Isto é tudo político – É a frase que se ouve quase sempre no final de um Festival da Eurovisão. Mais de sessenta edições e uma leitura rápida provam que não, não é tudo político. E não é preciso ir mais longe do que a vitória portuguesa em 2017, que de político não teve absolutamente nada. Mas não sendo a Eurovisão exclusivamente política, é muitas vezes também política. Porque a política alastra a tudo – à vida de todos e de cada um, à cultura, às canções.

Toy, de Netta, vencedora em Lisboa, não é uma canção política, mas o peso da bandeira que carrega não dá grande margem para separar as coisas. Em vésperas do aniversário de Israel, Netta disse em palco “até para o ano em Jerusalém!” e o primeiro-ministro Netanyhau acenou que sim. A decisão não está tomada mas dificilmente o festival não vai para Jerusalém pela terceira vez, depois de o receber em 1979 e 1999.

Estranho à chamada “Europa geográfica”, Israel entrou na Eurovisão no Luxemburgo em 1973, e fê-lo sem oposição nem estrondo – especialmente quando comparado com a entrada da ditadura portuguesa em 1964, com uma invasão de palco, ou da organização levada a cabo pela ditadura espanhola em 1968, que a Áustria boicotou.

O contexto era, ainda assim, pouco pacífico. A balada romântica da israelita Illanit foi cantada sete meses depois do massacre dos atletas olímpicos de Israel nos Jogos Olímpicos de Munique, e seis meses antes do início da guerra de Yom Kippur, com Egito e Síria.

אי שם” – “Nalgum Lugar”, em português – ficou em quarto lugar, impressionante para uma estreia, e trouxe a novidade de uma maestro. A delegação israelita fez-se acompanhar de um poderoso dispositivo de segurança e durante décadas correu o rumor de que Illanit tinha usado um colete à prova de bala durante a atuação – algo desmentido anos mais tarde pela própria, mas que criou uma aura importante nesse momento de batismo eurovisivo.

A estreia israelita é representativa da convulsão provocada pelo país no concurso, mesmo que o discurso de Israel na Eurovisão tenha seguido rumos tão diferentes como as posições dos seus líderes.

Em choque com o discurso que hoje conhecemos do governo israelita está, por exemplo, a canção que o país levou ao concurso em 1974 –  “נתתי לה חיי” (“Eu Dei-lhe a Minha Vida”, em português), cantada pela banda rock Kaveret, espécie de Beatles israelitas. Tem uma letra de imagens misteriosas e pouco óbvias, ainda que com frases mais certeiras: “O que veio primeiro – o ovo ou a maçã? / Um diz que está a ficar sem céu / Quando existe ar suficiente para um país ou dois”. Um dos vocalistas esclareceria depois que a canção era uma crítica à então primeira-ministra israelita Golda Meir (“Talvez depois nos demos todos bem / Ela há-de querer, e ultrapassaremos isto”) e à sua recusa da paz com os vizinhos árabes. Meir demitir-se-ia cinco dias depois desta atuação.

O tom foi semelhante em 1976 – “אמור שלום ” (“Diz Shalom”, em português, com Shalom a poder ser Olá e Paz) foi cantada por três jovens vindas do exército israelita, e faz um convite: “Vem, vem hoje / Ainda aqui estou para dizeres olá / Diz olá”, “Vem agora, dá-me a tua mão / Tenho estado só há quase 30 anos”. O estado de Israel tinha, em 1976, 28 anos e vivia ainda numa relação hostil com os países vizinhos.

A mesma lógica foi usada em 2000 pelo grupo humorístico PingPong com “שמייח” (“Feliz”), sobre uma israelita que está triste por estar longe do namorado de Damasco, a capital síria. Desta vez, as autoridades israelitas contestaram o tema. E o uso de bandeiras de Israel e da Síria em palco irritou especialmente o governo. Ficaram em antepenúltimo e foram desonrados pela televisão de Israel, que lhes cortou o financiamento. A atuação, que envolvia simulação de atos sexuais com pepinos, não ajudou.

