1986 é a mais recente aposta em ficção da RTP. Escrita por Nuno Markl e produzida pela HOP, a série recria o ambiente vivido nos dias que antecederam a histórica segunda volta das eleições presidenciais que opuseram Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral.

26 de janeiro de 1986. A esmagadora maioria da população portuguesa (75%) vai às urnas para eleger o novo Presidente da República, mas numa reviravolta inesperada nenhum dos candidatos consegue maioria absoluta. É anunciada uma segunda volta só com os dois candidatos mais votados e o país divide-se entre esquerda e direita. Grita-se “Soares é fixe” e “Prá frente Portugal”.

Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares.

Além do clima híper politizado, Portugal acabou de entrar na CEE e está completamente aberto às influências estrangeiras. Rocky IV vai estrear no fim do mês e o Regresso ao Futuro já estreou nos EUA, mas só chega aos cinemas portugueses em dezembro. O carro do ano é o Ford Scorpio e as rádios piratas estão generalizadas por todo o país, algumas com um raio de emissão de pouco mais de algumas ruas. Ouve-se The Smiths, Iron Maiden, Pink Floyd, David Bowie, Michael Jackson, Lena d’Água, Rui Veloso, Heróis do Mar e Sérgio Godinho.

Os jovens dividem-se em betinhos, metaleiros, góticos, punk e têm estilos bem definidos que demonstram na forma de vestir, na forma de agir e na música que ouvem. Os adultos vivem aguerridamente a política, identificando-se firmemente com um partido, e têm profissões como trabalhador de clube de vídeo ou telefonista.

Daqui a dois dias o vaivém Challenger vai ser lançado pelos americanos para o espaço. Vai acabar tudo numa grande desgraça, mas como isso ainda não se sabe vive-se um clima de grande entusiasmo.

É este o ambiente que a 1986 pretende retratar. Inspirada em eventos reais, a série conta a história de um jovem tímido, Tiago, que se apaixona por Marta, uma “betinha” que sonha ser astronauta. Contudo, a relação dos dois é influencia pelo clima de tensão política da época e assume contornos de um romance ao estilo de Romeu e Julieta: enquanto o pai de Tiago é comunista ferranho e se vê forçado a “engolir um sapo” e apoiar Soares, o pai de Marta é militante do CDS e um fervoroso apoiante de Freitas do Amaral.

Ao longo de 13 episódios, os espetadores são transportados por esta história e mergulham nos anos 80. As roupas, a maquilhagem, os carros, as decorações das casas, os gira-discos, as consolas de videojogos, as cassetes de filmes. Tudo isto serve para que quem está a assistir se esqueça momentaneamente que está em 2018.

Inspirada em eventos reais?

1986 é a primeira série da autoria de Nuno Markl. Segundo o que o humorista confessou ao Observador, esta começou a ser pensada em 2001 como uma longa metragem intitulada O Videoclube. Nessa altura, a ideia ainda não tinha uma época definida e acabou por ficar esquecida numa pasta do computador de Markl.

Quando o projeto ressurgiu, a ideia de enquadrar a história no período das eleições de 1986 foi uma forma de criar “tensão” nas vidas personagens. Para o humorista, esta foi “das épocas mais alucinantes da história recente política portuguesa”. A ideia ganhou assim a forma de uma série sobre os anos oitenta, algo que o humorista considerava estar em falta.

“No fundo é aquilo que Portugal já devia ter há muito tempo, que é o seu próprio Pretty in Pink, o seu Breakfast Club. Foi esse o nosso espírito”, confessou ao programa da RTP #SemFiltro.

As semelhanças entre o autor e a personagem principal de 1986 não têm passado despercebidas aos espetadores. Efetivamente, para além das semelhanças físicas, a série foi filmada na Secundária de Benfica que Markl frequentou (agora dá pelo nome de Escola Secundária José Gomes Ferreira) e o pai da personagem foi inspirada no pai do autor.

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A série é definitivamente inspirada em pessoas e eventos reais. No entanto, Nuno Markl rejeita a ideia de que a série é uma autobiografia.

“Em várias coisas é autobiográfica. Não se pode dizer que isto reproduza episódios da minha vida tal e qual aconteceram. Não é uma série sobre a minha juventude, mas é sobre pedaços da minha juventude”, avançou ao programa da RTP #SemFiltro.

