Roseanne regressou aos ecrãs a 27 de março deste ano, 21 anos após ter sido exibido o último episódio, em maio de 1997. A série fez sensação logo no primeiro episódio e ganhou um protagonismo único no panorama televisivo. No espaço de dois meses, foi renovada para mais uma temporada e depois abruptamente cancelada. Revemos aqui os principais acontecimentos desta trajetória.

1. Um revival que explode nas audiências e é congratulado por Donald J. Trump

O regresso de Roseanne surgiu num panorama televisivo cada vez mais caraterizado pelo estilhaçar das barreiras temporais. Qualquer série que fez parte do nosso passado pode teoricamente voltar, seja com os mesmos atores, como Will & Grace, seja numa versão com atores diferentes, como MacGyver.

O que este caso teve de especial face aos outros foi a forma extremamente expressiva e dominante como entrou no jogo das audiências. Tendo de competir na mesma faixa horária com The Voice e NCIS, Roseanne foi capaz de reunir 18 milhões de espectadores no seu episódio de estreia, alcançando uns impressionantes 5.2 pontos de rating entre o segmento dos espectadores dos 18 aos 49 anos, os mais importantes para o mercado publicitário norte-americano. Tornou-se a estreia mais vista da temporada, batendo Young Sheldon. Por comparação, nessa mesma semana, The Big Bang Theory recolheu 13 milhões e 2.5 de rating nos 18-49.

Outro aspeto necessário para perceber este caso é que a criadora e protagonista da série, Roseanne Barr, é uma republicana assumida e defensora do atual Presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump. A comédia acompanha uma família da classe trabalhadora, em que Roseanne é igualmente uma republicana e defensora do Presidente.

É a conjugação destes dois elementos que explica o elogio feito por Donald J. Trump às audiências de estreia. O Presidente mencionou a série durante um comício e ligou a Barr para a felicitar pelos resultados.

2. Roseanne torna-se uma peça fundamental no xadrez da ABC

Apesar de abrandarem significativamente, os números da série permaneceram extremamente elevados para o contexto televisivo atual e, acima de tudo, asseguraram à ABC um impulso significativo às terças-feiras, um dia em que o canal tem ficado para trás na corrida das audiências há vários anos. O último episódio transmitido marcou 10 milhões de espectadores e 2.5 pontos de rating.

Por isso mesmo, Roseanne tornou-se uma peça de grande valor para o canal da The Walt Disney Company. Os executivos da ABC garantiram logo no dia 30 de março mais uma temporada da série.

A 15 de maio, a ABC apresentou aos anunciantes a sua grelha de programação para a próxima temporada, com Roseanne a ser cabeça de cartaz. Era a nova galinha dos ovos de ouro, que iria ajudar a lançar novas comédias ou a consolidar outras mais veteranas.

3. Uma criadora (e protagonista) que coloca tudo em causa num único tweet

Foi na manhã de terça-feira desta semana que tudo mudou. A atriz publicou no Twitter, em resposta a um thread anti-Barack Obama, uma piada racista a envolver Valerie Jarrett, uma assessora do antigo Presidente. Disse que Jarrett seria aquilo que aconteceria se “a Irmandade Muçulmana e o Planeta dos Macacos tivessem um bebé”.

As reações foram rápidas e em crescendo. Wanda Sykes, uma consultora para a série, foi a primeira a manifestar-se, dizendo que não faria parte da próxima temporada. Seguiram-se críticas da colega de elenco Sara Gilbert. Poucas horas mais tarde, o próprio canal ABC anunciou que cancelou a sua encomenda daquela que seria a 11.ª temporada da série e que também não iria submeter Roseanne para consideração aos prémios Emmy.

Várias vozes celebraram a decisão de Channing Dungey, Presidente da ABC. Incluiram-se aqui a produtora Shonda Rhimes, ou as atrizes Viola Davis (How To Get Away With Murder), Bellamy Young (Scandal), e a colega de elenco Emma Kenney (Shameless). Contra a decisão esteve Donald J. Trump, que entendeu ter sido feita por motivações políticas, já que a criadora é republicana.

4. Com cancelamento, ABC procura à pressa uma nova estratégia de programação

Após a tempestade de relações públicas de terça-feira, a ABC viu-se perante um buraco no horário que necessita urgentemente de preencher, antes que os espaços de publicidade comecem a ser vendidos para a próxima temporada televisiva. Note-se que essa venda tem sempre por referência o valor expectável de audiência de cada programa; o de Roseanne seria dos mais elevados.

Um dos cenários em cima da mesa passa por trocar de dia uma comédia como American Housewife, para que seja uma série já consolidada a servir de âncora para as terças-feiras do canal.

Outra possibilidade em consideração passa por criar uma nova versão de Roseanne, que exclui a personagem protagonista, mas mantém partes ou a totalidade do relativamente grande elenco que compõe a comédia. É expectável que a ABC apresente uma solução até ao final desta semana.