O nome Luís Severo, à primeira vista, pode não lhe dizer nada, mas o que é certo é que o jovem português é um dos artistas em ascensão no panorama da música nacional. Mesmo só tendo 25 anos, Luís é um músico com muitas “andanças”. Desde muito novo começou a compor música, de forma autónoma, sob o nome de Cão da Morte, onde usava as redes sociais para partilhar as suas canções. Vieram depois os tempos académicos onde amadureceu os seus objetivos e pensamentos, enquanto artista e ser humano. Já passou pelos grandes palcos nacionais, mais recentemente pelo Coliseu dos Recreios, e não tenciona ficar por aqui.

Em 2016, após o seu primeiro álbum, Cara D’Anjo, Luís Severo mudou-se para Alvalade, para o estúdio da Cuca Monga. Já neste estúdio gravou o seu segundo álbum, o homónimo Luís Severo, considerado o melhor álbum português de 2017 para os leitores da BLITZ e um dos melhores para a equipa do Espalha-Factos.

Os singles Escola e Boa Companhia ecoaram diariamente pelas rádios nacionais e por salas lotadas. No final de 2017, voltou a um formato mais intimista, juntando voz e piano no Vodafone Mexefest e no Festival Para Gente Sentada, concertos esses que gravou para editar o Pianinho, álbum oferecido ao público no dia de Natal. Já no início deste ano, voou para uma residência artística em São Miguel, onde começou a preparar canções para o futuro.

Numa conversa descontraída, sentámo-nos à mesa, entre vários risos e boa disposição. Falou-se sobre o passado, o presente e o futuro, tanto na música como na vida.

Foram várias as fases por que passou. Primeiro, fez música de forma impulsiva. Depois, veio o primeiro disco, algo “mais pop e mais experimental”, como descreveu à revista Blitz. Por fim, o segundo disco, homónimo, um álbum mais ponderado e mais maduro musicalmente. Apesar dos registos diferentes, como se define como artista?

Quando fazemos isto, especialmente sendo um artista a solo, a evolução é algo que leva mais tempo do que se fosse uma banda. As bandas costumam ser coisas mais imediatas e chegam lá mais rápido e, se calhar, devido a isso não têm uma vida tão longa. No meu caso, a evolução vai acontecendo aos poucos e vou encontrando a minha identidade naturalmente. Portanto, é normal que a cada disco tente caminhar para um sítio mais “meu”. Neste momento, não consigo bem apontar “eu sou isto, eu sou aquilo”. Neste novo disco, que estou a gravar, sinto que já dou outro passo para o sítio que sei que é mais pessoal. Essa ideia de “o que é teu é algo que à partida já sabes”, é um bocado falsa, tens de te encontrar. Comigo não foi algo automático.

Simplesmente surgiu, certo?

Sim, mas no sentido de ter estado muitos anos a fazer música sem consciência, em que não pensava, apenas fazia. Hoje em dia, também volto a pensar: “Ok, há sete anos fazia isto assim e hoje pode ser um bocado diferente, mas tinha ideias boas e claras”.

Nos primeiros anos da carreira, usava o MySpace para partilhar as músicas. Com certeza que, hoje em dia, as redes sociais ajudam a divulgar os artistas e os seus projetos. É algo positivo para a música? Ou quantidade não é sinónimo de qualidade?

Acho que a quantidade, de um ponto de vista macro, vai sempre ter mais qualidade. Quanto mais produzem, mais coisas boas aparecem. Já sou filho desse tempo, portanto, era errado estar contra o uso das redes sociais, uma vez que, também me ajudaram no passado. Sou do tempo em que com 50 euros comprávamos uma placa de som e um microfone e começávamos a fazer música. Acho mesmo bom a música ser mais acessível. Não vejo como algo mau o facto de, hoje em dia, haver mais música a ser produzida em estúdios e a ser mais acessível para todos, seja para quem ouve ou para quem produz.

É licenciado em Sociologia, mas agora faz da música a sua profissão. O que correu “mal” nesse processo?

Se exercesse na área da Sociologia, obviamente, que faria a parte mais de investigação, uma vez que é o lado mais académico da área. Portanto, dentro de mim tenho um pequeno académico chato (risos). Mas é muito difícil ter um trabalho assim, há muitos bons profissionais na área e eu, sinceramente, acho que nunca me empenhei o suficiente para ser tão bom como essas pessoas.

De que ponto é que a licenciatura em Sociologia e a formação académica têm influência no artista que é? Essa visão mais “critica” sobre a sociedade ajuda no processo criativo?

