Algo manteve os Gorillaz afastados dos discos, embora sempre perto do coração. Depois do lançamento aguardado de Humanz, em 2017, chega-nos The Now Now de certo modo inesperado. Pouco de novo há a dizer sobre esta banda que não tenha já sido dito para glorificar o seu contributo na música. Provavelmente é da constante renovação, do facto de nunca caírem na armadilha de criar dentro dos mesmos moldes.

O que eleva os Gorillaz ao pedestal onde estão?

Damon Albarn, um dos génios por detrás da máquina, não é um desconhecido para ninguém. Claro está que os Gorillaz, o seu maior projeto em co-autoria com Jamie Hewlett, são o verdadeiro outlet criativo. Embora aclamado, Humanz acabou por se afundar demasiado nas excessivas colaborações dentro do disco. Já The Now Now aterra nos nossos ouvidos de uma forma sóbria e surpreendente.

Este sexto disco dos britânicos surgiu espontaneamente durante a tour do álbum passado e emerge da realidade política que vivemos. A ideia do coletivo que os Gorillaz são realmente é reforçada pela música que vêm fazendo. Além disso, Humility consegue abrir perfeitamente o disco ao sugerir essa ideia. É um tema divertido, que irradia energia e é provavelmente do melhor que eles lançaram. Ah, isto sem referir a brilhante participação de George Benson.

A panóplia de géneros musicais enleva grandemente o valor deste projeto que, desde o início do século, tem vindo a deliciar os melómanos. Há eletrónica pulsante saída dos anos 80 em Tranz, que puxa os limites do synth pop praticado pelos Gorillaz. Aqui a produção de James Ford (que produziu para os Arctic Monkeys e Depeche Mode) é denunciada. Para estorvar, Hollywood quebra com a participação de Jamie Principle e o contributo (forçado) de Snoop Dogg, nunca mostrando grande relevância.

Quem são os Gorillaz 20 anos depois?

The Now Now tem tudo o que um álbum de verão necessita, no entanto é nos momentos mais crus que brilha. Faixas como Magic City, Kansas e Sorcererz assentam em batidas agitadas apesar de fundidas na melancolia da voz de Albarn. Afinal… recordam-se do Plastic Beach?

Tudo existe na banca dos Gorillaz: desde músicas mais saudosas a autênticos hinos da pista de dança. Lake Zurich acaba por ser um dos pontos altos do disco, não sabendo bem se é por ser distinta de tudo o resto ou por fazer dançar involuntariamente.

Podemos caracterizar The Now Now como a catarse de tudo o que aconteceu em Humanz, que marcou o regresso da mais famosa banda cartoon do planeta. É esse poder de reflexão neste álbum que faz com que tudo aparente ser mais calmo e comedido. Para corroborar, Idaho confirma a gradação deste sentimento ao direcionar-se soturnamente para o fim do disco.

Música para solitários e humanos de carne e osso

É notável a forma como Damon Albarn se apodera deste sexto disco, ao contrário do último. O homem que dá voz a 2D é o centro das atenções e a mágoa na sua voz traz-nos de volta à Terra. A dor de envelhecer, de estarmos todos mais sós, é impulsionada por Fire Flies. A alma de Damon é, de facto, um lugar recôndito.

Denota-se um apagão na segunda parte de The Now Now, mas porquê pedir mais “Clint Eastwoods” a um mundo que já sofreu tantas metamorfoses? One Percent é o interlúdio spacey que lembra Busted and Blue e nos conduz à última paragem: Souk Eye. Falem em finais felizes e vos direi que ele chega bem no fim do disco, quando a quietação voa e dá lugar a um ritmo hipnótico. Claramente influenciada pelo background do músico britânico, é o auge experimental de The Now Now.

A liberdade criativa de Damon Albarn atrás da máscara

Quem espera mais hip-hop que Humanz teve, pode sair pela porta pequena. Quem anseia por mais música semelhante à de Demon Days, pode esconder o entusiasmo. Eles surgiram no fim dos anos 90 como um fogo fulminante que iria mudar a forma como se faz música para sempre e não é isso que retira a relevância dos Gorillaz em 2018.

Hoje em dia, o mundo é um sítio estranho para se acordar. Não há quem possa ignorá-lo. O que um dia eram cartoons afastados da nossa realidade, hoje são humanos que padecem dos mesmos males que nós.

No fim do dia, aguardamos sempre mais um momento de evasão como os que os Gorillaz nos têm proporcionado. The Now Now espelha o desnorteio e o escapar da realidade, apenas com menos fogo de artifício e mais pés no chão.