Aos quase 74 anos e ao sexto concerto quase consecutivo em Portugal, Chico Buarque deu ontem o último espetáculo no Coliseu de Lisboa. O músico brasileiro atuou para uma plateia cheia, vibrante e com pequenos laivos de intervenção política.

Esteve ligado à música de intervenção e à canção de protesto contra a ditadura brasileira e esse passado histórico não lhe foi negado. Chico Buarque deixou o Coliseu, ia já no segundo encore, debaixo de uma enorme ovação após cantar Tanto Mar, tema escrito aquando da Revolução dos Cravos portuguesa. Também lhe caíram as icónicas flores de abril em palco e ouviram-se do público os apelos “Fora Temer”. Ainda pôde ler-se uma tarja a pedir a libertação de Lula.

A urgência de Chico Buarque neste momento será outra, até porque a idade lhe pesa quanto pesa o seu papel na história da música. Contudo, encontramos-lhe a serenidade, a capacidade na voz e na forma de acariciar o violão que, se não soubéssemos, poderiam ser de um jovem malandro. E que malandro foi Chico no primeiro e esperado encore quando regressa ao palco e coloca um chapéu na cabeça para cantar Geni e o Zepelim.

Da Ópera do Malandro (1978) também se haviam já escutado A Volta do Malandro e Homenagem Ao Malandro relembrando a temporada em que este musical esteve em exibição na sala nobre de Lisboa, decorria o ano de 2005. Chico já não atuava em Portugal desde 2006, ano em que lançou CariocaCaravanas, o último e 38.º disco da sua carreira. Foi esse o mote para esta série de seis concertos em Portugal. O álbum versa sobre o amor e sobre viagens, no sentido mais amplo do termo.

Foi precisamente esse o sentido que começou por dar ao espetáculo: «Minha embaixada chegou/ Deixem meu povo passar/ Meu povo pede licença/ Pra na batucada desacatar», sambou. Mas rapidamente a deriva para o amor tomou conta do homem de pequenos olhos azuis que vibraram ao cantar Retrato em Branco e Preto tema que, confessou, gostava de ter sido ele a compor. É de Tom Jobim mas as palavras são suas e refletem, como outros, a temática do abandono amoroso.

São muitas vezes sobre abandono e regresso as músicas de Chico Buarque. Desaforos, Injuriado, Palavras de Mulher ou As vitrines põem a nu os sentimentos do homem e do amante e descobrem também os nossos ali contidos naquele silêncio que era de contemplação.

Com Bia Paes Leme, que estava nas teclas, ofereceu Dueto. Todo o concerto foi dedicado a Wilson das Neves, que Buarque afirmou em tempos ser o baterista do seu coração. Um coração que continua a bater forte e a fazer bater forte os dos outros e das outras, tamanho é o amor que nos une.

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Chico Buarque

Fotografias de Tomás Almeida