Wide Awake!: a paciência dos Parquet Courts está a esgotar-se

Os Parquet Courts são Andrew Savage, Austin Brown, Sean Yeaton e Max Savage, naturais do Texas. Desde 2011, aquando do lançamento do seu primeiro álbum, American Specialties, que a banda norte-americana apresenta um reportório musical eclético, recheado de punk, indie rock e garage.

A 18 de maio de 2018 surge Wide Awake!, o sexto álbum do grupo, publicado pela Rough Trade e produzido por Danger Mouse. A composição, como de costume, esteve ao cargo de Andrew Savage e Austin Brown, os guitarristas e vocalistas da banda.

Capa de Wide Awake!, feita por Andrew Savage (via Rough Trade)

Após dois anos sem trabalhos a solo (em 2017 lançaram Milano, a par com Daniele Luppi), Parquet Courts voltam e estão mais acordados que nunca. No entanto, este acordar não se deu de repente. Nos primeiros lançamentos, como Light Up Gold, abraçam a procrastinação e o “existir por existir”. Em Human Performance, o penúltimo disco, começam a dar sinais de vida com um trabalho mais ambicioso, quer musicalmente, quer a nível lírico.

Com Wide Awake!, os norte-americanos oferecem um livro de anotações críticas, zangadas e diretamente direcionadas a uma sociedade que consideram individualista, opressiva e injusta. Se antes andavam a brincar com pistolas de água nas tardes preguiçosas de verão, agora estão a mexer no gatilho de uma Colt. 45 no meio de Times Square – e estão prestes a disparar.

“Collectivism and autonomy are not mutually exclusive

Those who find discomfort in your goals of liberation will be issued no apology

And fuck Tom Brady!” (Total Football)

Total Football é a primeira música de Wide Awake! e deixa logo em pratos limpos as intenções do álbum. Cheios de ritmo e velocidade, os Parquet Courts marcam um alvo nas costas da atual sociedade norte-americana e assinam uma declaração de guerra contra tudo o que os chateia.

A expressão “total football”, explica o Genius, ficou famosa por causa da seleção holandesa de futebol de 1974 e designa uma tática em que qualquer jogador pode jogar em qualquer posição. Tal adequa-se ao tema no sentido em que este gira em torno da ideia de que uma sociedade deve estar junta para conseguir ser livre. Eles próprios o cantam: “power resembled if we are assembled”. Total Football é um grito subtil e cheio de referências. É um ótimo pontapé de saída para o álbum.

As faixas seguintes chamam-se Violence e Before the Water Gets Too High e marcam uma viragem no tom da banda, tanto em decibéis como em tom de voz. Violence é um ensaio de quatro minutos sobre como a violência faz parte do quotidiano. Before the Water Gets Too High expõe um cenário apocalíptico que a humanidade ignora com as distrações mundanas. Ambos os temas soam mais a textos literários do que propriamente a músicas rock.

Depois surge Mardi Gras Beads, uma balada cantada por Austin Brown e um dos singles do disco. Acompanhado por um forte sentimento de nostalgia, Austin canta devagar, sobre um amor vagabundo e frágil. Esta canção marca o ponto moody de Wide Awake!, que contrasta eficazmente com todo o rebuliço político presente no resto do álbum.

“In and out of patience

I just can’t keep it around

Most of mine’s been taken

Is there a finite amount?” (Almost Had to Start a Fight/In and Out of Patience)

Chega Almost Had to Start a Fight/In and Out of Patience e volta a velocidade. Andrew Savage explora os limites da sua paciência num tema que cheira a raiva, a punk e a nervosismo. A par com Total Football, mas separada pela letra bastante mais simples e direta, Almost Had to Start a Fight/In and Out of Patience revela o lado mais urgente dos Parquet Courts, que atuam de maneira arguciosa e crua. Pela perspicácia e uma mudança de ritmo inteligente, esta música é certamente uma das melhores do disco.

O volume volta a baixar com algumas das faixas seguintes, o que sublinha a natureza bipolar de Wide Awake!. Freebird II, Back To Earth e Death Will Bring Change são músicas mais calmas que contrastam com a rispidez do resto do álbum. Esta última, Death Will Bring Change, é talvez a que merece mais atenção: uma música devastadora sobre a morte da irmã de Austin Brown.

“Before the grief, I found peace in my selfish ways

My yesterdays were erased

Death will bring change” (Death Will Bring Change)

Dos restantes temas, o que mais merece destaque é o single que dá o nome ao álbum. Wide Awake é bastante simples de perceber: são os Parquet Courts a gritar que estão acordados. Entre “mind so woke ‘cause my brain never pushed the brakes” e “movin’ and groovin’ and I ain’t ever losin’ the pace”, Andrew Savage sublinha tudo o que o álbum já evidenciava – a banda continua atenta, de olhos bem abertos, a tudo o que se passa à sua volta. A música em si, com um ritmo aliciante e um dos riffs de guitarra mais interessantes de todo o trabalho, é das melhores de todo o disco e é digna de o batizar.

Wide Awake! surge numa fase essencial da carreira dos Parquet Courts. Cada vez mais a banda tem atenção mediática e público a acompanhar todos os seus passos. Seja pelas baladas mais melódicas e introspetivas, pelo ritmo incansável e agressivo, ou pela riqueza lírica presente em todas as músicas, o álbum marca um ponto de viragem importante no reportório dos norte-americanos. Demonstra atitude, evolução e maturidade. Tudo isto sem perder a diversão que os caracteriza.

Avaliação: 7.5/10

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