O que a Sociologia me ensinou foi a fazer a distinção entre opiniões e factos. A ser mais humilde, uma vez que não posso tomar a realidade como garantida. Influenciou-me em método, mais até do que em conteúdo, porque me ensinou a metodizar e organizar tudo o que faço. Mas, atenção, não faço músicas sobre o que é ser sociólogo (risos).

Por exemplo, no último álbum, refere “Lisboa como uma cidade massificada e cansativa”. Podia usar os conhecimentos que a Sociologia deu para “criticar” esses acontecimentos…

Não, porque isso não é sociologia. Entrar a pé juntos a mandar bocas à sociedade não é sociologia, mas sim ler as coisas e basicamente compararmos com o que nos rodeia. É a ciência social mais “humilde”, vá… Mais humilde, no sentido em que para fazermos sociologia temos de ler imensas opiniões, para não voltarmos a repetir a mesma ideia. Para dizermos o que achamos temos de ler e saber o que muito sociólogos disseram. Não há opiniões de graça.

Como é que se consegue viver da música em Portugal?

A vida que as pessoas mais jovens levam faz com que a música seja algo aliciante. Há uns anos, os meus pais diziam: “Devias de ir para uma coisa mais certa”. Mas, hoje em dia, o que é que há certo?

Não há nada certo…

Infelizmente, estamos num ponto em que, se calhar, até tenho mais estabilidade do que uma pessoa com um contrato a dois meses. Por exemplo, já tenho concertos agendados para daqui a seis meses. Assim, acabo por ter mais alguma estabilidade do que alguém que não sabe se no fim deste mês lhe vão continuar a dar emprego. Alguns colegas, que estavam comigo na faculdade, têm uma vida mais instável que eu, portanto… Não é fácil. Tenho tido a sorte das coisas terem corrido bem. As pessoas ouvem a minha música e compram os meus álbuns. É disso que vivo, das pessoas que vão lá e compram e que ouvem.

Atualmente, depois da vitória do Salvador Sobral na Eurovisão, a música portuguesa atravessa um período de prosperidade. Será esta uma “geração de ouro” ou apenas um momento transitivo que beneficiou de uma união feliz de vários fatores?

A vitória do Salvador Sobral, foi um momento lindo, mas o que isso significou na minha vida foi uma noite de copos com pessoas lá em casa a festejar cada 12 pontos como se fosse um golo. Acho que a música dele é ótima, ele é um artista fantástico, que não podia ter ganho outra pessoa, mas será que isso vai realmente mudar alguma coisa? Não sei. Sempre vi música boa a acontecer, não é uma novidade para mim. Aliás, a música cá tem uma coisa boa: há muitos pequenos públicos e hoje é quase impossível uma banda começar e não ter público. Esses pequenos nichos vão dando para tudo, há muita gente que segue e conhece essas bandas. Para muita gente, o que aconteceu quando o Salvador Sobral ganhou, não foi uma novidade porque já sabiam que a música portuguesa tem qualidade.

Falando do último trabalho, teve uma crítica bastante positiva. O álbum Luís Severo chegou a ser considerado o melhor disco português de 2017 para os leitores da BLITZ e foi muito bem-recebido pelo público. Tendo em conta estes feitos pode dizer-se que foi o seu álbum de confirmação?

Sim, tive a consciência de que era um disco que dava mais um passo em frente. O segundo disco de um músico, ou é o da confirmação ou o do “afinal este gajo não vale nada”.

A fasquia ficou mais elevada, há mais pressão na elaboração do próximo?

Dizem-me sempre isso. Eu sei lá (risos).

E como é que lida com isso?

A fasquia existia e existe sempre, mesmo até para uma banda que está a começar. Temos de ter padrões elevados para fazer boa música.

Gravou o último álbum pela produtora Cuca Monga, formada exclusivamente por amigos e músicos portugueses. O facto de puder gravar num espaço à vontade e rodeado de pessoas que gosta facilita o processo criativo?

Sim, claro que o estúdio foi importante, mas mais do que o estúdio foram mesmo as pessoas. Foi o facto de ter conhecido pessoas que têm o método de fazer música completamente diferente. Por exemplo, a forma como os Capitão Fausto compõem é uma cena incrível, nunca tinha visto, não tem nada a ver com o meu mundo. Até a forma como eles falam sobre música tem um conhecimento que não tenho. Ou seja, ensinou-me muita coisa, mais do que ficar fechado num estúdio sozinho. O contacto com as pessoas foi o que me ensinou mais e foi o que me mudou mais.

Recentemente tirou um tempo para compor e gravar no seu retiro musical, em São Miguel. Qual a necessidade de procurar ou ter esses retiros? Já os Capitão Fausto o fizeram para gravar dois dos seus três álbuns. A inspiração reside aí?

