Terminado o doloroso processo de renovações e cancelamentos de séries e definidas as grelhas de programação para a próxima temporada, já é possível identificar tendências televisivas para o futuro. O caso da Fox é especialmente revelador de um canal num processo de mudança profunda.

A empresa mãe deste canal – a 21st Century Fox – está a iniciar um processo de venda de ativos à Walt Disney Company. Do que sobrar, vai nascer uma nova empresa: a New Fox. Ela irá incluir um número limitado de ativos da primeira, nomeadamente os canais Fox, Fox News, Fox Sports 1 e Fox Sports 2, divorciando-se do estúdio de televisão que produz muitas das séries que o canal transmite atualmente – 20th Century Fox Television – que passará a ser propriedade da Walt Disney Company.

Esta mudança, aparentemente simples, tem impactos na forma como qualquer canal americano gere a sua grelha, já que é mais vantajoso do ponto de vista económico ser proprietário de um programa do que alugá-lo a outro estúdio.

A Fox já se está a adaptar a esta nova realidade corporativa. Iniciou uma redução da sua dependência face a produtos de outros estúdios de televisão, incluindo da própria 20th Century Fox Television, começando por aqueles que têm menores audiências. Ao mesmo tempo, parte da verba que virá da venda de ativos à Walt Disney Company começou a ser canalizada para a compra de direitos desportivos.

1. Nova orientação expulsa comédias de nicho do canal

Um diagnóstico às audiências da grelha da Fox na temporada 2017-2018 permite facilmente concluir que o seu calcanhar de Aquiles foi constituído pelas séries de comédia.

O canal tem sido associado a uma marca de comédias de nicho. Mas essa realidade vai mudar significativamente já neste outono. À exceção das comédias de animação Bob’s Burgers, Family Guy e The Simpsons, todas as restantes desapareceram da grelha.

Esta limpeza não poupou The Last Man on Earth, LA to Vegas, New Girl e The Mick, todas canceladas. Brooklyn Nine-Nine teria sofrido o mesmo destino, mas foi salva pela NBC. Sobra Ghosted, ainda sem decisão formalmente tomada, mas cujas probabilidades de continuar são extremamente baixas.

As novas comédias a estrearem a partir de setembro abandonam esse registo de nicho. Fez particular repercussão o resgate de Last Man Standing, cancelada em 2017 pela ABC e salva agora pela Fox. É protagonizada por Tim Allen, no papel de um republicano com visões conservadoras.

Não é coincidência isto acontecer depois de Roseanne, também centrada numa personagem com uma posição política conservadora, ter registado a maior audiência de estreia desta temporada. E também não é coincidência acontecer numa Fox que é acompanhada pela Fox News, o canal de notícias mais pró-Republicano do país.

2. Compra de direitos desportivos da NFL para 2018-2023

As quintas-feiras do outono de 2017 foram partilhadas entre Gotham e The Orville. Mas, a partir deste ano e pelo menos até 2023, será o futebol americano a dominar o jogo. A Fox assinou com a National Football League (NFL) um contrato que lhe garante a transmissão do Thursday Night Football.

Este pacote de jogos será emitido sempre entre setembro e dezembro, num total de 15 jogos. De acordo com o TV Line, o valor anual deste contrato rondará os 550 milhões de dólares. Nos últimos anos, esses direitos de transmissão foram partilhados entre CBS e NBC.

3. WWE SmackDown Live vai para a FOX em 2019

World Wrestling Entertainment’s SmackDown Live, um programa de wrestling profissional, estreou-se em 1999 e tem sido um programa com grande adesão nos canais de cabo norte-americanos. É atualmente transmitido pelo canal USA Network mas, a partir de outubro de 2019, vai migrar para a Fox, ocupando mais uma noite da sua programação semanal.

De acordo com o The Hollywood Reporter, o contrato tem a duração de cinco anos, para um valor total de mais de um bilião de dólares. WWE Raw ou Monday Night Raw, outro dos programas de wrestling profissional da chancela World Wrestling Entertainment, Inc., vai permanecer na USA Network.

4. O que pode vir mais por aí?

Como relatou o TV Line, os atuais CEOs da FoxDana WaldenGary Newman – garantiram que o status-quo iria manter-se na programação do canal até aos próximos seis a doze meses, período estimado para a concretização do acordo com a Walt Disney Company.

Os CEO’s afirmaram igualmente que, findo este período transitório, o canal passaria a ter cerca de 80% da sua programação composta por programas de desporto e programas ao vivo, com o remanescente a ser preenchido por programação de entretenimento.

Note-se que a venda irá dar à New Fox um encaixe de cerca de 44,7 mil milhões de euros, fornecendo-lhe um significativo capital para investir na sua própria programação.

Quer isto dizer que a Fox vai repentinamente cancelar todos os seus programas? Não. Mas a lista de séries que o canal vai transmitir continuará uma tendência de redução gradual e as únicas resistentes serão aquelas que conseguirem ter o público mais abrangente possível, como são os casos de Empire e da caloira 9-1-1. As restantes podem seguir o caminho de Lucifer – cancelada – ou de Gotham – renovada para uma pequena última temporada.