Quem diria que o Jim Halpert de O Escritório (2005-2013) tinha uma obra de terror dentro de si?

Não é o primeiro filme realizado por John Krasinski, depois de Os Hollars (2016) e Breves Diálogos com Homens Horríveis (2009); uma passagem de relevo na sua carreira terá também sido o assinar do argumento de Terra Prometida (2012) de Gus Van Sant, juntamente com Matt Damon. Sem dúvida, no entanto, o nome de Krasinski vai ficar a partir de agora primariamente associado a este Um Lugar Silencioso, que marca também por ser uma menos explosiva produção do rei das explosões em Hollywood, Michael Bay.

Ambientado num futuro pós-apocalíptico, em Um Lugar Silencioso uma família a recuperar de uma tragédia (Krasinski e Emily Blunt – também casados na vida real -, Millicent Simmonds e Noah Jupe) é remetida a viver em silêncio, dada a proliferação de criaturas misteriosas que caçam através do som; mantém-se relativa pacatez, até ao dia em que uma sucessão de erros são cometidos…

A premissa aqui é simples, não há que duvidar; o enredo fácil tão pouco tem twists, mais ou menos verosímeis, dignos de nota, como tantos exemplos do género gostam de disparar despropositadamente. Contudo, há que louvar a ousadia de um filme de estúdio quase mudo, que se inicia com uma cena deliberadamente chocante e que a partir daí se prolonga como um melodrama sobre o luto e a paternidade até o terror finalmente se instalar. E quando este chega, dá-lhe com tudo.

um lugar silencioso

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Nenhum jump scare aqui é barato ou esperado, e pô-lo nestes termos é narrar uma proeza. Há décadas que o silêncio antecipa o pânico no cinema de terror, tanto que podemos considerá-lo o maior spoiler; Um Lugar Silencioso, no entantorestaura o poder da quietude. O silêncio é imprevisível, e é para ser temido, reverenciado, testemunho maior ao poder desta obra, que força a audiência a espelhar o horror dos personagens, a penar crescentemente no escuro da sala.

O exercício de Krasinski é inspirado e certeiro, com uma personalidade visível na inventiva montagem e mistura sonoras e na cinematografia em glorioso 35mm, da dinamarquesa Charlotte Bruus Christensen (A Rapariga no Comboio, Vedações). É pena, no entanto, que a fita nem sempre apresente uma narrativa que sustente a luta dos seus personagens para além do superficial, o que se revela digno de menção ao constatar que pouco de significativo acontece na primeira metade de um filme com uns meros 90 minutos de duração.

Não obstante, a força do filme, dentro dos parâmetros do género, compensa e deixa perdoar esta fraqueza, e até lá e após tal existe uma entrega tremenda da parte de Blunt, que representa na perfeição a agonia da caçada e nos compele a sofrer consigo. Digna de nota, ainda a jovem Simmonds, surda desde a infância, que volta a dar uma performance tocante depois da sua estreia em Wonderstruck – O Museu das Maravilhas, que a catapultou no último Festival de Cannes.

um lugar silencioso

Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

É raro, nos dias que correm, chegar às salas uma fita de terror que nos que nos faça verdadeiramente baixar a guarda perante uma bizarria fictícia, e posto tal, não espanta que Um Lugar Silencioso tenha sido o filme sensação que foi no mundo inteiro. A sequela, provavelmente só oportunista, já está confirmada, mas para já, temos esta pequena pérola a aterrorizar corajosos pelo mundo fora, e se está nisso o mínimo de respeito por que Krasinski clama, ei-lo, na sua imparável e insaciável ameaça merecido.

Façam cuidado, muito cuidado.

7/10

Título original: A Quiet Place
Realização: John Krasinski
Argumento: Bryan Woods, Scott Beck, John Krasinski
Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe
Género: Drama, Terror, Ficção Científica
Duração: 90 minutos