Uma compilação de memórias dos anos 80

Às memórias do humorista juntam-se as da irmã, Ana Markl, e do guionista Filipe Homem de Fonseca, coautores de 1986. “Todos nós pusemos aqui memórias nossas dos anos 80 e construímos uma história”, considera.

Deste projeto, Nuno Markl destaca ainda o seu envolvimento em todo o processo de produção, algo que comentou em declarações ao Observador.

“Este foi o meu projeto mais obsessivo-compulsivo: juntei aos guiões listas detalhadas de tudo o que estas personagens tinham nas casas, nos quartos, nos posters colados nas paredes, fiz esboços desenhados de cada uma delas, fui envolvido no casting… Foi maravilhoso. Acho que nunca fui tão bem tratado como argumentista na minha vida.” 

1986 a rigor

Na tarefa de trazer 1986 para o presente, os argumentistas não estiveram sozinhos. Joana Stichini Vilela foi a consultora histórica da série, responsável nas suas palavras por “Tentar encontrar o máximo de informação relevante, precisa e surpreendente. E tentar que não houvesse erros”.

O envolvimento da jornalista freelance neste projeto deu-se a convite do próprio Nuno Markl. Enquanto coautora do livro Lx80, Joana convidou o locutor da Rádio Comercial para apresentar o livro e ele aceitou. “Mais tarde, o Nuno disse-me que já tinha partido para a apresentação do livro com esta fisgada”, recorda.

A Joana Stichini Vilela mandou-me um cartão com este seu novo e magnífico tomo da saga LX (antes deste saíram LX60 e…

Gepostet von Nuno Markl am Freitag, 21. Oktober 2016

Para Joana, o trabalho que desenvolveu em ‘1986’ divide-se em duas partes: fornecer material histórico à equipa de guionistas sobre factos relevantes deste período e verificar todos os factos incluídos espontaneamente pelos guionistas no guião. A pesquisa foi muito abrangente, indo “desde a campanha eleitoral, a acontecimentos paralelos às eleições, a tendências que estivessem a revelar-se, a hábitos quotidianos da altura, a sítios para sair à noite, à música e filmes que estivessem a sair na altura”.

Um pouco mais do que consultora

No entanto, o envolvimento de Joana foi muito além da pesquisa de factos para enriquecer o guião. “Tínhamos uma pasta no dropbox onde eu ia incluindo material e fazendo sugestões para temas que pudessem fazer sentido dada a premissa da série”.

Um dos aspetos do guião que se inspirou nos eventos históricos da época foi a paixão de Marta (Laura Dutra) pelo espaço. A consultora histórica conta como a ideia surgiu depois de terem descoberto que o lançamento do vaivém Challenger tinha acontecido na janela temporal da série.

Para Joana, este foi um projeto que lhe deu “muito prazer”, destacando o profissionalismo e a “boa onda” da equipa com que trabalhou. Apesar de preferir deixar os juízos sobre o realismo histórico da série para o público e críticos, não esconde o seu gosto pessoal pelo produto final.

“Posso dizer que de um ponto de vista pessoal, adoro o guarda-roupa, um trabalho realmente excecional, e que me lembro de ver em minha casa e na casa de amigos muitas das coisas que aparecem nas casas dos personagens.”

Dar vida a 1986 sem ter vivido 1986

‘1986’ é uma série que se centra em Tiago (Miguel Moura e Silva, 21 anos), um jovem tímido que se apaixona por uma colega da escola, Marta (Laura Dutra, 20 anos). Os melhores amigos de Tiago são Sérgio (Miguel Partidário, 20 anos) e Patrícia (Eva Fisahn, 19 anos). Juntos formam um grupo alternativo na escola que é atormentado pelos grupos dominantes, nomeadamente pelo betinho Gonçalo (Henrique Gil, 20 anos).

Dos atores que interpretam as personagens centrais da série, nenhum tem idade para ter vivido na pele os anos oitenta. Assim, todos os jovens tiveram de se preparar para “viver” 1986.

Miguel Partidário foi Sérgio, personagem que descreve como sendo o “metaleiro mais alegre à face da Terra”.

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Na sua pesquisa para se preparar para esta personagem, começou por falar com metaleiros dos anos 80 para perceber o que os caraterizava. Viu também muitos vídeos de concertos de bandas metal por considerar que “a essência do metaleiro define-se pela música”.

