No palco do Teatro Camões, em Lisboa, até dia 5 de maio, a  Companhia Nacional de Bailado (CNB) interpretou Impromptus de Sasha Waltz.

A peça traz à luz, e à tona da água, o corpo. O corpo humano, o corpo nu, o corpo sujo e o corpo que se limpa.

Terra de baile

Já de cortina subida e a meia luz, o espetador senta-se na plateia. O palco, a terra que o bailado pisa, apresenta-se inclinado. Duas placas brancas ocupam o palco quase por completo. É inclinado este solo e é inclinada esta dança. Como cenário, vê-se uma placa ocre, um quadrilátero irregular.

Sobe à inclinação um bailarino que toma o silêncio como seu, como a sua música, aquela que lhe marca o compasso. O que se ouve são os seus passos, os seus movimentos mudos. Os pés na inclinação. Os pés. Os pés na terra. Braços retos e pernas retas. Os pés na terra.

Surge outro bailarino. Os dois exploram a terra, revolvem a terra, o ar, tornando os seus corpos a própria música dos nossos olhos.

Impromptus

Foto: Bruno Simão / CNB

Encontrando-se, estes dois bailarinos formam um corpo. Um no outro são um só. Um voa, enquanto o outro o sustenta, sem tocar nunca com os pés no chão e sem nunca emitir um som, tornando o silêncio desconfortável aos olhos do espetador. O que sustenta o voador, a base, sustenta um corpo composto por dois corpos: o seu e o corpo do voador. E não se ouve um gemido, nem um suspiro. Só se ouvem movimentos e linhas retas.

Impromptus

Foto: Bruno Simão / CNB

Quase como uma reação aos movimentos, a música surge timidamente.

«O corpo da dança vem primeiro, como se esquecido do que ouviu, faz-se em movimento que carrega vaga sombra musical, o corpo esquece ou faz por esquecer para ir além da dança e ser memória».

Sónia Baptista, Do Romance em Rasgo

Rasgando os movimentos e abrindo-os, a música preenche o silêncio, mas a dança não lhe obedece, não a guia. Obedece antes a música à dança, como se furiosa a dança se encontrasse para que a música lhe obedecesse.

Terra com linhas retas e poemas (de amor)

Os corpos tomam conta da inclinação, aceitando-a. Os corpos que dançam na terra desalinhada esticam-se. Esticam-se os corpos na terra esticada, aqueles corpos que se dançavam um ao outro. Esticam-se os corpos, formando linhas retas na terra reta. Linhas retas sobre linhas retas, ora paralelas, ora perpendiculares.

Dançam-se entre o som das teclas do piano e o silêncio imenso os corpos, criando outro som, outro compasso, o do poema dançado, o do romance que se dança. Este poema é pautado de desequilíbrio e de corpos que se equilibram, ora no silêncio, ora no som que emana do piano.

O equilíbrio nasce da conjugação dos dois corpos. Antes estavam desequilibrados, mas encontraram-se e agora são dois corpos que juntos se dançam e se tornam um só, um corpo de romance, de dança e de música. Um corpo de arte. Por que procura o bailarino equilibrar-se? (Por que procuram o homem e a mulher o equilíbrio?) E por que procuram dois corpos, que juntos se dançam, equilibrar-se como um só corpo? Que disciplina e que (auto)conhecimento. E não procurando o equilíbrio, caem. Cai o coração, perde-se o equilíbrio e estilhaça-se o coração dos amantes.

Ar de correria

E de dois, o espetador passa a ter um poema de sete corpos que se dançam uns aos outros. E correm, correm, correm sem fim, como se os passos corressem sozinhos.

Depois são um único corpo, um relógio que dá as horas certas. Sete ferramentas perfeitamente alinhadas, perfeitamente coordenadas, a trabalhar num equilíbrio que contrasta com o desequilíbrio que os dois corpos anteriores enfrentavam e que depois fizeram desaparecer.

Impromptus

Foto: Bruno Simão / CNB

Ar de improviso, ar com voz

O título Impromptus não vem do ar, apesar da música se propagar nele. Franz Schubert compôs uma série de oito peças de improviso para piano (e voz), em 1827. São estes impromptus que obedecem à dança daqueles corpos esticados.

A música é interpretada ao vivo. Sara Braga Simões dá a sua voz e Jill Lawson as suas mãos ao piano, enquanto a música corre atrás dos passos, ora apressados, ora demorados, dos bailarinos.

Impromptus

Foto: Bruno Simão / CNB

Como um lamento, a voz da cantora abre os braços dos bailarinos, tornando aquela dança um namoro: do espetador com o que está a ver e dos bailarinos uns com os outros. Um namoro porque ninguém desvia os olhos daquelas linhas, daquele amor sobre a terra da dança.

E também esta voz vai atrás dos passos de 14 pés, dos 7 corações, de tantos amores.

Água limpa (que eu calço)

Sem intervalo, a peça parece marcada por duas partes. A segunda começa com a entrada de dois bailarinos com galochas calçadas. E das galochas vem a ideia e o som da chuva, da água como limpeza do corpo. As galochas trazem água e soam a água. Ouve-se a água sem se ver.

Fogo que escorre

Sem demorar, os bailarinos começam a ser manchados por cores de fogo e, depois, de carvão. Depois da pureza da criação (do corpo), vem a descoberta do fogo, como metáfora dos males do mundo, da Caixa de Pandora que entreaberta fica.

Impromptus

Foto: Bruno Simão / CNB

E o fogo é sedutor (aquela luz). Dançamos nele, ficamos nele, queremos habitar nele. Somos o fogo do mundo. Queremos mais (nele e dele). E das galochas vem a ideia e o som da chuva, da água que deixa escorrer o fogo do mundo e o deixa marcado na terra (da dança).

Impromptus

Foto: Bruno Simão / CNB

Água limpa (que eu danço)

E da terra volta a renascer a ideia e o som da chuva, da água como limpeza do corpo, outrora sujo. Despem-se os corpos para se limparem do fogo do mundo, da poeira dos dias, e para se tornarem novamente na pureza dos dias, depois dos erros terem sido limpos e perdoados.

Esta água purificadora surge do lado direito da terra de baile, onde se lavam dois corpos femininos. Inquieto fica ainda um corpo, que dança a água pura, ainda com fogo do mundo no corpo, acabando por se resignar à água pura da terra de baile.

Sasha Waltz

Sasha Alexandra Waltz nasceu a 8 de março de 1963, em Karlsruhe. Coreógrafa e bailarina alemã, é a diretora da companhia de dança Sasha Waltz and Guests, assim como diretora artística do Berlin State Ballet, juntamente com Johannes Ohman.

A sua peça Impromptus foi estreada em 2004 na Schaubühne am Lehniner Platz, em Berlim, companhia para a qual criou, além desta, outras peças originais.

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