Amnésia, a primeira série inteiramente digital da RTP, produzida pela beActive Entertainment, foi licenciada para os Estados Unidos. O Espalha-Factos falou com Nuno Bernardo, responsável da produtora, para saber mais sobre a versão norte-americana da série.

Foi em outubro do ano passado que se iniciou o RTP Lab, um laboratório de produção de novos conteúdos, pensados de forma a abranger vários públicos e plataformas. Vários projetos candidataram-se, procurando fazer face à busca de novas formas de contar história em ambientes exclusivamente digitais e a RTP selecionou apenas quatro, que já foram exibidos nas suas plataformas.

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O primeiro conteúdo multiplataforma a ser revelado foi Amnésia, um thriller policial que conta a história de Joana (Ana Vilela da Costa), uma blogger de sucesso que se prepara para lançar o seu primeiro livro. Na manhã do dia do lançamento do romance, acorda com Carlos (Nuno Janeiro), o seu namorado, morto ao seu lado.

A lidar com amnésia traumática, que apagou da sua mente os acontecimentos do último ano, apenas pode contar com os inspetores Ângela (Alda Gomes) e Leonel (Marco Costa) para resolver o caso. Os 12 episódios da série vão acompanhar a luta da protagonista para provar a sua inocência.

A ajuda para decifrar a história surge de forma inesperada: é criada uma misteriosa conta de Instagram, que publica diariamente fotos e vídeos que permitem revisitar o passado do casal. Os stories revelam-se também uma ajuda essencial, contendo informações que desaparecem 24 horas depois. O caso torna-se mais claro para o espectador à medida que são lançados, diariamente, novos conteúdos nas plataformas online que complementam a série.

O conceito da série, que associa a narrativa às suas plataformas digitais, fez com que Amnésia fosse selecionada para o painel FreshTV Around the World do MIPCOM 2017 e nomeada como melhor formato multiplataforma nos C21 Format Awards do MIPTV (Marché International des Programmes de Télévision) de 2018, em Cannes, um mercado de conteúdos televisivos para coprodução, financiamento, compra e venda de formatos de entretenimento.

Os Estados Unidos também vão ter Amnésia

Depois do mérito ao nível da inovação, o produto interativo da portuguesa beActive Entertainment é reconhecido além fronteiras. Amnésia foi licenciada para uma adaptação ao mercado televisivo norte-americano à empresa Keshet Digital Studios.

A adaptação será também estendida ao mercado canadiano e resulta de um acordo estabelecido entre a produtora portuguesa com a divisão digital da Keshet International. Entre as produções da empresa norte-americana destaca-se a série israelita Prisoners of War, que foi adaptada para os Estados Unidos como Homeland (em Portugal, Segurança Nacional), aclamada série policial protagonizada por Claire Danes.

Episode 403

‘Homeland’ é a adaptação americana de uma das produções de sucesso da empresa que adquiriu ‘Amnésia’

No entanto, a beActive não é estreante neste mundo das licenças. Esta é já a terceira série da produtora a ser vendida para os EUA, juntamente com O Diário de Sofia (da RTP) em 2006 e Beat Girl (da SIC Radical) em 2013.

Em entrevista ao Espalha-FactosNuno Bernardo, responsável pela beActive Entertainment, refere que “é sempre bom quando somos reconhecidos em Portugal, mas também a nível internacional. Significa que aquilo que fazemos encontra uma audiência e capta a atenção de profissionais do setor.”

Para Nuno, a produtora está “no caminho certo“, uma vez que o resultado “enriquecedor” das suas produções ultrapassa as dificuldades que produzir filmes e séries acarreta. Produzida a “título experimental” para o projeto RTP LabAmnésia é exemplo disso mesmo. A produção tem como objetivo máximo a exploração de “novas formas de contar histórias“, tentando “usar uma ferramenta que é extremamente popular – que é o Instagram” e contar uma história que transcende o tradicional modo de storytelling.

Amnésia

O conceito: fugacidade e uma realidade fingida

Aquilo que nós fizemos foi tentar usar uma ferramenta popular e contar uma história que estivesse em linha com as características do Instastories.” É este, segundo Nuno Bernardo, também criador da série, o mote principal de Amnésia. Dando uso à particularidade da área mais utilizada do Instagram, esta nova forma de apresentar partes de uma história vai de encontro à temática da própria série – a amnésia e a fugacidade com que os conteúdos desaparecem nesta ferramenta.