Miguel tentou transpor para Sérgio os tiques dos artistas mais admirados pelos metaleiros e a postura corporal dos metaleiros que via nos vídeos. No entanto, foi com admiração que descobriu aquele que se tornou o traço mais marcante da personagem.

“Apercebi-me de uma coisa fascinante: O metaleiro é visto como rude pelos outros, mas dentro do seu núcleo de amigos é uma pessoa completamente divertida e doida. Levei isso para o Sérgio também, dei-lhe um ar agreste quando ele interage, por exemplo com a Marta, mas com os seus amigos ele é o mais vivaço.”

Entrar em personagem

Durante as gravações, quando chegava o momento de entrar na personagem, Miguel conta que se fechava na casa de banho durante meia hora a “ouvir música metal aos altos berros enquanto gritava, grunhia, tocava air guitar”. Explica ainda que tinha o hábito de fingir conversas com personagens que não existiam na série para “ter um background mais abrangente da vida da personagem”.

Para Miguel, a consultadoria “absolutamente pormenorizada” de Joana Stichini Vilela foi essencial para permitir que “o 1986 fosse praticamente um álbum de memórias dos anos 80”. O ator destaca ainda a atenção ao pormenor de todos os elementos da equipa e o acompanhamento dos argumentistas como fulcrais para conseguir trazer o ano de 1986 para o presente. “Ninguém deu por garantido que, por ter vivido nos anos 80, estava preparado. Não, toda a gente fez imensa pesquisa.”

A importância da música

A música ocupa um lugar central nesta série e é muitas vezes o fio condutor dos episódios. É também uma das formas encontradas pelos autores para diferenciar as personagens. Em declarações ao programa da RTP #SemFiltros, Nuno Markl justificou esta forma de caraterização. “Uma das melhores maneiras para tu conheceres alguém é por aquilo que eles ouvem.”

A banda sonora inclui os grandes hits dos anos 80 como a Don’t You (Forget About Me) dos Simple Minds, a Walking On Sunshine de Katrina & The Waves ou a O Primeiro Dia de Sérgio Godinho.

No entanto, a série foi mais longe e criou temas originais compostos propositadamente para a banda sonora por artistas contemporâneos ao estilo da época. Destes destaca-se a música do genérico, Eletrificados de Lena D’Água, Catarina Salinas e João Só.

Os temas originais foram compilados num álbum disponível em formato de CD e Vinil. Na descrição que acompanha o disco, Nuno Markl explica como surgiu este projeto associado à série.

“O que propus ao João Só foi que viajasse até um ano em que ele nem sequer ainda tinha nascido para criar canções que pudessem ter sido gravadas nessa altura. Felizmente, o João junta um talento gigante ao facto de ser uma enciclopédia vida de música e, para ele, não houve nenhuma montanha alta demais. Ele não só conhece toda a Música, como trabalha em qualquer estilo, sempre sem deixar de ser ele próprio.”

Alguns dos artistas portugueses que aceitaram o desafio do criador de 1986 foram Miguel Araújo, Samuel Úria, David Fonseca, Rita Redshoes, Ana Bacalhau, Márcia e Tatanka. Os músicos voltaram a reunir-se a 17 de maio para um concerto solidário no Altice Arena.

A fandom de 1986

Apesar de não ter uma audiência substancial na televisão (o recorde de audiência média foi de 3% durante o terceiro a 27 de março), esta é a série mais reproduzida na RTP Play (165 mil visitas durante os primeiros 15 dias em que esteve disponível para streaming).

A série conseguiu assim reunir um grupo substancial de seguidores. Desde as páginas de fãs criadas dos atores mais jovens, aos comentários nas redes sociais e à fan art, os fãs têm encontrado várias formas de se expressar e contactar com a equipa de ‘1986’.

Esta proximidade tem sido incentivada por Markl e o elenco que continuam a publicar conteúdos relacionados com a série (nomeadamente os diretos no Facebook que o criador faz todos as terças antes da emissão dos episódios na RTP), respondem frequentemente aos comentários dos fãs e partilham fan art. O criador usou ainda as redes sociais para perguntar aos fãs se aderiam a uma maratona de episódios com música ao vivo para comemorar o final da transmissão da série.

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O último episódio de ‘1986’ vai ser emitido na próxima terça-feira (19) às 22h15 na RTP1. A série está disponível na íntegra na RTP Play.