Aconteceu, nos passados dias 24 a 28 de maio, a nona edição do festival MIA – Encontro Música Improvisada de Atouguia da Baleia. O encontro repete-se anualmente desde 2010 naquela freguesia do concelho de Peniche. A edição de 2018 confirmou o sucesso dos anos anteriores dentro do género. Contou com a participação de 90 músicos, de 15 nacionalidades diferentes.

O festival começou na tarde de quinta-feira, dia 24, com a inauguração, na Casa dos Valas, de uma instalação sonora do artista sonoro Mestre André, mestrado em Artes Musicais pela Universidade Nova de Lisboa, com o título Sobre Telecinésia e Vitromancia. A instalação explorava o efeito que as ondas sonoras provocam no vidro das prateleiras antigas da Casa. Também nessa tarde, decorreu o primeiro Workshop de Música Improvisada, comandado pelo flautista Paulo Curado, no auditório da Sociedade Filarmónica.

À noite, na Igreja do Imaculado Coração de Maria do Casal Moinho (também na freguesia de Atouguia da Baleia), assistiu-se ao primeiro concerto do festival, com o acordeonista espanhol Jesus Asenjo, a violoncelista portuguesa Joana Guerra e com Paulo Curado. A primeira noite terminou no Armazém do Grupo Desportivo Atouguiense (G.D.A.), com uma Jam Session, já tradicional nestes encontros, iniciada pela Staff Band e à qual os músicos participantes se puderam juntar livremente ao longo da noite.

Sexta feira começou com mais um Workshop, desta vez pela mão do pianista italiano Nicola Guazzaloca. Nessa noite, na Igreja de São Leonardo, o trio de guitarristas clássicos composto por Fernando Guiomar, Miguel Guimarães e Miguel Almeida deu um ótimo concerto que iniciou as hostilidades musicais. A noite terminou, como sempre, na Jam Session no Armazém do G.D.A. Desta vez, começou com a atuação do saxofonista norte-americano Blaise Siwula com os portugueses Jorge Nuno, na guitarra elétrica, e André Calvário, no baixo elétrico.

Um MIA mais cheio ao fim de semana

Com a chegada do fim de semana, chegaram também os dias mais preenchidos do Festival. Começou pela atuação da banda nacional Nau Quartet, composta pelo pianista Rodrigo Pinheiro, o contrabaixista Hernâni Faustino, o baterista João Lencastre e o saxofonista José Lencastre. O quarteto deu um concerto irrepreensível no auditório da Sociedade Filarmónica que se começava a encher de músicos para mais um dia de festival.

Ao longo da tarde, deu-se mais uma tradição do MIA. Previamente, 58 dos participantes deste encontro foram sorteados em nove grupos de seis a sete músicos. Cada grupo teve 20 minutos para apresentar o seu concerto, improvisado, claro está, numa dinâmica que ocupou toda a tarde. Tarde essa, que viria a terminar num concerto ao ar livre dos Street Collective, conduzido pelo trompetista Luís Guerreiro, junto à Fonte Gótica da vila, num belo momento de música ao pôr-do-sol que juntou dezenas de músicos, espetadores e curiosos.

À noite, de volta ao auditório, os italianos Nicola Guazzaloca, ao piano, e Edoardo Marraffa, no saxofone, brindaram um auditório cheio de público com um espetáculo maravilhoso. Seguiu-se uma prestação também memorável dos Wasteland, com Rosa Parlato (Itália) na flauta e eletrónicas, Paulo Chagas (Portugal) no oboé, Philippe Lenglet (França) na guitarra elétrica e Steve Gibbs (Estados Unidos) na guitarra clássica de oito cordas. Houve também um outro momento já habitual no MIA, os Ensemble MIA, em que dois grupos de 30 músicos, à vez, subiram ao palco para uma curta prestação conjunta, que teve momentos espontâneos e inesperados, como só a música improvisada consegue apresentar. As sessões foram conduzidas por Paulo Curado e Nicola Guazzaloca, respetivamente. A Jam Session da última noite teve a abertura a cargo dos Tamboril.

O último dia do MIA começou com um novo e diferente momento, um concerto para crianças e bebés, na Casa dos Valas. Numa sala que foi pequena para as dezenas de pequenos que vieram, alguns adultos tiveram que ficar a assistir à porta. Lá dentro, Carlos Canão, Paulo Curado, Maria Radich, Elisabetta Lanfredini e Uygur Vural foram conduzidos por Sofia Borges, num momento musical, teatral e memorável que deixou miúdos e graúdos com grandes sorrisos nas caras.

A música recomeçou à tarde, com o clarinetista Noel Taylor, o saxofonista Alex Clov, o guitarrista Luís Martins e o baterista Pedro Alves, e a sua formação Splatter. Desta feita, 56 músicos formaram 10 grupos sorteados para mais uma tarde de improviso que culminou novamente junto à Fonte Gótica, desta vez com o Spacebop Quintet. A noite começou com uma palestra de Rui Eduardo Paes com o mote “Improvisão, ou não, eis a questão”. A Esquelética Sonora de Fernando Simões (trombone), Abdul Moimeme (guitarra), Nuno Morão (bateria) e Nuno Rebelo (guitarra) abriu a última sessão noturna do Festival, que viria a dar lugar a mais dois Ensemble MIA, estes conduzidos por João Madeira e por Blaise Siwula. Os últimos momentos deste encontro foram passados na Jam Session iniciada pelos Dead Vortex.

Ao fim de nove edições, o MIA tornou-se já uma referência no mundo da música improvisada. A prova disso são as dezenas de músicos que, ano após ano, voltam à vila de Atouguia da Baleia para um evento que, mais do que um festival, é um encontro de música, de músicos, de cultura e de amigos. Esperemos para ver que novidades trará a décima edição.

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