A versátil artista Janelle Monáe regressa à indústria da música com o seu terceiro álbum, Dirty Computer. O novo disco é uma aposta no conceptualismo à semelhança do seu primeiro álbum, The ArchAndroid, contrariando a abordagem menos ambiciosa de The Electric Lady. Através de R&B contemporâneo, Janelle tem abordado temas relevantes a nível social, nomeadamente feminismo, racismo e até afrocentrismo. Agora, com colaborações de Grimes, Brian Wilson, Zoë KravitzStevie Wonder Pharrell Williams, a cantora, produtora e atriz americana foca os seus esforços em regressar empenhada às causas que considera relevantes com uma maior variedade de inspirações ao seu dispor.

A natural imperfeição humana

Acompanhado por um filme narrativo, Dirty Computer tem como conceito base o ato de reconhecer e aceitar as diferenças que há em cada indivíduo. Em jeito de analogia, Janelle compara esta realidade com a da tecnologia, como se nós possuíssemos vírus e bugs. No entanto, não apresenta uma necessidade de os corrigir, aliás, questiona a necessidade de modificar algo natural e apela à comunicação dentro de uma sociedade de modo a que se chegue a um verdadeiro consenso: será que as nossas falhas e diferenças serão realmente um aspeto negativo e, quer sejam quer não, serão elas suficientes para nos dividirmos? Janelle mostra crer que não.

Sendo um álbum com uma forte marca de idealização, e como em qualquer álbum conceptual, há a necessidade de manter a mensagem nuclear sempre em consideração ao longo da experiência. Infelizmente, a ambição de Janelle sofre com esta prática. Numa perspetiva geral, Dirty Computer sofre de crises de identidade graças à sua inconsistência temática.

O conflito entre o conceito e a música

Após a primeira faixa, a homónima Dirty Computer, uma simples mas eficaz introdução atmosférica ao universo do disco acompanhada por Brian Wilson, Crazy, Classic, Life esboça o desejo de se viver numa sociedade repleta  de felicidade, liberdade e ausente de qualquer tipo de preconceito ou juízo de valor que discrimine indivíduos. O problema da inconsistência temática supracitada é rapidamente aparente já nesta instância, sendo que as vontades de Janelle ilustradas em versos como “I love it when we smell the trees/ I just wanna party hard/ Sex in the swimming pool/ don’t need a lot of cash/ I just wanna break the rules” tornam difícil levar a sério críticas que mais tarde são apresentadas à brutalidade policial e discriminação com base na raça (“Police like a Rambo/ Me and you was friends but to them we the opposite/ The same mistake i’m in jail, you on top of s***“). Desligada da do fio condutor do álbum, Crazy, Classic, Life até tem o seu charme convidativo e divertido. Todavia, não deixa de ser um momento que acaba por danificar a urgência do álbum e que dá a sensação de estar protegido pelo carisma de Janelle.

Este caso serve de exemplo para outros momentos no álbum, como em Screwed I Got the Juice (com Zoë Kravitz), nos quais Janelle explora com maior intensidade atitudes juvenis de indiferença e espontaneidade que já são exaustivamente comuns em hits de rádio.

Screwed brinca de modo pouco cativante com a ideia de associar esta atitude à realidade social atual, num mundo que se encontra em decadência de valores. Trump e a injustiça de género relativamente à diferença salarial no contexto profissional são abordados de forma crítica. Contudo, já é tarde demais para se sentir qualquer tipo de relevância no que é dito. Musicalmente, é mais interessante do que a sua letra, ao contrário de I Got The Juice, cuja existência parece ser exclusivamente justificada por ser uma parceria com Pharrell Williams, que se descartaria facilmente do alinhamento de Dirty Computer.

Fugindo a esta atitude de indiferença e optando uma de brincadeira e flirtTake A Byte sofre por ser contribuição desnecessária caso esqueçamos que é agradável ao ouvido e não faz mais para além disso.

Não contrariando o conceito base do álbum, temos I Like ThatMake Me Feel e Don’t Judge Me que representam a auto-aceitação de Janelle, tanto a nível sexual como pura e simplesmente pessoal.

Make Me Feel  é sem dúvida uma beldade. O seu refrão tem uma atitude e sonoridade positiva que são genuinamente contagiantes. Alegadamente, Prince contribuiu na conceção desta música.

