Em pouco mais do que um ano, Father John Misty introduziu dois álbuns à sua discografia. Em 2017, veio o aclamado Pure Comedy e, em 2018, o artista repetiu a proeza com God’s Favorite Costumer. O novo disco aterrou discretamente nas nossas mãos e, sem hesitar, voámos com ele.

Que Father John Misty é que nos recebe desta vez?

Mas então, de onde veio este novo projeto? As primeiras impressões são claras: o alter-ego de Josh Tillman nunca esteve tão calmo e sensível. A voraz capacidade de entreter ao mesmo tempo que a escrita sardónica nos ocupa ainda se mantém. Há, porém, uma calmaria em God’s Favorite Customer que veio substituir o caos de Pure Comedy.

Política, religião e amor, a Santíssima Trindade, continua a receber tempo de antena e a dar dores de cabeças ao músico, embora o mergulho que é dado não seja tão profundo desta vez. Niilismo e gracejos à parte, este Josh Tillman de 2018 encontra-se mais exposto e menos receoso de ser vulnerável.

O disco que reflete a fragilidade da condição humana

O culto da personalidade de Father John Misty é posto de parte para o tumulto emocional rebentar. Prova disso é Just Dumb Enough To Try. Com esta exclusão, Josh não vê em si só a sua própria pessoa. Já ultrapassada a primeira experiência do que é verdadeiramente amar e ser amado, esboçadas esbeltamente por I Love You, Honeybear, Josh sublinha o papel de Emma Tillman, a sua esposa, na sua vida.

As atribulações da constante distância entre os dois por causa das digressões do artista podem ter causado uma situação pouco desejável, para além dos dois meses supracitados ao longo dos quais este viveu num hotel (abordados em Mr. Tillman). Neste contexto de desgaste mental de Josh e a complicada comunicação entre o casal, as prioridades do músico são redefinidas: a morbidez existencialista deu a palavra de ordem à arte de amar para avançar.

Ao longo do álbum, teremos momentos vividos através perspetiva da sua cara-metade. Em Please Don’t Die, o refrão é um balde de água fresca graças à honestidade crua do pedido que é feito: “put yourself in my shoes/ you’re all that I have so please don’t die/ Wherever you are tonight”.

Amor a quanto obrigas: a versão de Josh Tillman

Já em The Songwriter, Josh reconhece a difícil posição de Emma. Em jeito de homenagem, esboça uma realidade alternativa na qual é ela a artista musical do casal e questiona como é que ela abordaria a dinâmica da relação. Será que tornaria os erros de Josh e as ocorrências entre os dois em inspiração? Denota-se uma autoconsciência por parte de Josh, visto que esta já é uma prática sua em certas músicas.

Esta ironia tendencialmente meta é colocada de lado e com uma simples pergunta retórica é apresentado o que, para si, talvez valha mais do que qualquer música que possa ser concebida – a devoção (What would it sound like if you were the songwriter/ And loving me was your unsung masterpiece?”).

Entenda-se também que já não há speakers a encherem-nos os ouvidos, não há longos e satíricos discursos moralistas, não há filosofias perdidas. O cúmulo disto é notável na solidão acompanhada por um piano em The Palace.

A típica beleza simples e eficaz

No que diz respeito à  produção, God’s Favorite Costumer prima pela simplicidade. Maioritariamente produzido pelo próprio Father John Misty, a instrumentação permanece reconhecivelmente exuberante, se bem que de um modo mais conservador. Há momentos de menor extravagância,  particularmente, em Disappointing Diamonds Are The Rarest of Them All e Date Night. Parecendo vir da mesmo estado de espírito de Real Love Baby, são músicas cuja escala é diminuída.

Não há nenhuma faixa que pareça inimaginável por qualquer pessoa familiar com os trabalhos de Father John Misty, no entanto, o panorama sónico de God’s Favorite Costumer não deixa de ser um esforço que resultou em sucesso.

Um ponto final nas reticências

Quando embarcamos pela primeira vez nesta jornada, encontramo-nos céticos, com receio de cairmos em mais uma armadilha de Tillman. Mas não, o músico empenhou-se em provar que nem tudo é uma punch line e que a vida, em si, não tem nenhuma. Pure Comedy foi o clímax hipnótico, mas God’s Favorite Costumer é o produto da abstinência que atormenta Father John Misty.

Espelha-se através da honestidade, consciente de si mesma, a pessoa sentimental que guarda em si que agora se apresenta menos reticente em ser ouvida. Nós, com todo o gosto, estamos cá para satisfazer essa ambição.

Pontuação: 8.5/10

Opinião de Carlota Real e Nuno Santos