Para algo completamente diferente, a primeira das quatro vitórias israelitas fez-se em 1978, com a disco orquestral de Izhar Cohen em “אבניבי” (lê-se “A-ba-ni-bi”, traduz-se qualquer coisa como “Amo-te”). Absolutamente inofensiva, a canção foi censurada em vários países árabes que, não participando, transmitiram o festival de Paris – a Jordânia, em particular, mostrou imagens de flores durante os 3 minutos da atuação israelita, e quando se tornou evidente que Israel venceria a votação, fechou a emissão a anunciar a vitória da Bélgica.

A coroação de Israel significou que o Festival da Eurovisão se deslocou o mais para sul que alguma vez tinha estado, o mais para leste também – Jerusalém acolheu 19 países, ou seja, todos os que já tinham participado na Eurovisão à exceção de Jugoslávia, não-alinhada e com simpatia pelos países árabes, e da Turquia, país que até reconhecia Israel como estado, mas que sofreu a pressão dos vizinhos árabes.

Marrocos estreou-se no Festival em 1980, quando teve a certeza que Israel não participaria, e a Tunísia só não participou em 1977 por não querer partilhar o palco com os israelitas. O Líbano quis participar em 2005, mas foi impedido por não aceitar transmitir a canção de Israel desse ano.

Vencendo mais duas vezes até 2018 – com “ הללויה” (“Aleluia”, 1979) e “דיווה” (“Diva”, 1998) – Israel foi também responsável por um sub-género da canção da eurovisiva, muito próximo daquilo que se chama de “festivaleiro”. Números com ritmo e coreografias marcaram sobretudo os anos 80, e com letras muitas vezes referentes ao orgulho das tradições judaicas e da pátria – “חי” (“Viva”), de Ofra Haza, em 1983, é um exemplo, com uma letra sobre a resistência nas adversidades : “Tenho muitos espinhos, mas também muitas flores / e tenho inúmeros anos pela frente”, “Estou viva, viva, viva / A Nação de Israel está viva”. O tom é menos conciliador mas ficou em 3.º lugar, tal como “כאן” (“Aqui”), de 1991 – “Aqui também estás comigo e com os meus milhares de amigos / Depois de dois mil anos, o fim da nossa errância”.

O novo milénio acabou com a escola “please like me” de Israel, dissolvendo-se nas mudanças com o televoto e das semi-finais. 2007 foi o ano mais confrontador de que há memória – Push The Button, lançada no momento de plenas suspeitas de um ataque nuclear iraniano, é uma letra brutal que se vira inclusive para o passado de Israel na Eurovisão: “Talvez seja demasiado duro / Devíamos cantar canções sobre palmeiras / Canções desertas sem bandeiras / Estou viva, viva, viva / E se continuar a ser assustador, só aí direi: / I’m gonna push the button!”. Não se qualificou para a final.

Dois anos depois, Israel levou uma dupla inédita. Noa, israelita, e Mira, árabe israelita, cantaram There Must Be Another Way em hebreu e árabe. A escolha acabou por não satisfazer nem israelitas nem árabes, que consideraram a canção uma hipocrisia e uma limpeza de imagem – afinal de contas, Mira vivia em Tel Aviv e era casada com um judeu israelita. Identificar-se como palestiniana não serviu para ninguém, apesar da canção se apurar para a final – desde então, Israel não voltou a cantar sobre a paz, ou a guerra, ou os vizinhos.

É cedo demais para perceber como Israel irá receber o maior espetáculo televisivo do mundo. Os próximos dias, conturbados, são importantes mas não decisivos. A Eurovisão já se fez num país em guerra (2017, em Kiev, na Ucrânia), mas também já teve que fazer mudanças de última hora (em 1991, o festival passou de Sanremo para Roma pela proximidade dos conflitos nos Balcãs e da tensão no Golfo). E escolher Jerusalém não é um gesto novo, mesmo que possa parecer desafiante por estes dias. Em 2019 importarão, como importam sempre, as canções, e tudo o que elas vão querer dizer.