I Like That poderia ter aproveitado melhor a sua estadia já que as influências trap transparecem uma certa falta de inspiração que caracteriza a música como inconsequente.

Estabelece-se uma conversação entre Janelle e a sua audiência em Don’t Judge Me. Há honestidade no receio da artista em haver divergência entre a imagem que expõe e a imagem que tem de si mesma. O seu lindo e suave instrumental faz com que Don’t Judge Me mereça atenção.

Contrariando a tendência geral do álbum, a eficácia da execução das ideias de Janelle é audível em três canções: Django JanePynk So Afraid.

Não há qualquer divergência em Django Jane que esconda a mensagem feminista de Monáe, sublinhando o papel da mulher de raça negra na sociedade e como este é merecedor de reconhecimento, quer pelo seu passado, quer pelo seu presente. Nesta ocasião, o tratamento de rap que Django Jane recebe é competente e tem um flow bastante entusiasmante. É este o estado de espírito que devia preencher o álbum.

Através de Pynk é transmitida o que a cor de rosa representa para Janelle, desde o eufemismo do órgão sexual feminino até a uma mensagem de união e motivação vocacionada, mais uma vez, às mulheres. O amor próprio e orgulho feminino, não individual mas sim coletivo, está também presente em versos de Pynk: “‘Cause boy, it’s cool if you got blue/ We got the Pynk“. A participação colaborativa de Grimes nesta faixa é evidente e resulta lindamente, tal como aconteceu na primeira vez em que se juntaram em Venus Fly.

Os bugs que afetam os seres humanos encontram tempo de antena em So Afraid com a exposição dos medos e ansiedades de Janelle, em especial, no que diz respeito ao amor e ao ato de amar. Esta vulnerabilidade estranha um pouco, tendo em conta a confiança e prazer de Janelle em mostrar ao mundo ou ao seu parceiro romântico o que tem para oferecer, mas talvez esta inconsistência seja propositada… De qualquer das maneiras, é um ponto forte do álbum.

O ponto final de Dirty Computer é um ataque ao conservadorismo social nos Estados Unidos da América e aos seus valores tradicionais antiquados. Apelando à mudança e rejeitando o atual modelo americano, Janelle deixa em aberto as falhas do seu país com a confrontação à desigualdade salarial entre a mulher e o homem, o preconceito para com os membros da comunidade LGBT, a violência policial que particulariza a população de raça negra e a falta de oportunidades das classes mais pobres. Americans só funciona individualmente, tornando-se numa conclusão pouco satisfatória por não ir ao encontro com as ideias gerais do álbum e deixar uma sensação que é um fim que não merece existir.

A infeliz falta de seriedade

É com pena que se vê o potencial de uma artista como Janelle Monáe a limitar-se a si mesmo às barreiras que o Pop dá a ideia de não querer abandonar. Em teoria, Dirty Computer é uma imaginação interessante que na prática sofre devido ao descuidado da artista americana. Isoladamente, canções como Crazy, Classic, LifeScrewed ou Take a Byte até são decentemente agradáveis, no entanto, sob o contexto que pretende ser apresentado no álbum, pouco ou nada contribuem. É como se não houvesse a resistência à tentação de mergulhar em música cliché que glorifica de forma superficial e com uma indiferença ingénua a vida boémia e os jogos de flirt entre duas pessoas. Há uma carência de necessidade disto acontecer num álbum que pretende explorar a dinâmica humana, os seus erros e como lida e vive com eles individualmente e coletivamente, criando facilidade em haver uma grave perda de seriedade e de integridade intelectual.

O potencial de Janelle não é o único desaproveitado, visto que a participação de Stevie Wonder tem a mísera duração de quarenta e seis segundos e pouco faz para além de deixar uma simples mensagem de união.

Num álbum conceptual que negligencia o seu próprio propósito, resta-nos uma conjunto de músicas divertidas e inofensivas misturadas com um espírito crítico que fica demasiadas vezes no fundo da consideração artística e com o ocasional momento vulnerável e pessoal. Dirty Computer não consegue ser mais do que um seguro e simples produto do seu tempo que provavelmente passaria despercebido caso não fosse uma criação de Janelle Monáe.

Pontuação: 6.5/10