Sam Smith trouxe a Portugal a sua digressão mundial The Thrill Of It All Tour, na sexta-feira (18). O concerto na Altice Arena foi o último da tour europeia e o primeiro espetáculo do britânico como cabeça de cartaz — depois de ter ocupado o palco do festival NOS Alive em 2015.

Smith começa o espetáculo sentado numa cadeira, curvado sobre si mesmo e replicando a personagem que comummente surge na sua música: uma figura solitária e vítima de amores não correspondidos. O desgosto amoroso e o vício da nicotina perfumam a atuação de Burning, que considera ser a sua música preferida do novo álbum. “I have been burning ever since you left”, canta com pouca chama na voz.

O ambiente na sala faz lembrar uma congregação religiosa. A voz de Play veste-se com um conservador fato rosa-salmão que lhe dá um ar de pastor. As músicas estão despidas e reduzidas a baladas soul, e Smith é acompanhado por um trio de cantores gospel. Na plateia e nos balcões da arena, onde apenas existem lugares sentados, todo o público se levanta e balança enquanto bate palmas: numa versão pop de uma reunião da IURD.

O concerto é uma coletânea segura e monocórdica de músicas do seu disco de estreia, The Lonely Hour, e dos seus originais mais recentes. A familiaridade do tom taciturno de canções como Lay Me Down, Say It First e Midnight Train torna difícil reconhecer quando termina uma e começa a seguinte. “A minha música é um bocado depressiva”, desculpa-se “mas queremos que se divirtam muito.

Mais depressiva que divertida

Durante a hora em que o concerto decorre, Smith é bastante depressivo — embora sempre muito humilde e com algum charme. Como um menino bem comportado, faz pequenas vénias no final de cada música, ao receber os aplausos do público português.

Os melhores momentos da noite são a atuação de Writings On The Wall e a honestidade que imprime em HIM. A faixa-tema do filme Spectre, da saga James Bond, renova o tom do alinhamento com o seu arranjo dramático. “O quão dramático foi isto?”, pergunta no final da canção. Muito dramático se comparada com os outros segmentos do concerto.

Nos cânticos de HIM, o cantor debate-se com o equilíbrio entre a fé religiosa e a homossexualidade. “It is him I love”, confessa. “Holy father, judge my sins I am not afraid of what they’ll bring”. O momento é o mais honesto e corajoso da noite e é acompanhado pelo içar de algumas bandeiras LGBT na plateia. “Amor é amor”, declara. No final do número, as luzes apagam-se e lasers colorem o teto da arena com o arco-íris do orgulho.

TWENTY – SIX

Uma publicação partilhada por Sam Smith (@samsmithworld) a

Um pouco mais de coragem

Para além de marcar o último passo da digressão europeia, a noite de sexta-feira foi também a última  que viveu com 25 anos. “Daqui a duas horas é o meu aniversário”, afirmou. E brincou: “Vou comer tanto bolo.” O concerto terminou antes da meia-noite, portanto Lisboa não teve oportunidade de lhe cantar os parabéns. Ainda assim, o cantor celebrou o 26.º aniversário na cidade.

Numa publicação no Instagram, no sábado, partilhou uma fotografia com um vestido de lantejoulas e a legenda “VINTE E SEIS”. As lantejoulas não brilharam durante o concerto e a irreverência de um artista que declarou o seu género não-binário o ano passado não apareceu em palco. No lema da viciante Too Good At Goodbyes, estamos prontos para dizer adeus a este Sam enfadonho e que não arrisca com receio de alienar alguma parte da sua legião de fãs e esperamos que, nos próximos passos na sua carreira, o jovem venha a tornar mais verdadeira a relação entre a sua identidade e a sua arte.