Sasha Rebecca Spielberg é dona de uma alma sensível. Uma mulher que gosta de contar histórias. Herdou isso do seu pai, o realizador Steven Spielberg, e da sua mãe e atriz, Kate Capshaw. Depois de algumas passagens discretas pelo grande ecrã, Sasha é agora narradora de outra arte: a música.

A norte-americana acaba de se lançar a solo. Facepaint é o título do seu primeiro EP que chegou às plataformas digitais esta semana (27). A pintura facial de Sasha elimina o apelido Spielberg e faz nascer o heterónimo Buzzy Lee, um dos projetos mais promissores deste ano.

Dona de uma voz doce, suave e emotiva, a menina prodígio de Los Angeles é muito mais do que a filha de um dos maiores realizadores de Hollywood.

Fotografia: Wmagazine

Os anos verdes

Spielberg canta desde que se lembra. Aos sete, os temas de Titanic e de Fame fizeram-na ter vontade de aprender piano. Assim o fez, mas viu o seu reportório moldar-se em torno da música clássica. Não era isso que queria. Desistiu. Aos doze, já escrevia as suas próprias canções.

“Quando tinha 12 anos costumava fingir que era uma mulher de 27. Prestes a casar e a viver insegura na relação.”

Era sobre aquele cenário imaginário que Sasha escrevia os seus primeiros versos -uma menina a querer ser mulher. Durante a infância cresceu a ouvir compositoras clássicas como Joni MitchellCarole King ou Carly Simon. Nomes que são uma influência assumida para o seu registo de composição e que ajudam a consolidar a sua veia 70’s.

Chegada à idade adulta, e em paralelo com a participação em filmes como The Art Of Getting By ou The Post, foi participando em alguns projetos musicais.  Ao lado do seu irmão Theo Spielberg, fundou o duo de dream pop Wardell, em 2010, onde os holofotes começaram a apontar para a norte-americana.

A reputação do apelido levou a que o grupo conseguisse alguma fama nos seus primeiros anos. Juntos, chegaram mesmo a lançar Love / Idlenessdisco de 2015 que não obteve o sucesso esperado. Alguns críticos da imprensa musical chegaram mesmo a justificar o sucesso inicial do duo pela influência cultural de Steven Spielberg.

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A faceta electrónica e a amizade de Nicolas Jaar

Nicolas Jaar, o irreverente compositor de música electrónica chileno, é um dos amigos mais chegados de Sasha Spielberg. A amizade vem desde os tempos de faculdade onde ambos estudaram Literatura na conceituada Brown University, em Rhode Island.

A relação tornou-se próxima e a colaboração era o caminho que ambos desejavam. A sintonia era perfeita e, em 2013, o universo experimental e electrónico de Jaar chocava com a voz emotiva de Spielberg. A fusão entre identidades originou Just Friends, um projeto de covers que juntava os dois amigos.

“Choro muito quando trabalho com ele (Nico). Mas ele faz-me sentir segura. Ele conhece-me muito bem”

Avalanche, cover do tema de Leonard Cohen lançado em 1971, era a prova de que a dupla resultava. A colaboração era entusiasmante deixava crescer água na boca dos fãs.

Buzzy Lee, a nova pele de Sasha Spielberg

Depois de algumas experiências na cena electrónica underground de Los Angeles durante os últimos anos, Sasha Spielberg consolidou a bagagem para se atirar em definitivo para um projeto a solo.

Hoje, é uma artista mais madura e sólida que soube absorver as diversas influências com as quais foi contactando ao longo dos seus 27 anos de vida.

Mas o medo de trabalhar sozinha continuava a assustá-la. O apoio do irmão Theo oferecia-lhe um conforto que ela pensava que não voltaria a encontrar.

“Tive que desafiar-me em todas as músicas. E o meu irmão já não estava lá. Foi então que o Nico (Jaar) apareceu.”

Spielberg tinhas as letras. Jaar as melodias e os beats downtempo. A química era perfeita. O contrato com a editora Future Classic surgiu e o heterónimo Buzzy Lee nasceu. Com Jaar a assumir as rédias da produção, Coolhand foi o single de lançamento para o seu primeiro EP, lançado em março deste ano.

A faixa-mãe de Facepaint é um reflexo do ambiente que podemos encontrar no extended play. Um arranjo suave e simples de Jaar acompanha a voz emotiva e doce da menina Spielberg. Porta aberta para o mundo vulnerável, misterioso e sensível de Buzzy Lee.

O videoclip segue essa mesma linha sombria e dreamyDavid Lynch deve estar orgulhoso. E o pai de Sasha Spielberg também.

Depois da boa receção de Coolhand, a norte-americana desvendou mais um tema. O último antes do lançamento de Facepaint.  No Her, uma balda dreamy sob um instrumental dramático de Nico Jaar, era o segundo single de apresentação do seu primeiro trabalho.

“No Her é sobre o pedaço de mim que eu tenho medo que o meu companheiro descubra que não existe. Sobre a ideia de alguém sobre mim que é diferente daquilo que sou. “

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Facepaint, o arranque de uma carreira a solo

27 de abril marcou a data de lançamento de Facepaint, EP que conta com cinco temas. Um trabalho linear e de uma sonoridade com traços dream pop pintados pela harmonia entre Buzzy Lee e Nicolas Jaar.

A faixa homónima Facepaint abre as hostes do disco. Uma canção doce que nos cola de imediato à voz singular de Lee. Entre sintetizadores que soam a 70’s, beats frescos, melodias leves que lembram Feist ou Fiona Apple, aterramos na melancólica On the Radio, onde ouvimos um piano que honra Joni Mitchell.

A viagem termina em Walk Away, faixa que faz as despedidas de Facepaint. Que a ausência não seja dolorosa e que o regresso aconteça o mais rápido possível. Nós agradecemos e a música também.