Depende muito dos músicos. Sei de pessoas que se dão bem na confusão da cidade, mas eu não. Gosto de me isolar e de ir para novos ambientes, voltar para a casa dos meus pais, ir para a casa dos meus avós, ir para sítios com os quais tenho uma identificação e tentar compor em muitos sítios. Neste próximo disco, tenho estado a compor em vários sítios e por causa disso tenho inspirações diferentes.

O álbum Luís Severo abordava maioritariamente temas como o amor e uma cidade massificada e cansativa. Referia-se a Lisboa. Agora que foi gravar para fora, sem a pressão citadina podemos esperar um álbum muito diferente?

Acho que sim. Não quero dar muito um “spoil”, mas acho que sim. Quando faço um disco novo, tento sempre que ele vá contra o anterior, e fazer uma coisa diferente. Portanto, neste sentido, este disco também tem intenção de se afastar do último. Quando digo afastado é de tudo, letras, acordes, do método em estúdio…

Então, por exemplo, agora foi para São Miguel, para a casa dos seus pais. Imagine que no quarto álbum em vez de ir para São Miguel vai, de propósito, para a Madeira. Ao mudar de sítios também vai ter ideias diferentes ou acha que ia ser igual?

Depende. Este novo disco tem estado a absorver muito os sítios com que me identifico, mas não sei, também não estou a pensar já num outro disco, senão dava em louco (risos). É muito difícil irmos pensando sempre no que aí vem. Claro que há uma questão, a cada novo disco, questionamo-nos: o que é que ainda tenho a dizer? O que é que ainda tenho a cantar?

Depois, é muito chato quando começamos a compor um novo disco e, pelo menos comigo, há tempos em que ficamos com uma interrogação: “Será que já não sei? Nunca mais vou compor?”. É algo que leva tempo e é inconstante, imagina, posso ter quatro, cinco meses que não faço uma canção e depois tenho uma semana em que faço cinco. A média deve ser uma por mês.

Por quê cantar em português?

Nunca foi uma escolha. Nunca pus outra possibilidade. Por exemplo, não acho que falo mal inglês, até tinha notas aceitáveis na escola, mas pessoalmente acho que não faz sentido cantar numa língua em que não penso. Não penso em inglês. Nesse sentido, acho que não me ia fazer entender tão bem.

Visto que toca guitarra e piano surge a questão: produz tanto a parte lírica como a parte instrumental dos álbuns?

Da composição da canção, sim. Depois, nos arranjos, tenho sempre ajuda. Mas a música do ponto de vista harmónico e melódico já está toda lá, apenas é preciso arranjá-la, enriquecê-la e vesti-la. Nesse aspeto tenho tido sempre ajuda, apesar de muitas também ser eu que faço essa parte.

Devido a essa versatilidade torna-se mais fácil…

Neste momento, estou numa fase em que sinto ser capaz de fazer tudo sem ajuda. Ou seja, no fundo sempre que metemos uma pessoa nova não estamos só a aceitar a competência dela, mas também a sua identidade. Se quiser fazer um disco mais meu, não estou a dizer que é já o próximo, faz sentido ser eu a fazer tudo porque, ao adicionar outra pessoa, vou ser sempre influenciado.

A adição de pessoas muda muita coisa, claro que isso é bom e já vivenciei isso algumas vezes. Por exemplo, tive muitos anos a fazer música com Filipe Sambado. Na nossa relação, não só eu o ajudava a fazer a música dele, como ele também me ajudava a mim. De facto, senti que, a dada altura, era importante afastar-nos, não porque nos déssemos mal, mas pelo facto de estarmos a ficar muito iguais. Já o conhecia muito bem e ele a mim. Sabíamos para onde íamos. Já tínhamos muitos métodos juntos e, para mim, fez sentido ir fazer um disco com pessoas que não conhecia muito bem, para tomar um rumo diferente. 

Se pudesse escolher um instrumento favorito conseguia?

Voltei um bocadinho à guitarra, mas também tenho estado a tocar piano. Tive mais a fase do piano também porque estive a tocar muito e, de facto, aprendi a tocar melhor. Atualmente, acontece o mesmo com a guitarra, tenho estado mais focado nesse instrumento. Neste momento, tenho sete músicas novas, quatro são com guitarra e três com piano.

Para terminar, já há uma data para o lançamento do novo álbum?

Não (risos). Mas pronto, é para o ano. No primeiro semestre do próximo ano, se tudo correr bem e claro que vai correr tudo bem.

Fotografias de Beatriz Casa Branca