Foi memorável a derradeira noite do NOS Primavera Sound, estando marcada pelo dilúvio que assomou o Porto. Contudo, a dada altura não choveu apenas do céu, também escorreu água dos nossos olhos.

A temática mitológica do dilúvio é generalizada em diversas culturas do mundo e conta a grande inundação que os deuses provocaram na Terra e à qual Noé sobreviveu com heroísmo com seus filhos. Na noite de sábado, australianos, canadianos, americanos, brasileiros, alemães, venezuelanos, mostraram que, efetivamente, a música é uma enorme plataforma de salvação.

Nick Cave foi Noé a salvar a humanidade com o conluio de Deus e a ajuda dos The Bad Seeds, não pacificando as águas mas navegando nelas com rebeldia. Sabíamos que Skeleton Tree (2016), saído da dor inenarrável que é perder um filho adolescente num acidente de moto-quatro, após ter metido um ácido, iria ter consequências na sua tradução ao vivo. Até Deus ajudou mandado chuva, muita chuva, para que não se percebesse que o que escorria dos olhos eram lágrimas.

Começou logo com Jesus Alone e o verso «You fell from the sky/Crash landed in a field», lembrando-nos porque surgiu este disco e mal dando tempo para recuperar pois ao terceiro tema já Cave perguntava Do you love me? E o cheíssimo anfiteatro do Parque da Cidade rendia-se aos pés do maior rockeiro que passou este pelo NOS Primavera Sound (Jubilee Street terminou com pontapés desenfreados em tudo o que apareceu à frente), o maior romântico (Into My Arms ainda ecoa na cabeça de toda a gente), do maior entertainer (sim, é possível vencer a dor com humor e Nick Cave fê-lo de forma espantosa com The Weeping Song), o maior deus (que se uniu ao público num momento de catarse coletiva inigualável, a fechar, com Push The Sky Away).

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Pouco antes os Wolf Parade estreavam-se em Portugal para uma plateia bastante composta tendo em conta a forte chuvada e o facto de se aproximar o concerto de Cave. Com Cry Cry Cry na bagagem, mais um punhado de outros bons discos que fazem deles um nome seguro da cena indie canadiana, confirmaram, “sem espinhas”, que mereceram cada gota de água que nos entrou no corpo. A tempestade agigantada pelos teclados de Spencer Krug e a guitarra de Dan Broecker conjugados com as suas distintas e belas vozes foi superior à vivida no corpo. Valley BoyYou’re Dreaming, Weaponized ou Baby Blue fizeram facilmente esquecer o desconforto devido à chuva e até adiar a corrida para o palco onde estava Nick Cave.

Ao início da tarde Luís Severo embalou a chuva e os bascos Belako passaram a mensagem clara “Apoiem as vossas cabras locais”. Kelela e Vagabon trouxeram dois dos melhores discos do ano passado para a crítica musical (Take Me Apart e Infinite Worlds, respetivamente). Apesar dos estilos distintos, já que Kelela se dedica ao R&B e Vagabon a um DIY mais underground, mostraram ambas vozeirões incríveis e lembraram que as devemos ter debaixo de olho.

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O groove de Metá Metá e o prog interventivo de Public Service Broadcasting marcaram ainda a noite em que Nils Frahm comprovou que é um dos maiores génios da composição da atualidade (veja-se a quantidade de instrumentos criados pelo próprio e que leva a palco) e Arca um dos artistas/músicos/performers mais marcante. O venezuelano deu aos sobreviventes, madrugada dentro, um espetáculo que se afastou dos seus discos mas o aproximou imenso do público pela loucura que pintou em palco, uma vez mais lembrando que a música não precisa mesmo de etiquetas. Após mais esta edição do festival, parece-nos mesmo que um novo mundo surgiu.

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O NOS Primavera Sound regressa no próximo ano entre 6 e 8 de junho.

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Fotografias de Mariana Gomes e Ana Fonseca (Espalha-Factos) e Hugo Lima (fotógrafo oficial do NOS Primavera Sound)