Neste dia dedicado aos pequenos decidi enviar uma carta a um dos cineastas que mais influenciou a minha infância. Embebido pelo saudosismo de playlists de músicas Ghibli e a necessitar de pôr em palavras a dívida que tenho para com Hayao Miyazaki, decidi escrever-lhe esta carta:

Olá Miyazaki,

Tens um nome complicado para qualquer português escrever, sabes disso? Os teus ípsilons e capas cortam-me o ritmo de escrita de cada vez que tenho de pesquisar por ti no Google. Mas não é para reclamar do nome que te foi oferecido pelos teus pais que aqui estamos.

Quero-te apresentar a criança que fui e falar-te da forma como foste importante para o meu desenvolvimento. Sempre vivi em Mafra. É uma vila que é perto da cidade, sem ser cosmopolita, perto do mar, sem ser costeira. Nessa mesma vila havia dois senhores nos anos 90 que batiam de porta em porta para vender cassetes. Tinham um pouco de tudo, mas focavam-se bastante nos filmes de animação para crianças – deviam ser as mais concorridas, uma espécie arcaica de video on demand que sossegava os pequenos enquanto os pais faziam o jantar. Um certo dia, lá para 1999 ou 2000, não sei precisar, a minha mãe decidiu comprar uma cassete de tons azuis e verdes com um monstro enorme na capa. Parecia amigável. Era cinzento, segurava num chapéu de chuva, sorria e era acompanhado por duas crianças a correr na relva. Chamava-se O Meu Vizinho Totoro, filme que já tinhas lançado em 1988, mas que me apareceu à porta já perto da passagem do milénio.

Na altura não havia ainda grande espaço para a animação japonesa no imaginário luso. Lembro-me que via e revia clássicos da Disney, do Rei Leão à Pequena Sereia, as minhas tardes em que chegava cedo da escola e esperava que a minha mãe voltasse do trabalho eram passadas a rever estes filmes. Perdi a conta às vezes que os revi, foram tantas que estraguei o botão do “rewind” no comando, tinha de o fazer no leitor que estava em cima da televisão. Precisava de me empoleirar numa cadeira para lá chegar. Mas voltava a ver cada filme como se fosse a primeira vez, como se a história pudesse mudar. Foi então que experimentei meter a nova cassete no leitor, aquela que a minha mãe comprou um tanto às cegas, pelas cores, sem saber de onde era, o que vinha contar.

As primeiras memórias que tenho do O Meu Vizinho Totoro são tão enternecedoras que me fazem querer recuar a esse tempo em que tudo parecia tão menos complicado. Tinha por volta dos 6 anos, tinha começado a ler há pouco tempo. A cassete vinha em japonês com subtítulos em português. O mercado da dobragem em Portugal sempre foi relativamente pequeno, focava-se essencialmente em filmes da Disney e algumas sagas juvenis, tipo o Harry Potter. Lembro-me de fazer algum esforço para acompanhar a rapidez das legendas. Não conseguia ler tudo a tempo. Mas os diálogos também eram poucos. A animação, a ambiência, as cores, a música. Essas foram as primeiras marcas que o filme me deixou. Por alguma razão aquele filme acalmava-me e criava em mim novos sentimentos que, na altura, estava longe de saber decifrar: empatia, comoção, deslumbramento, melancolia.

A minha mãe percebeu o quanto eu gostava desta nova cassete, ficou feliz pela aquisição e prontificou-se a falar com o senhor que as vendia para que eu tivesse outras parecidas. Enquanto outras não chegavam ia ficando cada vez mais agarrado a este novo mundo. Aquele monstro cinzento passou a ser também meu amigo, começou a fazer parte do meu imaginário enquanto criança. Rapidamente era transportado para aquelas paisagens do interior japonês, caminhava lado a lado às protagonistas do filme à medida que a narrativa se desenlaçava. Ria-me com elas, corria com elas, chorava e preocupava-me com elas. Fiquei tão rapidamente embrenhado na história do Totoro que mostrei a vários amigos meus de infância, quase como se estivesse a mostrar alguma parte nova de mim, um novo amigo meu que eles também tinham de conhecer.

Miyazaki, o teu O Meu Vizinho Totoro é hoje um filme cult para várias gerações à volta do mundo e isso deve-se essencialmente ao facto de ser bastante imersivo. Enquanto criança não percebia essa definição, mas compreendia que algo especial acontecia quando colocava novamente a cassete colorida no leitor de VHS que está neste momento algures na garagem, cheio de pó. Posso dizer-te com toda a segurança que foi o primeiro filme que me fez perceber a peculiaridade dos sentimentos humanos. Aqui não há a dicotomia entre o bem e o mal. Existe apenas uma apaixonada narração sobre a infância, sobre a família, um idílica visão do que é a vida e a morte, uma história sobre a perda sem se focar nela. Foi o primeiro filme que me fez perceber que te podes sentir triste, mas feliz. Arrebatado, mas sereno. O primeiro filme que teve a ousadia de me dizer, de uma forma meiga e suave, de que um dia posso perder o que tenho. Sim. O maior ensinamento que me deste, Miyazaki, foi o de me confrontares com a finitude e a mortalidade, numa idade em que tudo é infinito e imortal.

Não te preocupes. Não me deste a conhecer a nossa condição efémera de uma forma alarmista, mas antes disseste-me para a aproveitar ao máximo, que todos os momentos são válidos e contam. Acho que é por isto que nunca fui daquelas crianças com pressa de crescer, de ser adulto. Por alguma razão já sabia que estava a viver os melhores anos da minha vida.

Hoje, longe estão os tempos em que a falta de preocupações não me toldava a vista. Os tempos em que podia ser ingénuo e imaginar todo um novo mundo à minha volta. Vivo em Lisboa no meio dos ruídos de buzinas, do cheiro a alcatrão e de enxofre dos gases de escape. Deambulo pelo meio da azáfama do dia-a-dia, sempre em rodopio, a ver o tempo a passar a uma velocidade estonteante… e bem sei o resto da história.

Hoje, basta-me rever O Meu Vizinho Totoro e fazer uma pausa de tudo. Já não sou transportado para as paisagens do interior japonês, mas sim para uma sala de estar num prédio de quatro andares em Mafra, com uma televisão de caixa e um leitor de cassetes com o comando estragado. Sou transportado para uma versão de mim que ainda guardo algures, para me lembrar do sentimento que é ser ingénuo.

Por tudo isto agradeço-te. Pelos ensinamentos que me deste, pelos sentimentos que me provocaste. Mas acima de tudo, Miyazaki, agradeço-te hoje por preservares as minhas mais preciosas memórias de infância e me permitires recuar no tempo.

Com os melhores cumprimentos,
Ricardo Rodrigues