Um debate sobre ativismo, levado a cabo pela editora Tinta-da-China, no passado sábado, na Feira do Livro de Lisboa, teve de acabar mais cedo devido a comentários racistas por parte de uma voluntária do evento. A editora acusa a voluntária de racismo.

Durante um dos momentos da Feira do Livro de Lisboa deste fim de semana, um debate sobre ativismo a propósito do lançamento do livro Racismo no País dos Brancos Costumes, da autoria de Joana Gorjão Henriques, uma situação inesperada aconteceu. O debate acabou mesmo por ter de ser interrompido mais cedo do que o previsto (cerca de dez minutos), devido aos comentários de cariz racista tecidos por uma voluntária contratada pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).

Quem fez a denúncia foi Bárbara Bulhosa, da editora Tinta-da-China, que publicou o livro, e que relatou o incidente através de uma publicação na rede social Facebook. Na mesma, a editora relata que a voluntária passou o debate a “gesticular e mandar bocas a dizer que não concordava com nada do que estava a ser dito”. Segundo a editora, que presenciava o debate na primeira fila, a voluntária repetiu várias vezes as palavras “esta gente”, referindo-se aos presentes de raça negra.

Já perto do evento terminar, os comentários inapropriados da voluntária ter-se-ão transformado em comentários diretos, chegando mesmo a interromper Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, enquanto esta fazia uso da palavra, para lhe dizer “vê lá se te despachas”. Perante isto, a autora Joana Gorjão Henriques, responsável pelo debate, decidiu terminá-lo abruptamente.

Indignada com o que tinha acabado de assistir, Bárbara Bulhosa relata: “saltei da primeira fila e abordei a senhora voluntária dizendo-lhe peremptoriamente que não podia mandar calar um convidado que estava a falar para uma plateia cheia. Que não funcionava assim”.

A voluntária terá então começado a insultar a editora, inquirindo “quem julgam que são?” e dizendo que com a editora em questão “é sempre isto”, nesta que terá sido uma verdadeira “performance racista”.

A editora Bárbara Bulhosa declarou ainda que, ao contactar a APEL, esta, além de afirmar que iria substituir a voluntária em causa, terá pedido que não fizesse ameaças, após Bárbara ter dito que iria tornar o caso público. No entanto, tal como revela a editora, não houve um pedido de desculpas pelo sucedido, nem à autora nem aos convidados.

O pedido de desculpas da APEL

Em comunicado enviado ao Observador, depois de contactada pelo jornal, a APEL já afirmou lamentar “profundamente os incidentes ocorridos”, salientando que “não se revê de nenhum modo na atitude assumida pela sua colaborado que dava apoio logístico à sessão de apresentação”.

A associação afirmou ainda ter tomado “medidas para evitar a repetição de incidentes deste teor, que mais uma vez repudia”, sem haver, no entanto, uma especificação relativamente a que medidas seriam essas.

LÊ TAMBÉM: FOTÓGRAFO OFICIAL DE OBAMA LANÇA LIVRO A COMPARÁ-LO COM TRUMP