só se referia ao portão inicial e daqueles que optam pela zona da restauração, embalados pelos ritmos adequadamente moderados, mas expressivos da trompetista Jéssica Pina.

Esta postura estende-se à receção de Sara Tavares, que comanda a primeira parte oficial de um dia liderado por David Byrne, o iconoclasta dos anos 80 que move as massas ao recinto. É Tavares, cantautora de raízes cabo-verdianas que confessa ser inexperiente em “primeiras partes”, quem tem o fado de encontrar um público a meio gás, não obstante uma atuação competente e generosa.

Editado em 2017, o ponto nevrálgico da apresentação é o seu oitavo disco, onde concilia as suas raízes cabo-verdianas com a eletrônica corrente. Fitxadu, coleção de faixas orgânicas que mapeia as suas desejadas “Lisboas africanas”, traduz-se magistralmente ao vivo, com pontos altos em Coisas Bunitas e Flutuar. Mas só de seguida se presenciará a união de público e artista, pela mão do cabeça-de-cartaz.

A utopia cerebral e física de David Byrne

Em Stop Making Sense, o icónico filme-concerto dos Talking Heads, o artifício mais memorável é o fato de proporções exageradas que David Byrne usa em palco. Qual o propósito? Sublinhar que “a música é algo muito físico, frequentemente percebida pelo corpo antes da cabeça”. As palavras são do próprio Byrne, o vulto inquietante, genial dos Talking Heads, banda cujo ímpeto e identidade única foram instrumentais na construção de uma sonoridade ímpar nos anos 70 e 80.

Passados 30 anos, Byrne prossegue a solo, com mais um disco de originais e um propósito que media a arte e a política, numa fricção subtil, mas que está lá. A tournée em que se insere o concerto do CoolJazz é a consubstanciação do material de American Utopia, um álbum menos empenhado em edificar um paraíso indestrutível do que dissecar de uma conjuntura sociológica preocupante.

Rapidamente se percebe a intransigência da missão artística de Byrne, a preparação intensa, as forças que articularam na criação de um espetáculo que melhor é definido como performance, em que é complementado por uma trupe de músicos e vocalistas com quem está em total sintonia.

O fato reduz-se hoje à dimensão normal, em favor de outro adereço importante. Sobre um cenário descarnado, banhado a cinzento, com uma instalação artística — como ficará para o resto da noite — Byrne segura um cérebro, como ilustração lúdica de Here, cujos versos o compartimentam em zonas de grande confusão ou detalhe ínfimo; díspares e complementares como as secções das duas horas fenomenais que se seguem.

 

Os 11 indivíduos em palco constituem uma máquina humana de alta precisão, sem sacrificar o vínculo emocional na operação. Funciona à margem da opulência que a pop banalizou: todos os recursos são usados em expressiva economia, centrando a ação apenas nas ligações entre os músicos, de elaborada coreografia, sem falhas.

Byrne alterna o pendor dramático e arrepiante de Dog’s Mind ou Bullet com o hedonismo de Burning Down the House ou Once In a Lifetime—duas faixas de Talking Heads que encontram uma receção monumental do público. I Dance Like This compatibiliza as duas vertentes, vulnerável nos versos e abrasiva nos refrões de som industrial, em que a dança é catarse e idiossincrasia.

Dada a verve pura, a teatralidade tangível e a inquietude em mostra, a analogia com o concerto documentado por Stop Making Sense torna-se imperativa. Não será um sacrilégio dizer que, em 2018, Byrne consegue rivalizar fortemente com esse marco de 1985, de olhar esfíngico e força insuprimível.

A noite é encerrada com duplo encore, cuja canção final é uma versão de Janelle Monáe, com Hell You Talmbout, música de protesto que glorifica os nomes de negros vitimizados pela violência policial. “Say his/her name”, ordenam as vozes em coletivo.

O público sucumbe ao ritmo, movendo os seus tubos florescentes (há coisas que todos os festivais têm). Essa mensagem poderá ter-se perdido algures na tradução, mas há algo que fica: a experiência de um concerto brilhante, cuja figura de proa, aos 66 anos, continua um mestre da performance. Que todas as utopias sejam como esta.

Fotografias de Carolina Galvão

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