Arrested Development está, uma vez mais, de regresso. A primeira metade da quinta temporada estreou ontem, 29 de maio, na Netflix. A segunda parte chegará no final de 2018.

Arrested Development é um caso raro, senão inédito, na televisão norte-americana. Numa era de resgates de séries, de cancelamentos, de renovações, de spin offs, de prequelas e sequelas, esta série não deixa de se afirmar como um caso particular.

A produção de Mitchell Hurwitz estreou em 2003 na FOX e esteve no ar durante três temporadas. Foi cancelada em 2006 sem grande pompa e circunstância. Nesta altura, tinha já vencido dezenas de prémios, incluindo diversos Emmy. No início de 2000 havia uma dinâmica muito diferente em termos de políticas de cancelamento. Pouco público era sinónimo de fim, fosse esta ou não uma comédia aclamada muito à frente do seu tempo.

Sem grande surpresa, a série rapidamente se tornou uma referência no registo da sitcom do século XXI. A sua narrativa, centrada em torno da família Bluth, das suas idiossincrasias, egoísmos e egos gigantescos conseguiu atingir um importante feito. O de contar uma história absurda e inverosímil, com personagens com os quais é difícil criar empatia, mas ainda assim capaz de nos seduzir e enfeitiçar.

O elenco de luxo, composto por nomes que se viriam a afirmar gigantes (ou já o eram), também ajudou a imortalizar a série. Falemos de Jason Bateman, de Michael Cera, de Will Arnett, de Portia de Rossi ou do sempre irrepreensível Jeffrey Tambor. A todos estes componentes, associava-se a invulgar narração não participante por parte de Ron Howard, que acabou por fazer uma perninha como ele próprio.

Na era do resgate de êxitos do passado, não é surpreendente que, por fim, um conteúdo injustiçado como Arrested Development, tenha encontrado, em 2013, uma nova casa com a Netflix. Contudo, a premissa inicial já se tinha concretizado. A da demanda de Michael pela libertação do seu pai, George Bluth Senior, e a recuperação dos negócios da família,  congelados no âmbito do seu bizarro processo jurídico.

De certa forma, e apesar desta série ter sido cancelada no seu auge, esta quebra temporal acabou por funcionar desde logo como um factor contra um retorno orgânico. A quarta temporada tanto dividiu a crítica como o público, que entretanto passou a ver na comédia um fenómeno de culto.

A blast from the past

Esta quinta incursão no universo dos Bluth, lançada em duas metades na Netflix, pretendia manter intacto o espírito original das primeiras temporadas. É possível argumentar que o fez em demasia. Tantas são as referências, as frases de outras seasons que são repetidas, as circunstâncias reinventadas com poucas alterações, as pontes claras entre passado e presente. Tanta é a necessidade de apontar e referenciar, que esta nova experiência pouco fresca parece. É uma viagem rumo à nostalgia, quando podia ser tanto mais.

Desde logo, existe uma lógica de continuidade enorme no que diz respeito a estes constantes revivals. Ora, esta coesão é positiva e extremamente negativa em igual parte. Se por um lado nunca sentimos que a história se tornou disconexa, também não parece ter respirado ou evoluído muito desde que vimos os Bluth pela última vez, há 5 anos.

Michael e George Michael estavam ocupados com aquele que foi o pior enredo de toda a série. A relação simultânea que mantiveram com a actriz Rebel Alley (interpretada por Isla Fisher). Um elemento de conflito que criou mais entropia do que momentos humorísticos.

Ao entrar na quinta temporada, estamos ainda em 2014, sem qualquer salto narrativo. Tal implica que a rixa entre pai e filho não está ainda dada por terminada, e passamos grande parte do tempo ocupados com esta resolução. Uma que gostávamos de já ter visto para trás das costas.

Quanto ao resto da família, continua tão hilariante quanto sempre foi. Com especial destaque para Buster e Maeby, talvez as duas cartas mais fora do baralho. Maeby envolve-se em peripécias impensáveis que acabam por compensar algumas questões menos positivas do seu regresso, nomeadamente a sua relação com George Michael. Embora gostemos sempre de recuperar o seu forte laço, o vai não vai de “vamos beijar-nos para lhes ensinar uma lição” já não resulta agora que são ambos crescidinhos.

Para viver à altura do nome da série, “arrested” (já que o “development” está mesmo fora) apresenta-se na forma de um Buster na cadeia. Este é o maior trunfo de uma temporada que peca pela existência de muito poucos momentos narrativos interessantes. Os arcos prolongam-se, ecoa a noção de “muita parra e pouca uva”.  Daqui se excluí, claro, um Buster a “espancar” skinheads e a chamar recreio ao momento recreativo da cadeia.

É sempre bom ver e rever os Bluth, que mesmo num momento mais baixo proporcionam momentos humorísticos de topo, superiores aos da maioria das comédias norte-americanas. Assim, nunca diremos não aos salva vidas atirados a este conteúdo ao longo dos anos.  Se teria sido melhor um “run” orgânico, por exemplo, digamos de 2003 a 2008? Talvez, mas o tempo não volta atrás e esta disfuncional auto-proclamada “família do ano” promete não se despedir tão cedo dos seus fãs.

Aqui ficamos, à espera da próxima metade da quinta temporada de Arrested Development.