Até dia 27 de maio, o palco do Teatro Camões, em Lisboa, foi inundado de coisas vermelhas, de corridas e por uma luz diferente. A Companhia Nacional de Bailado (CNB) interpretou duas peças de Ambra Senatore, Passo e Toccata e Fuga.

Ambra Senatore

Diretora do Centre Chorégraphique National de Nantes, em França, desde 2016, Ambra Senatore é coreógrafa e performer de nacionalidade italiana.

Passo

Foto: Bruno Simão / CNB
Ambra Senatore durante os ensaios na CNB

O foco do seu trabalho é um exame da vida, do quotidiano, do dia a dia, criando discrepâncias que conduzem a uma ficção dos gestos e a uma performatividade da dança. Para questionar o enquadramento e os limites da narração, o corpo e o movimento acabam ser abstratos e por esbater os limites entre as disciplinas e os géneros.

Com surpresas e pontos de vista inesperados, a coreógrafa italiana evoca o cinema, onde a composição, os detalhes e as sequências se transformam em ferramentas de uma montagem maior, de algo que transcende a coreografia.

Ambra Senatore conta já com coreografias como Passo (2010), A Posto (2011), John (2012), Arigna Rossa (2014), Quante Storie, Pièces (2016) e Scena Madre (2017), nas quais se encontra o intuito de abordar o coletivo e criar laços entre as pessoas e os corpos que habitam o palco.

Passo

De vestido azul, com peruca e sapatos de salto alto pretos, uma bailarina, figura feminina, está já em palco, enquanto os espetadores se vão acomodando na plateia.

Passo

Foto: Bruno Simão / CNB

Depois de começar a deixar o corpo respirar, de se libertar da tensão dos olhos sentados no público, o corpo vai dançando ao som da respiração, sem qualquer acompanhamento musical, sem mais nada, só respiração e movimento. Mas, quase em busca da perfeição, como se não fosse ainda bem aquele movimento que procura, descalça os sapatos. Respira fundo, coça o nariz, tosse e continua onde parou, onde deixou o movimento anterior. Continua como se nada a tivesse parado, nem mesmo os sapatos.

Passo

Foto: Bruno Simão / CNB

Voam vestidos azuis, voam.

Buscam-se os passos certos, os que nunca se encontram, os que a vida se encarrega de esconder. O espectador vê correr diante dos olhos um exercício de aperfeiçoamento, um escavar na pedra – quedas e dessincronismos, repetições.

Passo de pausa

Voam vestidos azuis, voam.

Voam vestidos para surgirem as pausas. Vai e vem a música, quase invisivelmente, para surgirem as pausas. Saem e entram as cinco personagens femininas (duas delas representadas por homens) para surgirem as pausas.

Os vestidos voam quando as figuras saem de cena, para logo depois voltarem aos passos do palco, onde ficou a pausa. É esta pausa, este erro evidente, este deixar parada a vida, que cria o ritmo da peça.

Passo

Foto: Bruno Simão / CNB

Lima-se o movimento, o espaço e o tempo. Lima-se tanto que se pára a cena e se sai dela e do movimento que se compunha para encontrar a música perfeita. Lima-se o movimento perfeito que nunca chega, que nunca se alcança. Lima-se o mo(vi)mento quando cai uma peruca que não devia ter caído, lima-se através da repetição o movimento que não quer vir em condições. Dá-se um passo e assume-se a pausa, o erro que não quer calar-se.

Passo de e em grupo

E até nos movimentos umas das outras, as figuras procuram os seus próprios movimentos. Imitam-se umas às outras, ligando-se. Assume-se a cópia, como cópia, para depois se correr a buscar um passo diferente, o próprio ou aquele que se sabe de cor (no coração). Assume-se tanto a cópia que se perde, entre braços e pernas, o original. Qual era a língua primeira da qual se estava a traduzir – o movimento?

É este um jogo de procura: do passo, individual ou coletivo. Descobre-se sempre, ao longo da vida, a opção de ir por aqui ou por ali, de escolher o bem ou o mal, ir ao encontro da outra pessoa ou não, de ir sozinho ou acompanhado, atrás ou à frente de alguém, fazer igual ou diferente.

Voam vestidos azuis, voam. Não fossem as pessoas todas diferentes e o público perder-se-ia nas perucas e nos vestidos azuis que constroem figuras iguais, uniformizando os movimentos e as escolhas, criando um sistema, uma regra, um passo – que se busca.

Passo vermelho

Até que se chega à cor, o vermelho (rosso, em italiano). Contraste com o azul dos vestidos que se ouve e que faz uma e outra figura correr à plateia à procura de vermelho, de objetos que choquem com os movimentos iguais que esboçam. Servem estes objetos coloridos como objetos propriamente ditos, numa busca incessante pelo movimento (com ou sem objetos vermelhos em mãos).

 

No final, voaram de vez os vestidos azuis, as perucas, as repetições. No final, já são todos eles próprios, cada um com a sua cor, o seu cabelo, os seus movimentos e os seus passos.

Passo

Foto: Bruno Simão / CNB

Toccata e Fuga

Os focos de luz estão a descoberto, as coulisses retiraram-se e um corredor coberto de fumo surge no palco. Veem-se aviões, ouvem-se bailarinos a correr. Ouvem-se aviões, veem-se bailarinos a correr. Bailarinos. Bailarinos a andar lentamente, bailarinos assutados, a correr ou a andar naturalmente, sem pressa. Veem gritos, ouvem-se passos.

São muitos, são muitos, perdem-se os olhos do públicos em toda aquela multidão. E são muitas músicas, muitos sons (e bem diferentes), os nossos ouvidos perdem-se também.

Esta é uma peça sobre a vida em comunidade, sobre a vida que se encontra e desencontra, uma vida de fragilidade e dúvida. Esta é uma peça sobre os movimentos do quotidiano que tomam forma e ganham a aura de movimentos de dança – a dança dos dias.

Toccata e Fuga, tal como os dias, tem muitas camadas, requer uma atenção cuidada do público. A dança vira-se para as pessoas que a dançam, para os olhares que se trocam, para um jogo de “toca e foge” que se estabelece. Escreve-se assim uma história. Delineiam-se os passos que se querem percorridos. No entanto, há aqui espaço para quase escapar aos próprios passos, como se, realmente, se tocassem os passos marcados, para depois deles se fugir.

Passo

Foto: Bruno Simão / CNB

E tal como em Passo se deu lugar e se ampliou o erro, nesta peça ainda se vai mais longe, ironiza-se o erro. Este erro chega a provocar risos na plateia, mas são eles risos com duas caras. É que vê-se a vida espelhada no palco, vê-se a dimensão ampla que a vida tem: ou vai ou fica, ou toca ou foge, ou ri ou chora, ou bom ou mau, ou passo certo ou erro.

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