Num dia marcado pela chuva, os The Killers salvaram a noite do terceiro dia do Rock in Rio Lisboa. Manel Cruz pregou aos seus fiéis, enquanto que os James superaram os problemas técnicos. Os Xutos e Pontapés prestaram homenagem ao falecido Zé Pedro.

Já estamos em pleno gás da época do verão, mas a temperatura que se faz sentir no Parque da Bela Vista até parece que estamos numa outra altura do ano. O terceiro dia do Rock In Rio Lisboa começou de forma mais tranquila dos que outros. O facto de ser sexta-feira, dia de trabalho para muitos, e o tempo não ser muito convidativo talvez sejam razões para a pouca afluência nas primeiras horas do evento.

No entanto, o Espalha-Factos conseguiu encontrar um autêntico peregrino. O que o move? Os Xutos e Pontapés. João Rodrigues, de 49 anos, segue a banda de forma religiosa há 18 anos. Traz consigo uma bandeira que diz: “Almada está com os Xutos”.

Confessou-nos que, apesar dos anos a acompanhar a banda portuguesa, é a primeira vez que vem ao Rock in Rio para assistir um concerto e falta-lhe as palavras para classificar o momento. “Não dá para explicar. É um amor que sinto por eles. Ainda agora estive nos Açores [três dias antes do Rock in Rio, os Xutos e Pontapés atuaram na ilha Terceira por ocasião do Sanjoaninas] e venho de próposito vê-los”.

De forma bem disposta, o fã João Rodrigues afirma ter presenciado mais de 100 concertos do grupo de rock. Desafiado a escolher o mais memorável, o mesmo considera ser uma missão impossível. “Não consigo mesmo escolher apenas um. São todos especiais  e é isso que torna os Xutos e Pontapés especiais. Para além disso, tratam os fãs de forma única”.

“Não é teu. São lágrimas do céu”

Já perto das 17 horas, o Parque da Bela Vista recebeu um convidado que poucos festivaleiros esperavam: a chuva. Começou a cair de forma intensa e a moldura humana ganhou, a pouco e pouco, cor com capas de plásticos para que as pessoas da Cidade do Rock pudessem aproveitar o festival ao máximo

Quando Manel Cruz entrou no palco do Music Valley, tinha à sua frente pouco público devido às condições que se sentiam nessa tarde. Mas os que estavam, vibraram com cada segundo da sua atuação.

O músico português é, provavelmente, uma das maiores figuras de culto musical. Desde Ornatos Violeta, Pluto e Foge Foge Bandido, Manel Cruz é um poço de criatividade sem fim. Em setembro, lança o seu primeiro registo em nome próprio.

Comunicativo q.b. mas com boa disposição para as centenas de pessoas que estavam no público. A dada altura, mesmo com chuva a cair a potes, Manel Cruz tirou a camisola e cantou em tronco nu. Um concerto de culto para os fãs de longa data da sua música.

James inglórios

A chuva não arredava pé no Parque da Bela Vista. No Palco Mundo, os veteranos James começaram o seu alinhamento com problemas técnicos ao nível do som. As colunas emitiam um zumbido ensurdecedor que impossibilitava ouvir com clareza a banda britânica.

O vocalista Tim Booth cantava em plenos pulmões mas o som não permitia que o ouvíssemos. A situação lá melhora e é tempo do músico fazer uma confissão à plateia: “Obrigado por estarem perto do palco. Tocámos cá uma vez que mal começou a chover as pessoas fugiram” disse rindo-se. É verdade que já perdemos o número de vezes que os James tocaram em Portugal, mas o coletivo inglês propociona sempre bons momentos onde quer que passam

“Por causa da chuva, tivemos que mudar a ordem da setlist para vos pôr a dançar”. Sem mais delongas, ouve-se Sit Down para rejubilo do público. Born of Frustation continou o clima de união com Tim Booth a descer do palco para estar junto dos fãs. O vocalista anda no meio da multidão e depois termina com, provavelmente, a melhor mensagem inspiradora desta edição deste Rock in Rio Lisboa.

“Vocês estão preocupados a guardar memórias para o futuro em vez de aproveitar o momento. Quero ver as vossas as caras e não a marca do vosso smartphone. Eu quero olhar para os vossos olhos e ver a vossa alma. É isso que importa em alturas destas”.

Saul Davies tocou o trompete equipado com uma camisola da seleção portuguesa. No verso, lia-se “James 7”. Getting Away With It teve direito a um crowdsurf prolongado por parte do vocalista, Há poucos vocalistas que conseguem fazê-lo de forma tão sublime.

Uma hora de concerto é ingrato para uma banda com uma carreira longa como os James. A entrega da banda foi de 101% mas os problemas técnicos mancharam a atuação o que podia ter sido um momento agradável. Em Laid, tema derradeiro do alinhamento, as condições acústicas estavam num estado lastimável que obrigaram Tim Booth a pedir à banda para começar do início.

Xutos numa chuva dissolvente e The Killers apoteóticos

Presença constante desde a primeira edição do Rock in Rio Lisboa, os Xutos e Pontapés são, à falta de melhor palavra, uma instituição da música rock em Portugal. Digo isto, porque a banda foi brindada com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-Ministro, António Costa, e o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina.

À Minha Maneira deu início ao clima de homenagem que se viveu durante a oitava presença da banda portuguesa no Palco Mundo. prolongada a Zé Pedro, falecido músico. Chuva Dissolvente foi talvez a música mais apropriada para se ouvir neste final de tarde.

Num tom melancólico, os Xutos e Pontapés tocavam cada música num claro tom de amargura, devido à difícil perda do seu colega e amigo de longa data. Já na reta final, Casinha teve direito a ser cantada com um coro recheado de figuras públicas, entre elas o Presidente da República.

The Killers vieram, viram e venceram. A chuva deu tréguas durante a atuação do grupo vindo de Las Vegas. A estética glamorosa e aprimorada da banda de Brandon Flowers e companhia propocionou um concerto enérgico do princípio ao fim.

No início, ouviu-se Somebody Told Me, Spaceman e The Way It Is com um público rendido desde a primeira nota de guitarra. As câmaras do festival chegam a apanhar algumas fãs mais sensíveis que chegam mesmo a chorar de alegria por estarem a presenciar este espetáculo.

Sempre sorridente, Brandon Flowers canta e encanta o público presente no Parque da Bela Vista. Com mais de 15 anos de carreira, é apenas o terceiro concerto em solo português. O vocalista esforça-se para falar em português e os fãs agradecem. Runaways eleva os corações ao alto e All These That I’ve Done e When You Were Young mantém o clima efervescente e encerram o alinhamento antes do encore.

Deixadas sabiamente para o fim, Human e Mr Brightside são recebidas de braços abertos e faz com que os The Killers sejam os heróis improváveis deste terceiro dia.

A festa continua

Já com os concertos findados, as festividades continuaram pela madrugada fora no Rock in Rio Lisboa com electrónica dos veteranos Chemical Brothers e do outro lado do recinto, o Revenge of the 90s celebrou a cultura pop dessa década.

O último dia do festival do Parque da Bela Vista termina com Katy Perry como principal cabeça de cartaz.

Fotografias de Beatriz Silva e fotografia de destaque gentilmente cedida pela organização do Rock in Rio Lisboa