Grande parte dos artigos e críticas que têm saído sobre Han Solo: Uma História de Star Wars, estreado há duas semanas em Portugal, normalmente começam com uma espécie de preâmbulo que diz que se trata de um filme que “ninguém pediu” ou que “não era necessário“. Esta não será uma crítica dessas.

Exceto um ou outro documentário educacional, nenhum filme é “necessário“, nem há aqui autoridade e mundividência suficientes para afirmar que nenhum fã de cinema ou de Star Wars não queria ver uma versão jovem do corajoso insolente Han, celebrizado nos anos 70 e 80 por Harrison Ford e agora por Alden Ehrenreich.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Ron Howard afirmou que “para quem nunca viu um Star Wars, esta é uma boa porta de entrada”, referindo-se a Han Solo: Uma História de Star Wars. A maior parte das personagens são novas, a narrativa do filme é bastante simples e até algo previsível mas, à semelhança do seu sucessor cronológico Rogue One (o primeiro spin-off da saga para o cinema), só quem estiver mais investido em todo o universo Star Wars, dos livros às séries, é que poderá tirar verdadeiramente partido do filme. No entanto, em abono da verdade, neste spin-off as referências que poderão ficar perdidas para grande parte do público foram mais bem geridas e menos constantes, até pela qualidade da escrita. Nesse ponto, Han Solo será uma porta de entrada melhor que Rogue One, mas uma porta pequena, ainda assim.
Apesar da previsibilidade da narrativa, Han Solo não chega a pretender resumir a história do herói da Rebelião antes de este se juntar a Luke e Leia, como os vimos na trilogia original. Ao contrário do que seria de esperar, a história não nos explica a origem do cinismo de Han, mas ajuda o público a perceber o seu repúdio relativamente ao Império colonialista que invade o seu planeta e o separa de Qi’ra, a sua namorada interpretada por Emilia Clarke, isto sem nunca mostrar qualquer tipo de adesão à Rebelião que o combate. Isso ficará para mais tarde, quando a luta pelos que lhe são próximos o levar a lutar por uma causa maior do que a sua própria sobrevivência.
Em traços gerais, o filme é, por isso, apenas o relato de como Han Solo conheceu o companheiro Chewbacca, de como conseguiu a sua adorada nave Millenium Falcon num jogo com Lando (interpretado pelo polivalente Donald Glover), e de quem lhe deu a pistola que todos conhecem como sua. Para quem passou anos – décadas, até – a teorizar sobre como se teriam desenrolado esses eventos, são duas horas muito bem passadas; para quem não o fez, provavelmente não chegará para se sentir marcado pelo filme.

Para além da fantástica interpretação de Ehrenreich como Han Solo (só mesmo quem não o viu em Avé, César! é que poderia achar que ele seria menos do que muito bom), uma das marcas do filme foi a cinematografia. Bradford Young, conhecido entre outras produções como o diretor de fotografia de Arrival, um dos melhores filmes de ficção científica deste século, deu a Solo um toque sujo como o planeta de Corellia e em que a escuridão vai desvanecendo à medida que o protagonista se torna, à sua maneira tradicionalmente atabalhoada, o herói mais preparado para o mundo dos caçadores de prémios. Young empregou ao filme um aspeto que normalmente não vemos em blockbusters desta dimensão e demonstrou que não tem receio de brincar o suficiente com a lama como aquela onde Han e Chewie se encontram pela primeira vez.
Ron Howard fez apenas aquilo para o qual foi contratado depois da saída dos dois realizadores originais do filme, Phil Lord e Chris Miller: cumpriu. Não fez muito mais que respeitar o argumento original de Lawrence e Jon Kasdan, os escribas do filme, algo que aparentemente não estaria a ser cumprido com os realizadores anteriores. Se Lord e Miller tivessem continuado à frente da produção e terminado a sua versão do filme, porventura teríamos visto uma versão de Guardiões da Galáxia aplicada ao universo Star Wars, uma versão mais aberta a um público geral e, como tal, mais popular. Mas, tratando-se de um filme cuja pré-produção começou ainda antes da venda da Lucasfilm à Disney, sob a alçada de George Lucas e Lawrence Kasdan, é natural que tenha sido dado preferência a quem já escreveu e idealizou mais filmes do que os realizadores Lord e Miller. Talvez fique para uma próxima.
Ainda não é oficial, mas o filme será um flop de bilheteira. Sendo que o título não desvaloriza imediatamente os filmes que o detêm – lembremo-nos por exemplo que Blade Runner 2049, um dos grandes destaques cinematográficos do ano passado, também o foi -, é evidente que este (também) não o merecia pelo simples facto de ser um bom filme. Não se tratando de uma produção que tenha arriscado muito, até pelo seu enredo simples, não é de todo um mau filme; uma produção que conta com tão boas interpretações e com algumas das melhores cenas da saga, não pode ser vista como tal. Como qualquer outra, tem aspetos negativos como o ritmo mais lento no princípio, que depois melhora a partir da segunda metade, ou o desaproveitamento de algumas personagens e de excesso de tempo passado a ouvir uma robô que mais parece uma caricatura bizarra da luta valorosa por direitos iguais, mas não é um filme merecedor do apodo de flop.
Como seguidor da saga, o melhor que se pode dizer do filme é que, quando termina, ficamos com vontade de ver mais desta versão do personagem. Não só porque Alden Ehrenreich carrega excecionalmente bem o fardo de ter de ir além do charme carismático de Ford, como o filme deixa abrir portas para que no futuro possamos acompanhar no grande ecrã diferentes capítulos da vida da dupla de Solo e Chewbacca. Isto, claro, para quem quiser continuar a entrar nesta galáxia muito, muito distante.

Han e Chewbacca