blake lively
Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

Só Te Vejo a Ti: Blake Lively já bem longe de Gossip Girl

Marc Forster tem tido uma carreira variada enquanto cineasta internacional. Os filmes mais destacados do alemão serão obviamente 007: Quantum of Solace (2018) e WWZ: Guerra Mundial (2013), mas também foi ele que deu a Halle Berry o seu Óscar de Melhor Atriz em Monster’s Ball – Depois do Ódio (2001) e que colocou Ryan Gosling, Ewan McGregor e Naomi Watts numa subvalorizada trama lynchiana em Stay – Entre a Vida e a Morte (2005). Só Te Vejo a Ti – apresentado no festival de Toronto de há dois anos – é o seu mais recente filme e retoma os seus trabalhos mais dramáticos, num jogo de percepções entre dois personagens que guardam mais para lá do que aparentam.

Gina (Blake Lively) e o marido, James (Jason Clarke), têm um casamento quase perfeito. Cega desde a infância devido a um acidente de automóvel que a deixou orfã, ela é dependente dele, uma condição que fortalece a paixão de ambos. James descreve o mundo e o que os rodeia e Gina vê-o na sua imaginação. Quando é dada a Gina a oportunidade de ter um transplante de córnea e recuperar a visão, tudo parece um sonho. Isto até o mundo do casal ser virado do avesso. Aí, vão descobrir mutuamente a realidade perturbadora do seu casamento e, lentamente, aceitar que as suas vidas já não são o que eram.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

A assinar aqui também o argumento, Forster tece um dos dramas mais peculiares a estrear em sala nos últimos tempos. A dinâmica masculino-feminino tão pungente em Monster’s Ball regressa, se bem que numa outra proposta não menos provocadora. É o súbito avançar e enlouquecedor recuar da felicidade de Gina e James que move o coração da fita, levantando pelo caminho reflexões pertinentes sobre o que alimenta a intimidade. A trama faz-se de momentos, adições e desvios que não cairão no goto de todos – por exemplo, a fase de cegueira de Gina, belamente surreal, na veia de Stay. É, contudo, fascinante pensar em Só Te Vejo a Ti como uma construção narrativa invulgar; bastante linear, mas sempre na ânsia de nos deixar à deriva com os confrontos silenciosos e revoltas caladas dos jogos emocionais levados a cabo pelos protagonistas.

Lively nunca esteve melhor no grande ecrã; para trás ficaram os tempos da Serena de Gossip Girl (2007-2012) que lhe deu a fama, personificando a sua melhor construção em cinema desde a problemática Krista de A Cidade (2010). Ela é agora uma estrela e Só Te Vejo a Ti é todo dela. Dona de um magnetismo e serenidade hipnótica, Lively manipula-nos, desde a condescendência para com a sua personagem até ao desdém para com as suas escolhas, sempre no domínio da câmara de Forster, tão enfeitiçado por ela como nós.

Clarke poderia nem ter espaço para brilhar, mas também ele nos traz uma complexa performance, depois de outros maridos problemáticos como em Mudbound – As Lamas do Mississípi (2017) e O Grande Gatsby (2013). Um homem de respeito que gradualmente o perde; dá para lhe sentir a desolação no olhar, uma pessoa por quem até gostávamos de sentir pena, mas que torna tal impossível. Gina está na dianteira da narrativa, mas, em última análise, é James que se revela a figura mais intrigante, ao enveredar numa espiral de erros que deixam sempre o seu carácter no fio da navalha.

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Fonte: Divulgação/NOS Audiovisuais

A questão amorosa é o prato forte de Só Te Vejo a Ti, mas a sua raridade vai para lá dos personagens que expõe ao julgamento do público. Injustamente enterrado na avalanche cinematográfica dos festivais de outono, a mais recente obra de Forster pode não ser a mais singular da sua carreira, mas em qualquer resumé figuraria como uma peça curiosa. Embalada pelos peculiares acordes de Marc Streitenfeld e embrulhada com um sublime toque de CGI, é quase uma dissertação algo onírica sobre duas pessoas estragadas, sempre a apelar em fascínio aos sentidos e a ferver de uma intrigante pulsão erótica.

Um enganador ensaio sobre o desejo, a masculinidade, o matrimónio, e, ao fim e ao cabo, sobre o porquê de a necessidade e o querer não equivalerem a amor.

8/10

Título original: All I See Is You
Realização: Marc Forster
Argumento: Sean Conway, Marc Forster
Elenco: Blake Lively, Jason Clarke, Ahna O’Reilly, Miquel Fernández, Yvonne Strahovski, Wes Chatham, Danny Huston
Género: Drama, Mistério
Duração: 109 minutos

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