Uma das atrizes mais requisitadas da atualidade, aos 20 anos Elle Fanning já leva uma carreira diversificada e sob alçada de renomados realizadores. Quer estejamos a falar dos seus papéis em Somewhere – Algures (2010) ou O Estranho que Nós Amamos (2017) de Sofia Coppola, no chocante The Neon Demon – O Demónio de Néon (2016) de Nicolas Winding Refn, ou ainda nas suas participações no malfadado Viver na Noite (2016) de Ben Affleck e no blockbuster mundial da Disney Maléfica (2014), é inquestionável a visibilidade da jovem Fanning na indústria, e a promessa que representa para uma geração. Por ocasião dos 200 anos da publicação de Frankenstein, chega agora aos cinemas um drama biográfico focado na juventude da sua autora, realizado pela cineasta saudita Haifaa Al-Mansour (O Sonho de Wadjda, 2012), e figurando Fanning no papel principal.

Mary Shelley conta a história de Mary Wollstonecraft Godwin (Fanning) e da sua intensa e tempestuosa relação com o poeta romântico Percy Bysshe Shelley (Douglas Booth). Marginais em espírito, de ideias progressistas para lá do opressivo séc. XIX na Inglaterra, Mary e Percy apaixonam-se e, para horror das famílias de ambos, decidem fugir juntos, juntamente com Claire (Bel Powley), a meia-irmã de Mary. Durante uma tensa estadia na casa de Lord Byron (Tom Sturridge) no Lago Genebra, a ideia para a criação de Frankenstein toma forma na escrita de Mary. Porém, a sociedade da época não está ainda preparada para aceitar e reconhecer o valor da escrita da mulher, e, apenas com 18 anos, Mary é forçada a confrontar-se com o preconceito, para proteger a sua obra e forjar a sua própria identidade.

mary shelley

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Enquanto biopic, as intenções do filme de Al-Mansour são nobres: Mary Shelley tece uma narrativa real já com dois séculos, mas cuja força primária ainda encontra expressão. Contudo, a realizadora encontra a sensibilidade escondida nos eventos representados, tecendo um retrato onde as emoções raramente se apresentam gratuitas. Não obstante, Mary Shelley tantas vezes se volve um filme inconstante: quer estejamos a falar do ritmo lento da sua primeira metade, quer da progressão por vezes brusca de determinados eventos, nem sempre a fita se apresenta completamente coesa.

O tom e estilo da realização, ainda que não totalmente académicos, pecam por falta de arrojo, algo que acaba por ser corrigido já na segunda parte, muito por força do argumento de Emma Jensen, que coloca Mary na fase mais determinante do fim da sua adolescência. Nesta época, marcada pelo sofrimento de Mary e da sua vivência na instabilidade do lar de Lord Byron, é notória a quebra com o início mais convencional do filme, onde idealismos e paixões são apresentados como meros instrumentos narrativos a marcar caminho para o coração do drama biográfico.

No centro de tudo, Fanning é absolutamente estonteante no papel da pioneira autora. A inocência e vulnerabilidade vacilam perante a força e espírito indómito de Mary, e Fanning permite-se a habitar por completo a personagem, numa construção determinada e plena de entrega, em que os seus olhos falam todo um mundo sem esta ter que dizê-lo. É difícil apontar esta como a melhor interpretação da atriz até à data, numa curta carreira que já lhe rendeu tantos papéis memoráveis e fortes em complexidade, mas estaríamos a mentir se disséssemos que Fanning é menos que soberba na pele da autora de Frankenstein. Uma interpretação plena de maturidade, de coragem além da idade, qual a personagem, que eleva Mary Shelley acima das suas falhas e que traz fulgor a uma realização nem sempre consistente.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Uma mulher que fez frente às adversidades e deu ao mundo uma personagem incrível, cujo legado ainda hoje se impõe sobre a cultura popular, Mary Shelley tem aqui uma narrativa das suas vivências que nem sempre vive à altura da reverência que lhe é devida. Contudo, a intenção está lá, e a mágoa a dar lugar à obscura criação ganha vida na obra de Al-Mansour, um reconto visualmente orgulhoso e ancorado numa performance irrepreensível por parte de uma intérprete em pleno estado de graça.

A História nem sempre se permite a grandes histórias, mas Fanning está cada vez mais determinada em deixar a sua marca nela. É inegável.

 

6/10

Título original: Mary Shelley
Realização: Haifaa Al-Mansour
Argumento: Emma Jensen, Haifaa Al-Mansour
Elenco: Elle Fanning, Douglas Booth, Bel Powley, Tom Sturridge, Stephen Dillane, Maisie Williams, Joanne Froggatt, Ben Hardy, Ciara Charteris
Género: Biográfico, Drama, Romance
Duração: 120 minutos