Hereditário, novo filme de terror sensação chega finalmente às salas portuguesas depois de ter conquistado a crítica internacional desde a sua estreia no Festival de Sundance. O novo filme de Ari Aster tem feito o furor mundo fora e agora percebemos porquê, ele dá-nos um murro no estômago e deixa-nos atónitos quando deixamos a sala escura.

Após a morte da avó, a família Graham começa a desvendar segredos do seu passado. Mesmo após a partida da matriarca, ela permanece como se fosse um sombra sobre a família, especialmente sobre a solitária neta, Charlie, por quem ela sempre manteve uma fascinação pouco usual. Com um crescente terror a assombrar a casa, a família explora lugares cada vez mais escuros para escapar do infeliz destino que herdaram.

Foto – Divulgação

Por incrível que pareça esta é a primeira longa-metragem do nova-iorquino Ari Aster, responsável pela realização e argumento de Hereditário. Nesta sua primeira longa o realizador consegue quase o impossível: não só nos entrega um dos mais consolidados filmes do género em anos, como uma das experiências mais fortes do cinema de 2018.

Tudo em Hereditário resulta. Dos atores ao argumento, da fotografia à caracterização das personagens. Ari Aster realizar a sua primeira longa-metragem com um pulso de ferro, tudo calculado ao mais ínfimo pormenor, não para que pareça robótico, mas para que tudo possa ajudar na criação do desconforto que se sente desde o primeiro segundo da película. É por este calculismo de Aster que não existem pontas soltas neste filme. Tudo tem propósito e nada aparece por acaso.

Hereditário é, além de uma forte obra cinematográfico de género, um grande produto de marketing. A própria promoção, e bem sei que nos estamos a desviar aqui um pouco, complementa de uma forma brilhante o resultado que vemos em sala, pela sua gestão de expectativas. Tanto o filme nos seus minutos iniciais, como a forma como ele se promove, indica o espetador para um subgénero bem específico dentro do cinema de terror, mas o que temos no final é uma manta de retalhos, uma aglutinação de vários subgéneros. O filme acaba, por isso mesmo, por extravasar para além das estruturas, evitar alguns clichés, ou a usá-los de renovadas formas.

Foto – Divulgação

Além de tudo isto, contamos com um elenco que se entrega por completo ao argumento de Aster, e ainda bem que assim o é. Hereditário é um filme que pede tudo ao seu ator, entrega completa. E assim este elenco o fez, principalmente quando temos Toni Collette na dianteira a carregar com o peso de Annie Graham. Esta é uma mãe atormentada, uma mulher com tantas tonalidades diferentes que demonstra também o brilhantismo na construção das personagens.  Conseguimos criar empatia com qualquer uma daqueles seres que se passeiam pelo ecrã, por mais doentio que isso seja.

A banda-sonora, a sonoplastia e a montagem completam depois de uma forma perfeita o arco que o realizador vai criando a partir do argumento, tornando Hereditário num dos filmes de terror mais consistentes a nível técnico dos últimos anos. A banda-sonora sufoca-nos, a sonoplastia aterroriza-nos, e a montagem, aliada à fotografia, cria alguns dos melhores momentos visuais do filme.

Em suma, Hereditário é um dos mais fortes socos no estômago que levamos nas salas de cinema este ano. Além de aterrorizar, este filme persegue-nos para lá da sessão. Enoja-nos, choca-nos e surpreende-nos. Ari Aster na sua primeira longa-metragem consegue criar um dos mais inquietantes filmes de 2018 e possivelmente uma obra de cult instantâneo.

8/10

Título original: Hereditary

Realização: Ari Aster

Argumento: Ari Aster

Elenco: Toni Collette, Milly Shapiro, Alex Wolff, Gabriel Byrne e Ann Dowd.

Género: Drama, terror, mistério, thriller

Duração: 127 minutos