Mas o conceito da produção vai além de uma simples forma diferente de trazer à luz um thriller policial. “Acima de tudo, é uma analogia com o que são as redes sociais hoje em dia. Aquilo que encontramos no Instagram de Amnésia são imagens soltas, colocadas em determinada ordem e que, pela sua edição, levam o espectador a pensar algo que muitas vezes não é.

Funciona, por isso, como um espelho da realidade atual, levantando a discussão sobre a veracidade daquilo que vemos na Internet e a forma como pode mudar toda a perceção sobre um caso como o de Joana.

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O ponto de partida do enredo da série – centrado unicamente na temática da amnésia – desenvolveu-se para um formato diferente, impulsionado pelo projeto RTP Lab, cujo braço é considerado por Nuno essencial para esta nova forma de contar histórias. Sendo a beActive pioneira no modo interativo de contar histórias em Portugal (e também a nível internacional), o surgimento deste apoio do projeto da estação pública revela-se importante, na medida em que é uma “incubadora de projetos que querem ser experimentais e foi fundamental para que este projeto pudesse crescer.”

O objetivo desse mesmo enredo passa por alterar a forma como os conteúdos são apresentados nas produções televisivas regulares, aproveitando para jogar com a temática e o conceito inovadores. “Se fosse uma série normal, teríamos flashbacks. Em Amnésia não temos os flashbacks tradicionais, mas sim estas imagens que surgem na rede social. Foi este o conceito sobre o qual desenvolvemos todo o projeto: se em vez de o fazermos de forma tradicional, usarmos as novas plataformas.

Temos de nos adaptar”

Tendo em conta as mudanças no audiovisual, a nível de temas, formatos e formas de distribuição, a produção deste tipo de formatos deve seguir essas mesmas alterações. “Se nós não acompanhamos essa mudança e não adaptamos o tipo de histórias que escrevemos e produzimos e como o fazemos, o desfasamento vai ser cada vez maior.”

Mesmo o público nacional estando ainda habituado aos formatos tradicionais de contar histórias (sendo o exemplo máximo o contínuo sucesso das telenovelas), “se olharmos para as audiências em Portugal, percebemos que o cabo, que os serviços como a Netflix, uma determinada forma de contar histórias tem crescido de forma exponencial em Portugal. […] É essencial que haja espaço para mudarmos aquilo que fazemos,” embora, na sua opinião, ainda se produza pouco face ao que lá fora é comum.

Os espectadores não rejeitam o que é produto nacional. Como há muito pouco produto, espera-se que todos os produtos portugueses tenham muito sucesso – e é impossível. Enquanto os americanos produzem milhares se séries por ano, aqui produzem-se 20 ou 30É preciso produzir muito, errar muito,” para que se abandone a perceção de que os portugueses rejeitam aquilo que é nacional, que Nuno afirma nunca ter sentido na realidade. “É importante as plataformas explorarem cada vez mais cada vez mais novos caminhos de contar histórias, caminhos esses que os espectadores já adotaram – nós é que temos de fazer o esforço para nos adaptarmos.”

Novidades sobre a versão norte-americana

Apesar de ainda não se saberem todos os pormenores sobre a adaptação de Amnésia para os mercados dos Estados Unidos e do Canadá, os trabalhos para a nova versão já decorrem, com a consulta constante da produtora portuguesa e dos criadores do original nacional. Neste momento, os responsáveis da beActive Entertainment estão a discutir com a equipa da Keshet Studios a “melhor forma de levar a série até aos Estados Unidos.”

Nuno Bernardo adiantou em primeira mão ao Espalha-Factos alguns pormenores sobre a adaptação da série. Uma das principais mudanças será a idade da personagem principal, que vai ser bastante mais jovem do que a Joana original. Enquanto em Amnésia teria perto de 30 anos, na versão americana será uma estudante universitária.

O enredo vai contar, também, com a adição de novas personagens para além das já conhecidas nos 12 capítulos, que vão ajudar a alongar a história e a dar-lhe um novo desfecho: “em Portugal a história é fechada, foi apenas pensada para ter uma temporada; vamos alterar o final de forma a que não seja definitivo e dê espaço a mais temporadas.”

Além disso, “não vai ser uma adaptação direta. Os americanos fazem muito isso – pegar na série e alterar para o que pensam ser o gosto americano. Ainda estamos nessa fase de adaptação [do enredo]”. Ainda não estão escolhidos os atores que vão interpretar as novas versões dos personagens.

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Em Portugal, Amnésia está disponível para ver e rever na RTP Play, no Youtube e para acompanhar através das antigas publicações do Instagram. Em breve, chega ao território norte-americano para uma versão à Hollywood. Afinal de contas, será a Joana inocente?