Não Te Preocupes, Não Irá Longe a Pé (2018) teve pernas para chegar a um lugar bem longe do convencional. Através de uma edição tendenciosamente apressada, esta produção da Amazon Studios conta a história do controverso cartoonista John Callahan (Joaquin Phoenix), do jornal Willamette Week. Quando tinha 21 anos, o também autor do livro homónimo no qual este filme se baseia sofreu um acidente de automóvel que o deixou quadriplégico, o que não o impediu de continuar a sua arte. Porém, o álcool quase arruinou a sua vida.

A autoria de Gus Van Sant nota-se pelo estafado foco que é dado à personagem central, John Callahan, a única figura do filme com direito a dois nomes. O mesmo se tinha passado noutros trabalhos do cineasta: no drama O Bom Rebelde (1997), à volta de Will (Matt Damon), ou em Milk (2008), centrado no ativista dos direitos dos homossexuais Harvey Milk (Sean Penn). Mas convém não ignorar a honrosa tentativa de manter a fidelidade a si mesmo no que toca à representação de sentimentos humanos, presentes de forma assídua na sua filmografia.

John Callahan, em busca de perdão, junta-se a um grupo de alcoólicos anónimos, dirigido por Donnie (Jonah Hill). Lá são arranhadas, ainda que superficialmente, verdadeiras emoções, transmitidas em tom de desabafo por episódios passados, filosofias de vida e frustrações que todos sentimos. Isto tudo quase nos chega a convencer, mas o abuso na técnica de zoom não deixa ninguém crer que não estamos perante um diálogo típico de uma produção feita para ser passageira, como tantas e tantas vezes acontece em Hollywood. Que bom seria recuar no tempo…

Mas Van Sant não hesitou e é certo que o fez: este tipo de filme já foi feito e, acima de tudo, visto. Também Joaquin Phoenix se apresenta em declínio, passando cada vez mais ao lado do Oscar que sempre ambicionou (e talvez mereceu).

Em suma, este filme pouco traz de novo a não ser cartoons do protagonista que ocupam todo o ecrã e nos deixam perceber em que contexto ele trabalhava. Afinal, expor a sua expressão artística, adaptando-a ao meio transmissor, é ainda das melhores formas de demonstrar o legado de um artista.

O desenvolvimento das personagens é um dos aspetos menos trabalhados: elas vão aparecendo quase como que por acidente e, certas vezes, deixam-nos não se sabe muito bem como – talvez porque nunca pertenceram ao cerne da história. Para algumas, ainda há tempo de regressar.

Ao mesmo tempo que Joaquin Phoenix veio teletransportado de Uma História de Amor (2013), de Spike Jonze, para voltar a questionar a melancolia sobre qual o motivo da chaga, também Jonah Hill surgiu diretamente de O Lobo de Wall Street (2013). Mesmo assim, a sua loucura aqui não compensa, embora nos presenteie com uma dança hilariante que é das melhores cenas do filme.

Mas Phoenix não veio só: trouxe consigo Rooney Mara, tão confusa quanto no drama futurista de Jonze, nunca chegando a deixar perceber como a sua personagem, Annu, realmente se apaixonou pelo cartoonista e vice-versa.

Mas se o amor não tem lugar em Não Te Preocupes, Não Irá Longe a Pé, a comédia vai tendo. Surge, no meio de bebedeiras mal representadas, um certo Dexter (Jack Black), que, como do acidente de carro que provocou a paralisia a John Callahan, sai do filme ileso.

No fim, fica desvanecida a esperança alimentada a priori de ver algo como O Meu Pé Esquerdo (1989), filme em que Daniel Day-Lewis pinta quadros exuberantes com o único membro que consegue mexer: o tal pé esquerdo.

Por vezes, e como o Christy Brown de Day-Lewis, a personagem de Joaquin Phoenix entra em colapso, talvez devido à guerra emocional que trava consigo mesmo. Depois, guiando a sua cadeira de rodas supersónica, parte loucamente estrada fora até eventualmente sofrer uma queda. “Sai da frente!“, gritam os irados condutores.

No caminho, John Callahan ainda parou o trânsito. Este filme é que nem por isso.

Título original: Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot

Realização: Gus Van Sant

Argumento: Gus Van Sant

Elenco: Joaquin Phoenix, Jonah Hill, Rooney Mara, Jack Black

Género: Biografia, Comédia, Drama

Duração: 113 minutos

Não Te Preocupes, Não Irá Longe a Pé: A sobriedade de Van Sant
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